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Entrevistas
Reitor da UA entre dezembro de 1973 e dezembro 1978
Victor Gil - O primeiro Reitor da Universidade de Aveiro
Victor Gil
Dia 13 de março o Conselho Geral da Universidade de Aveiro (UA) elege um novo Reitor. Até lá, o jornal online da UA recorda as reportagens desenvolvidas na revista Linhas, nas edições de 2012, 2013 e 2014, com a vida e obra dos primeiros reitores da Academia de Aveiro. Victor Gil é o antigo Reitor que se segue.

Era uma vez uma Universidade que queria nascer. Era uma vez um Reitor certo de que a academia podia crescer forte e viver feliz para sempre. Era uma vez uma revolução de abril que quase interrompeu o parto.

Recuemos a 1973. Nesse ano, Aveiro recebeu luz verde de Veiga Simão, o então Ministro da Educação, para preparar os primeiros tijolos de uma instituição superior que fizesse a diferença numa região cujas empresas estavam famintas de especialistas, carentes de novas metodologias e ávidas por futuros alicerçados na investigação.

Esse cenário, o de um tecido empresarial que precisava de ajuda para crescer, estava bem presente nos vários estudos que Veiga Simão tinha em mãos. Estes, mais concretamente, apontavam para a urgência de dotar com profissionais qualificados as indústrias ligadas à cerâmica, ao ambiente, à eletrónica e às telecomunicações, áreas que ainda hoje são de referência da Universidade de Aveiro. Assim, de Lisboa veio a decisão: “Crie-se a comissão instaladora da futura UA”.

Parte de Abril ponderou travar nascimento da UA

Docente há 15 anos no Departamento de Química na Universidade de Coimbra (UC), Victor M. S. Gil era, no início dos anos 70, a autoridade máxima no país em Ressonância Magnética Nuclear (RMN). Primeiro português a especializar-se numa área que, mundialmente, dava os primeiros passos, o investigador já tinha edificado em Coimbra o Laboratório de RMN, um local único na Península Ibérica em meados dos anos 60.

Victor Gil tinha 34 anos mas já tinha um invulgar currículo como cientista e professor. O currículo servia perfeitamente para Veiga Simão o convidar a presidir à Comissão Instaladora da UA e, desse modo, tornar-se Reitor. Aceitou a missão porque nunca soube viver sem criar, sem inovar, sem dizer que sim a grandes desafios. Perceber exatamente as reais necessidades formativas das indústrias da região, definir áreas de atividade, escolher e preparar as licenciaturas a ministrar, encontrar bolsas para formar no estrangeiro os futuros investigadores e professores e iniciar a instalação física da UA eram algumas das missões da Comissão de Victor Gil.

Avance-se então um ano no calendário, mais concretamente para abril de 1974. No fervor das mudanças de Abril, em especial nas sentidas no Ministério da Educação, Victor Gil sabe que “em alguns círculos do poder foi seriamente colocada a possibilidade de não avançar uma universidade em Aveiro”.

O antigo Reitor Victor Gil recorda hoje uma reunião que teve com o então Secretário de Estado do Ensino Superior, aliás seu amigo e colega de Coimbra: “Esteve uma tarde inteira comigo a tentar convencer-me, amavelmente, de que, como já tínhamos democracia, não precisávamos de universidades novas”. Especialmente a 60 quilómetros de Coimbra e a outros tantos do Porto.

Contra o fecho, avançar com a academia mais depressa

Alarmada com a eventual intenção do poder de Lisboa, a Comissão Instaladora agiu rapidamente. O plano foi acelerar o parto da UA de forma a torná-la irreversível. “Se tivéssemos ficado à espera das grandes decisões políticas do Ministério em matéria de Ensino Superior, a UA podia não ter acontecido”, garante Victor Gil. Assim, alguns cursos abriram muito mais cedo do que o que estava previsto. O de Eletrónica e Telecomunicações, por exemplo, abriu mesmo em setembro de 1974, aprovado pelo Ministério depois de uma fundamentada argumentação e da disponibilidade de espaços e colaboradores pelo Centro de Estudos de Telecomunicações dos CTT em Aveiro.

Ironia das ironias é que, a mesma revolução que colocou em dúvida a necessidade da criação da UA, foi a mesma que permitiu, com a descolonização, a vinda para Aveiro de muitos professores da então Universidade de Lourenço Marques e que deram um peso crucial à viabilidade do projeto académico.

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“Em alguns círculos do poder foi seriamente colocada a possibilidade de não avançar uma universidade em Aveiro”, relembra Victor Gil.

Três anos depois de ter agarrado as rédeas da UA é tempo de balanços. A academia já era uma certeza mas o Reitor não estava contente face a algumas indefinições sobre o futuro institucional da UA. “Com conhecimento da Comissão Instaladora, escrevi uma carta ao Ministro da Educação e Investigação Científica, onde lhe dava conta da situação e pedia um maior envolvimento do Ministério”, desvenda.

A missiva continha ainda um outro recado. Quando veio para Aveiro, Victor Gil largou a docência e, em certa medida, a investigação científica, na expetativa de voltar três anos depois. Assim, a carta esclarecia o Ministro que, apesar desse pressuposto, tinha vontade de ficar mais um ano como Reitor se o Ministério se empenhasse mais com a UA. “Se esse empenhamento não puder existir, então considere a minha carta como um pedido de demissão”, rematava a caneta de Victor Gil. “Fui arrogante e insolente, as coisas não se escrevem assim”, reconhece 37 anos depois.

O Ministro não terá gostado do que leu e aceitou, de imediato, a saída de Victor Gil. Entre o alívio e a surpresa, arrumou a secretária, despediu-se das colaboradoras e apresentou-se dias depois no Departamento de Química da UA, local onde estava afeto como professor catedrático. “É isso que eu sei fazer, ensino e investigação. Para a gestão universitária não tinha experiência nem, naturalmente, pensava nela como uma carreira”, confessa.

À independência, à isenção e à inovação, no balanço que Victor Gil faz hoje dos três anos de liderança da UA, e com a tónica na letra i que tanto acha expressiva, junte-se “a insolência, a inexperiência e a ingenuidade, inclusive a ingenuidade política numa altura de revolução”.

Um miúdo que pode ser alguém

O primeiro Reitor da UA nasceu em 1939, em Santana, uma freguesia do concelho da Figueira da Foz. A mãe costurava para fora e trabalhava com os avós numa pequena mercearia. O pai era agricultor.

As posses da família eram modestas e, por isso, toda a ajuda era necessária. Quer no campo, ajudando o pai na rega do milho, quer atrás do balcão dos avós onde gostava de aviar frutos secos porque sempre metia um à boca “para comprovar a qualidade do produto”,

Victor Gil tinha o caminho traçado. E não, não era em Santana que o iria palmilhar. “O miúdo tem futuro! O miúdo pode ser alguém!”. As certezas que a professora sempre deu aos pais eram resultado das provas que Victor Gil dava na escola. Era o melhor aluno, uma posição cimeira que sempre procurou alcançar.

“Eu sentia essa responsabilidade, a de ser bom aluno e ter boas notas”, relembra Victor Gil. “O meu empenho na aprendizagem”, confessa, “era mais motivado pela necessidade de ter direito à bolsa de estudo e isenção de propinas do que muitas vezes por gosto”. Só assim, destacando-se pelas excelentes notas, conseguiu continuar a estudar e aliviar os sacrifícios paternos.

Era uma lição que, desde tenra idade, tinha bem estudada. E que profissão queria ter o pequeno Victor quando fosse grande? Bombeiro estava fora de causa porque o fustigava “a aflição do sino a tocar a rebate e a correria aflita de pessoas e baldes quando alguma chaminé da aldeia, por falta de limpeza, se incendiava”. Médico nem pensar porque “desmaiava facilmente no dia das vacinas”. Advogado muito menos pois “não tinha os grandes dotes oratórios que naquela época se associavam aos homens dos tribunais”.

Restava a Engenharia, “cativado especialmente pela Matemática que já considerava ser um mundo cheio de novidades à espera de serem descobertas”. Victor Gil já sonhava com a Ciência.

Viagem pioneira ao mundo do Nuclear

Depois de concluída a quarta classe, o futuro apontou-lhe o liceu da Figueira da Foz. E, aos 12 anos, seguiu para Coimbra onde o Liceu D. João III o recebeu até ao 7º ano de então. Um dia o professor de Ciências Naturais, por quem tinha uma grande admiração, falou-lhe da energia nuclear e de como era uma caixinha de surpresas com tantos ângulos escuros à espera de serem iluminados.

“O facto de o professor me ter chamado a atenção para aquela área foi para mim um clique”, recorda Victor Gil que ficou então com uma incerteza quase certa na cabeça: “não sabia bem o que era a energia nuclear mas decidi que era por ali que eu ia estudar”. A aposta estava feita e à saída do liceu escolheu Ciências Físico-Químicas, o curso que mais se poderia aproximar do tal nuclear, um mundo imenso que lhe encheria a cabeça com pontos de interrogação. Um curso na UC onde o Professor do liceu lhe garantira haver um Professor “muito conhecedor destas matérias” e muito atento ao recrutamento dos bons alunos para a Química.

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Victor Gil foi o responsável pelo primeiro laboratório português de RMN

Mas foi só no final da licenciatura, já em 1960, que o enigmático tema voltou em força à tona do horizonte de Victor Gil. Os seus professores no Departamento de Química, onde era assistente, convidaram-no a desvendar a espectroscopia da RMN e a doutorar-se em Inglaterra. A aceitar, Victor Gil seria certamente o escolhido para que, quando se especializasse e regressasse a Portugal, ajudasse a criar em Coimbra um laboratório de investigação dedicado a uma área que, nos grandes centros científicos mundiais, percorria os primeiros metros.

Victor Gil tinha mais perguntas que respostas sobre “um campo científico nascido há poucos anos e que ainda não estava a ser ensinado”. Mas os mistérios que aquela área de estudo lhe suscitou na cabeça, essa irrequieta sempre a alimentar-se de grandes desafios, foram-lhe muito sedutores. Aceitou a proposta.

Com a mulher, comprou passagem para terras de Sua Majestade Britânica, mais concretamente para a Universidade de Sheffield, onde terminaria, em 1965, o doutoramento como o primeiro português a compreender e aplicar a RMN.

“Inglaterra foi uma experiência ótima sob vários pontos de vista”, aponta Victor Gil referindo-se à enorme formação científica e humana com que o país o bafejou. Coisas simples espantaram e engrandeceram o português, naquela época nada habituado à imensidão e beleza dos jardins públicos ou à cordialidade e cavalheirismo com que decorriam os debates e trocas de ideias na rádio e na televisão.

A produção científica

De regresso a Portugal, a missão de Victor Gil estava já traçada. Tornou-se responsável pelo primeiro laboratório de RMN e pela orientação do respetivo grupo de investigação sediado no Departamento de Química da UC.

Os anos que se seguem a 1965 são conduzidos a uma velocidade cientificamente assinalável. Victor Gil foi autor ou coautor de mais de uma centena de trabalhos, principalmente sobre a teoria dos parâmetros espectrais RMN e em várias áreas da aplicação desta técnica em química orgânica e química inorgânica. Ao longo da carreira, o investigador orientou ou co-orientou 15 teses de doutoramento ou mestrado. E há 25 anos, com a chancela da Fundação Gulbenkian, ajudou a escrever o livro Ressonância Magnética, Nuclear – Fundamentos, Métodos e Aplicações, uma obra que ainda hoje é uma referência sobre RMN em língua portuguesa.

Já na primeira década deste século, orientou o seu último doutorando em RMN, passando a dedicar mais tempo a várias outras actividades. Na sua “Nota auto-biomatemática”, Victor Gil classifica-se como um “polinómio de múltipas variáveis” enquanto, diz, “o balanço não se torna identicamente nulo”.

Em paralelo com a investigação, Victor Gil teve uma longa carreira como docente de Química Geral, Química Física, Espectroscopia Molecular e Ensino de Química nas universidades de Coimbra e Aveiro (também lecionou na Universidade de Trás-os-Montes e Alto-Douro e no Instituto Politécnico de Tomar e deu cursos nas Universidades de Moçambique e de Sussex, em Inglaterra).

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Em 1995 assume a responsabilidade pela instalação e condução do primeiro centro interativo de ciência em Portugal: o Centro Ciência Viva de Coimbra

Trocar a Ciência por miúdos

Enquanto esteve no Departamento de Química da UA, deu o seu nome aos primeiros artigos científicos publicados pela jovem academia e assinou também os primeiros livros didáticos editados pela instituição. Cativar os mais novos para a Ciência, em particular os alunos dos Ensinos Básico e Secundário (aí incluindo os seus filhos), um prazer que despertou em Victor Gil na Inglaterra, foi sempre assumido como um outro projeto de vida. No campo do ensino da Química e da divulgação científica, Victor Gil tem no currículo a produção de dezenas de livros e de produtos de software educativo aos quais se juntam duas dezenas de artigos publicados sobre a Educação em Química.

Muitos o conhecem como autor de livros escolares, desde o Básico ao Superior, destacando-se os manuais de 12º ano de Química de que é co-autor, desde a introdução desse ano no Ensino Secundário. No plano internacional, marcou posição com o livro “Orbitals in Chemistry” publicado pela Cambridge University Press.

E no prazer de trocar a Ciência por miúdos, em 1995, assume a responsabilidade pela instalação e condução do primeiro centro interativo de ciência em Portugal: o Exploratório Infante D. Henrique, depois Centro Ciência Viva de Coimbra. Até hoje, é o timoneiro de um espaço que recebe anualmente 30 mil crianças dos ensinos Básico e Secundário e que desenvolve muitas outras atividades, desde a formação contínua de professores às relações entre a Ciência e as outras expressões da Cultura.

“Gosto de mostrar aos pequenos como a ciência pode ser divertida e mais acessível do que se pensa, e isso sem prejuízo do rigor”, diz Victor Gil. Quer o responsável ajudar a fomentar entre as novas gerações “a par do conhecimento, a competência e a capacidade de se pensar pela própria cabeça, de levantar perguntas, de analisar os factos com frieza e objetividade, de confrontar ideias com racionalidade, com tolerância, com respeito e atitude critica”. Por isso, é o principal dinamizador da coleção “Ciência & Cª”, publicações e kits didáticos do Exploratório.

Já estava na direção do Exploratório quando, em 2002, se reformou como professor de Química da UC. A UA, de imediato o convidou a regressar a Aveiro como professor convidado, e a título gratuito, de forma a que pudesse dar o seu entusiasmo a estudos sobre ensino e aprendizagem no Superior.

A UA queria ainda que Victor Gil ajudasse a lançar e coordenasse um Mestrado em Comunicação e Educação em Ciência. Não disse que não. Nunca diz que não a uma oportunidade de fazer e divulgar Ciência. Victor Gil voltou a dizer adeus a Aveiro, em 2008, mas “é sempre um prazer regressar ao campus universitário mais acolhedor de Portugal, um local onde tenho grandes amigos e boas memórias”.

 

Nota: este artigo foi publicado na edição número 18 da revista Linhas

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