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Entrevistas
Reitor da UA entre março de 1994 e julho de 2001
Júlio Pedrosa – 40 anos ao serviço da UA
Júlio Pedrosa
Dia 13 de março o Conselho Geral da Universidade de Aveiro (UA) elege um novo Reitor. Até lá, o jornal online da UA recorda as reportagens desenvolvidas na revista Linhas, nas edições de 2012, 2013 e 2014, com a vida e obra dos primeiros reitores da Academia de Aveiro. Júlio Pedrosa é o antigo Reitor que se segue.

É filho das dificuldades de um país desigual. Apesar disso – ou por causa disso – cresceu descontraído com o futuro. O que tivesse que acontecer, aconteceria que Júlio Pedrosa daria certamente conta do recado. Assim fez ontem, assim calcorreia hoje a viagem da vida. Nas incontáveis oportunidades que lhe surgiram ou que soube criar, abraçou a Química, foi Reitor da Universidade de Aveiro e Ministro da Educação. Este é o telegrama possível, que muito peca por escasso, de uma jornada de 67 anos dedicada ao Ensino e à Investigação mas também à ação cívica em prol dos outros.

Poderia ter sido pedreiro, filósofo ou economista com a mesma naturalidade com que hoje é um pensador de referência quando o assunto é a Educação. O vinho que começou a produzir recentemente na quinta que tem na Lapinha, no concelho de Armamar, serve para reafirmar “a ligação ao mundo da aldeia”. Afinal, um estado de alma que nunca abandonou.

Nasceu em 1945 perto de Cadima, uma aldeia do concelho de Cantanhede, num pequeno lugar chamado Estação de Lemede, espaço de despedidas e receções, onde via o pai, ferroviário, partir e regressar a casa de comboio uma vez por semana.

Com a mãe, professora do ensino primário, descobriu cedo que a Educação era um mundo bem maior do que aquele que os olhos de menino viam na sala de aula e no recreio. Um mundo que podia ser extremamente injusto para com os meninos do Portugal rural e atrasado de meados do século XX.

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Júlio Pedrosa, em Coimbra, com o seu supervisor de doutoramento Robert Gillard

“Uma ou outra vez fui com a minha mãe para a escola onde ela trabalhava, que era uma das mais pobres da freguesia, e ficou-me sempre na memória aquilo que era realmente uma escola de uma aldeia isolada do nosso país”. O futuro era um verbo que todos os alunos da mãe conjugavam de pés descalços na agricultura, ao lado dos pais. Em casa o pequeno Júlio aprendeu desde cedo que, para um menino de qualquer aldeia, estudar representava um esforço financeiro para as economias domésticas.

“Da minha turma, só eu e um colega é que fomos além da quarta classe”. Júlio e o irmão tiveram sorte. Júlio Pedrosa guarda bem as memórias de um sistema de ensino com malhas demasiado apertadas para acolher os meninos pobres.

“Não era uma vida fácil”, sublinha. Mas nunca quis fugir da terra que o viu nascer. “Sempre achei que devia fazer parte e ser solidário com o mundo em que vivia estando com eles e trabalhando com eles”, aponta. “Ainda hoje encaro assim a vida, continuo a ter bem presente a nossa aldeia”.

Do pai recorda uma frase lapidar dita aos dois pequenos herdeiros que se pode traduzir assim: “Se quiséssemos ascender na vida pela via educativa, o que para os meus pais era um sacrifício financeiro enorme, tínhamos que fazer o nosso esforço porque a alternativa seria trabalhar no mundo da construção civil”.

Os livros nunca deixaram as mãos dos dois irmãos. Mas a alternativa, a de trabalhar na construção civil, jamais assustou ou pressionou Júlio Pedrosa. “Nunca tive durante a vida qualquer problema com esse assunto”, refere. “Sempre pensei que se não conseguisse por uma via seria bem sucedido por outra. A possibilidade de ter de ir trabalhar para a construção civil nunca foi para mim um pesadelo, por isso, sempre fiz a minha vida de estudante descontraído e fazendo sempre outras atividades”, recorda.

Ativista, solidário e, afinal de contas, pedreiro

Interessado pela vida fora das salas de aula, nunca os estudos foram a única preocupação, muito menos a isolada prioridade de Júlio Pedrosa. “Na véspera de fazer a prova oral de Cálculo Infinitesimal na Universidade de Coimbra (UC), com um professor muito exigente, não prescindi de estar na minha aldeia a gerir aquilo que eram as primeiras competições de motociclos da terra”, afirma. Claro que no dia seguinte a prestação perante o docente “não foi perfeita” mas suficiente para cumprir os dois objetivos, passar e ver Cadima em festa.

“Isso foi uma constante. Sempre procurei compatibilizar aquilo que eram os meus envolvimentos cívicos ou de outra natureza, com aquilo que eram as minhas obrigações académicas, até porque tinha de apresentar bons desempenhos para continuar a ter a bolsa de estudo”, diz. Manteve essa postura a vida inteira.

Fez o ensino secundário em Coimbra, no Liceu D. João III. E foi em Coimbra que seguiu para a Universidade em direção à Engenharia Química. O comboio para lá e para cá, ainda o carregou todos os dias entre Cadima e Coimbra. Só no segundo ano da Faculdade, acreditando que estava garantida a continuação de uma bolsa de estudo da Gulbenkian, alugou um quarto na cidade.

Mas a aldeia não ficava para trás. A Associação Recreativa de Cadima que ajudou a dinamizar continuou a contar com a mão amiga de Júlio Pedrosa. Teatro e desporto foram apenas algumas das áreas que ajudou a implementar na aldeia. A Associação e a Juventude Agrária Católica - “sempre fui e sou católico” - foram duas das coletividades às quais se vinculou de alma e papel assinado. A independência é um valor do qual não abdica. Sempre.

“Talvez seja por não ter tido nunca o enquadramento para sentir que me devia alinhar por qualquer coisa que limitasse a minha autonomia”, diz quando questionado sobre o porquê de nunca se ter filiado em partidos políticos. Em casa, com o pai ausente a confiar em mim de uma maneira muito clara e isso deu-me forma de ir escolhendo sem ter o enquadramento familiar que me levasse a ir por aqui ou por ali”.

Foi também em Coimbra que encontra no MOJAF - Movimento Juvenil de Ajuda Fraterna um bom motivo para arregaçar as mangas e dar largas à cada vez maior vontade de dar, de ajudar, de se colocar ao serviço do outro. O Movimento, do qual chegou a ser presidente, construía casas para famílias pobres num terreno cedido por uma pessoa bem conhecida de Coimbra (e afinal, a construção civil passou mesmo pela vida de Júlio Pedrosa). O mesmo grupo de estudantes, aos fins de semana, chamou também a si a missão de levar ajuda a pessoas necessitadas do concelho de Coimbra.

Próximas paragens: Universidade de Coimbra e serviço militar em Angola

Em criança sonhava ser, tal como a mãe, professor do ensino primário. Mas no final do liceu outro comboio passou e entrou. A estação seguinte era a da Engenharia Química na Faculdade de Ciências da UC.

“Numa conversa com um amigo que tinha escolhido Ciências Físico-Químicas, ele falou-me da Engenharia Química como uma área interessante”. Foi o suficiente para se matricular sem saber muito bem ao que ia. O pai, veio a saber muitos anos depois, teria gostado de ver o filho no curso de Economia. “Mas ele nunca me fez referência a isso”, refere. Em casa, o jovem Júlio já era senhor do seu destino.

No final do 2º ano, durante uma prova oral de Química Orgânica, uma das mais bem sucedidas que teve, o professor desafia-o a mudar para o curso de Físico-Químicas. Acabado de chegar da Alemanha com uma nova área para implementar em Coimbra, a da Química Têxtil, o docente via em Júlio Pedrosa a pessoa ideal para a trabalhar a seu lado.

“Aceitei, até porque teria de ir para o Porto ou para Lisboa se quisesse continuar a estudar Engenharia Química”. As finanças sim, que não eram favoráveis a que fosse viver para tão longe de casa, mas, principalmente e mais uma vez, a rede de atividades sociais onde estava metido também pesaram muito na tomada de decisão. Mudou e, já no 3º ano, começou a trabalhar como monitor do investigador.

Em 1967, concluído o curso com 22 anos, torna-se assistente eventual na UC. “Mas como nunca tinha pensado na vida académica, não sabia sequer o que queria fazer daí para a frente”. A ausência de planos académicos não o preocupava. Mais cedo ou mais tarde, outro comboio haveria de passar rumo a algum lugar.

Certezas, certezas, só o Estado tinha para Júlio Pedrosa: serviço militar. Em setembro de 1968 foi para a Marinha. De 1969 até 1971 esteve em Angola a patrulhar o rio Zaire e a atividade pesqueira ao largo de Luanda. Um naufrágio na foz daquele rio devido a um tornado, e ao qual sobreviveu “por grande sorte”, e a solidariedade entre a população são as lembranças africanas que lhe saltam num primeiro exercício de memória.

Universidade de Aveiro, um desafio irrecusável

De regresso a Coimbra e à docência, inscreve-se nos dois últimos anos da licenciatura em Química - Ramo Científico para compensar os três anos de inatividade académica em Angola. É nessa altura que conhece o professor Victor Gil, criador do Laboratório de Ressonância Magnética Nuclear da UC. “Publiquei com ele o meu primeiro artigo científico”, diz.

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Em 1994, durante a tomada de posse para o 1º mandato enquanto Reitor da UA

E isso foi apenas um pequeno pormenor da jornada que esse encontro lhe provocou rumo à Universidade de Aveiro. “Um dia o professor Victor Gil diz-me que vai para Aveiro e pergunta-me se não quero ir com ele”, relembra. Convidado em 1973 pelo então Ministro da Educação Veiga Simão para presidir à comissão instaladora da Universidade, Victor Gil, que haveria de ser o primeiro Reitor da jovem academia, queria desbravar novas áreas científicas em Aveiro. Entre elas a Bioquímica, onde Júlio Pedrosa poderia ter um papel de peso na sua implementação. O desejo de Victor Gil em criar “uma universidade que rompesse com aquilo que era até então o modo de entender as universidades em Portugal, que criasse áreas novas e que respondesse e preenchesse as lacunas que existiam no país” convenceu-o.

Com planos para fazer um doutoramento na UC, Júlio Pedrosa repensa a vida, para na primeira estação à sua frente e apanha novo comboio, desta vez em direção à cidade da ria. As condições eram claras. A UA dava-lhe luz verde para tirar em Inglaterra um doutoramento em Química, na área da atividade ótica inorgânica, uma especialidade nova em Portugal e que Victor Gil queria desenvolver em Aveiro. No regresso, com a bagagem carregada de novos caminhos para a ciência, Júlio Pedrosa teria a missão de ajudar à criação do Departamento de Química (DQ) e do seu plano estratégico e de formar uma equipa de investigação em Química Inorgânica.

Assim aconteceu. Já com dois filhos, Júlio Pedrosa chega definitivamente à UA em 1977, depois de em 1974, antes de embarcar para a Universidade de Cardiff, aqui ter dado algumas aulas a trabalhadores dos CTT que eram candidatos ao primeiro curso da academia em Eletrónica e Telecomunicações.

Pouco tempo depois é convidado para integrar a comissão instaladora do Centro Integrado de Formação de Professores da UA, cargo que exerceu conjuntamente com o de professor no DQ até 1986. “Nesse ano fui para Inglaterra com a intenção de fazer um ano sabático e reativar assim a vida na investigação”, lembra. Já estava em Inglaterra quando o telefone toca. Do outro lado da linha Renato Araújo, o terceiro Reitor da UA, queria-o para seu Vice-reitor.

“As oportunidades sempre me foram aparecendo ao longo da vida. Limitei-me a escolher as que mais me interessavam”, afirma. Aceitou o convite e regressou a Aveiro em 1987 para assumir a vice-reitoria para os assuntos pedagógicos.

Nascida muito centrada na Formação de Professores, na Eletrónica e Telecomunicações, no Ambiente e na Cerâmica e Vidro, a UA tinha de crescer para outras áreas. “O professor Renato Araújo entendeu que se devia aumentar o leque dos cursos, portanto, foi nessa altura que se criaram as licenciaturas em Química Industrial e Gestão, em Engenharia e Gestão Industrial, em Gestão e Planeamento em Turismo e em Música ”, recorda.

No segundo mandato de Renato Araújo, Júlio Pedrosa assume a Vice-reitoria para os assuntos científicos com a grande preocupação de fazer crescer a infraestrutura científica da Universidade.

Um Reitor para a continuidade. Um Reitor para a consolidação

Mas “já estava há demasiado tempo na Reitoria”. O DQ, os assistentes que faziam doutoramento ou preparavam provas sob sua orientação e o trabalho de consolidação da investigação científica ganhavam peso. No último ano do mandato sai para regressar - definitivamente, julgava Júlio Pedrosa – à vida académica. Mas os colegas da Química fizeram-lhe uma “malandrice”. Nas eleições para o conselho diretivo do departamento elegeram-no presidente sem lhe dizer nada.

A nova viagem pelos laboratórios, curta, tem um desenlace inesperado, mais uma vez fora dos planos que tinha traçado. Com o final do mandato de Renato Araújo, em março de 1994, a cadeira maior da UA ficava vazia. Na academia, várias vozes apontavam Júlio Pedrosa como o sucessor ideal para o lugar:

“Tive muita gente a encorajar-me para avançar, por isso resolvi reunir com essas pessoas para saber o que achavam que deveria fazer o próximo reitor”. Concordou com os desígnios apontados. Avançou e foi eleito Reitor. Que o projeto da UA, que em 1994 já se tinha afirmado no país, fosse reforçado e consolidado. Esse era o caminho.

“Tinha exercido funções como Vice-reitor para os assuntos pedagógicos, científicos e cooperação com a sociedade, e, por isso, tinha uma noção bastante clara do que estava aí lançado e do que precisava de ser reforçado”, afirma. Júlio Pedrosa lembra que não foi por acaso que a UA começou nesse período a financiar projetos de investigação com fundos retirados do próprio orçamento. A academia de Aveiro foi de facto a primeira universidade portuguesa a ter um programa de financiamento a bolsas de estudo para pós-graduação com fundos do próprio orçamento. “Isso ajudou a consolidar a afirmação da UA no plano científico”, lembra o responsável.

No caderno das grandes apostas, Júlio Pedrosa tinha também a frente pedagógica e do ensino. Enquanto Reitor iniciou algumas experiências, “algumas delas infelizmente interrompidas”, como foi o caso da implementação do primeiro ano comum de ciência e tecnologia. Júlio Pedrosa aponta igualmente o trabalho realizado em torno dos currículos. “Repensá-los foi um excelente exercício de debate interno e de escolhas, o que constituiu claramente um passo de antecipação da UA a Bolonha já que, quando o processo europeu surgiu, a academia já estava preparada para fazer mudanças”.

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Uma das equipas de futebol da UA em 1978 (Júlio Pedrosa, em baixo, é o 2º à esquerda)

Foi igualmente durante o mandato de Júlio Pedrosa que a cidade de Águeda viu concretizada uma proposta que nascera no mandato do Professor Renato Araújo, afirmando-se como local ideal para realizar “uma abordagem inovadora para o ensino politécnico, de natureza profissionalizante, inscrito sobre aquilo que é o saber fazer”. Assim, em 1997, nasceu a Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Águeda (ESTGA) da UA que se assume atualmente como um centro de ensino superior politécnico único em Portugal.

Finalmente, recorda, “houve o trabalho de se pensar a organização da UA de uma forma distinta”. A esse propósito, ainda hoje Júlio Pedrosa pensa que “esse foi um projeto inovador que consistiu em criar um Instituto de Investigação, que já vinha do tempo do professor Renato Araújo, e consolidá-lo”. E, ao mesmo tempo, criar também um Instituto para a Formação Inicial, um Instituto para a Formação Pós-Graduada e uma estrutura para a cooperação com a sociedade, “porque na altura se acreditou que uma universidade com organização departamental precisava de ter estruturas intermédias de governança por funções”.

Das boas memórias dos primeiros passos da UA rumo ao mundo, pouco esforço faz para trazer à superfície “o sentido de comunidade universitária que se foi construindo entre docentes, não docentes e estudantes, sem nunca se prescindir da capacidade de debater as diferenças de opinião”.

Essa é-lhe a memória mais rica que guarda duma UA que ajudou a construir desde que aportou em Aveiro. “Era uma comunidade feita de diferenças, mas alinhada com o projeto, e isso acabou por ter reflexos no próprio ambiente que aqui se vivia e que me parece que era grato para todos”, diz. Unida que estava a comunidade académica foi meio caminho andado para se aproveitarem as oportunidades de financiamento que existiram a partir de 1986, com a entrada de Portugal para a Comunidade Económica Europeia, “selecionando muito bem o que precisávamos para sermos uma Universidade competitiva ao nível da investigação”.

Ser Ministro da Educação, uma experiência curta mas enriquecedora

Julho de 2001. As malas estavam já preparadas para uma deslocação ao Brasil, numa viagem que serviria para visitar uma escola exemplar de Medicina Dentária - “tínhamos a ideia de abrir na UA esse curso”. Recebe um telefonema. António Guterres, então Primeiro-Ministro, convida-o para Ministro da Educação. Júlio Pedrosa, que sempre assumiu a independência partidária, fica surpreso com o desafio.

Estaria o convite ligado ao sucesso que a UA já exibia no panorama do Ensino Superior nacional? “Essa pergunta terá de ser feita ao Engenheiro António Guterres”, responde. Até hoje não sabe exatamente quais os motivos que levaram o chefe do Governo a convidá-lo para assumir a pasta da Educação. Já no Brasil, decide afirmativamente.

“Foi uma decisão difícil, tomada depois de ter consultado algumas pessoas e de ter garantido que alguém assumiria a Reitoria plenamente”, lembra Júlio Pedrosa. Esses requisitos estavam preenchidos: “Tínhamos uma equipa reitoral muito coesa que se manteve e a professora Isabel Alarcão assumiu a Reitoria, motivos mais do que suficientes para saber que o projeto que tínhamos para a UA não sairia beliscado com a minha saída”.

Em agenda o Governo tinha a reforma do Ensino Básico e, já em adiantado estado de preparação, quando Júlio Pedrosa chega a Lisboa, a reforma do Ensino Secundário. “Havia a ideia de transformar o Secundário numa fase do desenvolvimento educativo das pessoas que valesse por si, ou seja, que permitisse a qualquer cidadão, depois de o concluir, entrar na vida ativa se assim o quisesse”, lembra. Esses eram os dois pontos críticos na agenda do novo Ministro Júlio Pedrosa, pontos esses que geravam no país uma enorme contestação.

Em dezembro de 2001, seis meses depois de assumir a pasta da Educação, António Guterres demite-se e com ele cai o Governo. Graceja: “Costumo dizer que fui ao Ministério da Educação”. Valeu a pena a curta experiência? “Sim, foi o tempo suficiente para ganhar uma compreensão diferente do que é o país e de compreender também que as pessoas com o meu tipo de percurso precisam de ser mais chamados pois têm uma compreensão do país real, nas suas diferentes determinações e, por isso, contributos a dar”.

“Portugal é um país brutalmente diversificado, sempre conduzido esquecendo, ou mesmo excluindo, uma parte do território”, aponta Júlio Pedrosa. “Infelizmente o nosso modo de conduzir o país sempre foi pensado com o foco no mundo urbano, sobretudo para Lisboa, e eu não me revejo nisso”.

Júlio Pedrosa tem outra postura que não se cansa de referir: “Continuo a estar mais interessado por quem está de fora desse modo de entender e conduzir o país e por isso, ainda hoje, continuo mais ligado à aldeia do que à cidade”.

Crise financeira obriga a UA a reprogramar-se para resistir

Regressa a casa, à UA e ao seu Departamento de sempre. Em 2005 é eleito presidente do Conselho Executivo da Fundação das Universidades Portuguesas (cargo que ocupa até 2007) e presidente do Conselho Nacional de Educação (onde se mantém até 2009).

Hoje, Júlio Pedrosa, aposentado desde 2009, com missões e programas em educação e ciência, está envolvido nos conselhos das Fundações Bissaya Barreto, Ilídio de Pinho, Jorge Álvares e no conselho fiscal da Bial. O antigo Reitor é ainda membro do Register Committee do EQAR - European Quality Assurance Register e faz parte do grupo de avaliadores do Programa de Avaliação Institucional da Associação Europeia de Universidades através da qual tem feito parte ou presidido a equipas de avaliação de várias universidades.

Quatro décadas depois de ter ajudado a nascer a UA, “um projeto que ganhou reconhecimento nacional e internacional porque foi sendo construído sem esquecer os elementos fundamentais e fundadores”, Júlio Pedrosa aponta para o futuro da academia. “Estamos num período que eu gostaria que fosse tomado para fazer uma reflexão séria sobre o que é preciso fazer para que este projeto ganhe ainda mais capacidade de se afirmar”, afirma. Um repensar que, no atual cenário de crise financeira que atravessa o país, “e que não vai desaparecer rapidamente”, servirá para que a academia de Aveiro “tenha capacidade para se pensar como um projeto que tem de resistir, de continuar a afirmar-se e a desenvolverse, consolidando ainda mais o que se conseguiu alcançar”.

Na Lapinha, numa pequena quinta vinícola no distrito de Viseu - bem no interior do país como não podia deixar de ser – tem agora em mãos um projeto novo, a produção de vinho e azeite. A técnica aprendeu-a ao longo da vida: escolher uma terra fértil, semear, cuidar, colher e saborear.

 

Nota: este artigo foi publicado na edição número 20 da revista Linhas

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