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Opinião
(H)À EDUCAÇÃO: Vitor Bonifácio, professor do Departamento de Física da Universidade de Aveiro
A Astronomia é para todos?
Vítor Bonifácio: a astronomia é para todos
"Quando foi a última vez que olhou para o céu?", pergunta Vítor Bonifácio, professor do Departamento de Física da Universidade de Aveiro e investigador do Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF). Neste texto, publicado no âmbito da rubrica "(H)À Educação, do CIDTFF, defende, através de exemplos portugueses ao longo da história, como a astronomia pode ser para todos.

Há muito tempo, se me permitem este início, um astrónomo amador português publicava as suas observações de estrelas variáveis nos Anais do Observatório de Harvard dos Estados Unidos da América.

Os valores que determinou para as longitudes do forte de Santa Cruz da ilha do Faial, e da antiga alfândega da cidade de Ponta Delgada substituíram, na Connaissance des Temps do Bureau des Longitudes de Paris, as obtidas pela expedição britânica da década de 1840 às ilhas dos Açores. João de Moraes Pereira (1855-1908) não possuía estudos superiores tendo frequentado, na sua cidade natal de Ponta Delgada, ilha de São Miguel, o curso liceal da época. Antes de ser contratado, com 33 anos de idade, como professor provisório de inglês do liceu da cidade, trabalhou, desde os 18, como caixeiro na loja de um tio. A partir de, pelo menos, 1892 dedica-se aos estudos astronómicos e, em 1900, calcula órbitas de cometas por divertimento.

A biblioteca deste autodidata continha livros de Mecânica Celeste de, entre outros, Poincaré. Tal como Moraes Pereira outros, homens e mulheres, com as mais variadas profissões, dedicaram-se, nos seus tempos livres, aos estudos astronómicos. Estes amadores, no sentido original da palavra, efetuaram descobertas importantes como o ciclo da atividade solar e deixaram extensas séries de observações astronómicas de manchas solares e do brilho das estrelas, por exemplo. Alguns foram ainda destacados  divulgadores da ciência.

Pelas características sui generis dos estudos astronómicos, a comunidade amadora sobreviveu à profissionalização das ciências, ocorrida durante o século XIX. Mantendo-se assim, ao longo dos tempos, uma profícua interação entre as comunidades amadora e profissional. Astrónomos amadores portugueses aparecem, na atualidade, como autores de artigos publicados em  prestigiosas revistas como, por exemplo, o Astrophysical Journal e a Nature.

Ser astrónomo amador exigiu, e continua a exigir, conhecimento, trabalho, tempo e, penso eu, paixão. As recompensas não foram, e não se esperam, materiais mas sim de outra ordem. Uma melhor compreensão da pequenez da nossa, por vezes insensata, espécie face ao cosmos, o encontro de conceitos científicos inusitados e a sensação de pertencer à maior das aventuras humanas – a procura do conhecimento – serão, talvez, explicações possíveis das motivações destes astrónomos.

A minha resposta à pergunta do título é, assim, um inequívoco sim. Por isso, não se acanhe. Os meios atuais permitem a partilha de informação à escala global, a existência de comunidades descentralizadas e de redes de entreajuda. Podemos sempre, claro está, consumir o nosso limitado tempo a ver mais umas dezenas de episódios de uma qualquer série...

Já agora, quando foi a última vez que olhou para o céu?

 

Vítor Bonifácio, investigador do Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro

 (Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico)

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