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Entrevistas
Entrevista com o Reitor Manuel António Assunção
"Temos uma Universidade reconhecida e líder em várias áreas"
Reitor
Numa altura em que a UA assinala o seu 44.º Aniversário, o Reitor Manuel António Assunção destaca os grandes marcos de uma instituição que considera ser hoje líder em várias áreas, capaz de servir muito bem a região e o país, internacionalmente reconhecida e dotada de um excelente ambiente físico e humano. Nesta entrevista, o Reitor dos últimos sete anos e meio aponta a Saúde como uma das questões que continuará a estar na agenda da Universidade e avança que a proteção do planeta, incluindo as alterações climáticas, a economia circular e a revolução digital serão alguns dos próximos grandes desafios a que a UA saberá certamente responder, garantindo assim a continuidade do seu relevante papel na sociedade.

Que grandes marcos fizeram a história da UA ao longo destes últimos 44 anos?

O primeiro marco é, obviamente, na área do ensino com a escolha estratégica de ter cursos singulares no panorama nacional que, por não existirem noutras universidades na altura, constituíam uma complementaridade à oferta então existente. No início Telecomunicações, depois Eletrónica e Telecomunicações.

Muitos outros vieram a seguir: Engenharia Cerâmica e do Vidro, Formação Integrada de Professores, por exemplo. Em fases subsequentes, Planeamento Regional e Urbano, Gestão e Planeamento em Turismo…apostando em áreas novas que estavam a desenvolver-se.

Houve logo, igualmente, a perceção de que a investigação é um pilar essencial, onde se ancoram os outros pilares, ou seja: a investigação é importante por si, é importante para aquilo que é a sua transmissão para fora da Universidade, mas também é essencial para o ensino de qualidade. Esta perceção da importância da investigação levou a que houvesse a preocupação de formar pessoas, a maioria fora de Portugal, para que pudessem fazer a diferença. Como disse o Professor Veiga Simão num dos seus discursos desses tempos "(…) o prestígio resulta do valor científico dos seus membros (…)". Esta ideia esteve muito presente na primeira etapa da Universidade.

A cooperação com a sociedade foi também uma preocupação inicial?

Sem dúvida. Desde logo pelo facto de termos nascido paredes meias com o Centro de Estudos de Telecomunicações (CET). O CET estava num edifício e a UA num igual ao lado; por isso, o facto é que nascemos nessa relação direta com o CET; uma entidade externa à Universidade, que é hoje a Altice Labs.

Uma segunda etapa está relacionada com o cimentar do modelo organizacional que é também único no país, um modelo sem faculdades, que favorece a multidisciplinaridade e o cruzamento de saberes. Esta fase é também muito marcada pelo levantar do que é hoje o essencial do edificado da Universidade, o nosso ambiente físico, o nosso campus. A escolha dos melhores arquitetos para o desenharem permitiu que tenhamos um campus original, bonito, moderno, uma mostra e montra da melhor arquitetura portuguesa contemporânea e que muito enobrece o espaço físico onde nos movemos.

No que toca à cooperação com a sociedade, e ainda nesta segunda etapa, importa destacar um protocolo emblemático com a Associação Portuguesa da Indústria de Cerâmica – o primeiro ou um dos primeiros protocolos assinados entre universidades e o meio empresarial – que numa fase posterior se intensificou muito com o alargamento das parcerias a outras áreas e setores industriais.

E no campo do ensino? Que momentos há a destacar?

Neste campo destacaria os primeiros estudos de inserção profissional, a reflexão sobre os planos curriculares, com o processo "repensar os currículos" e a abertura ao ensino politécnico, com a criação das escolas, em particular de duas escolas localizadas fora do campus principal, em Águeda e em Oliveira de Azeméis, assumindo-se elas próprias como instrumentos específicos de cooperação e de colaboração com as regiões circundantes.

Podemos depois evidenciar uma terceira etapa, que tem já a ver com um prestar de atenção à qualidade e à avaliação daquilo que fazíamos, com uma preocupação pela organização que éramos e pelas pessoas que constituíam a nossa comunidade.

Paralelamente, consolidámos a aposta na investigação. O Programa Ciência foi instrumental nesta fase, e o recurso a receitas próprias permitiu-nos realizar algumas das escolhas políticas que entendíamos dever ser feitas.

Estaremos agora a viver uma nova etapa?

As etapas são uma forma que temos de categorizar o tempo, mas as coisas decorrem sempre num regime contínuo e com a interpenetração das várias etapas. Em todo o caso, para uma melhor clareza da resposta, podemos referir que esta quarta etapa se carateriza muito pelo alargamento da missão da Universidade no que concerne à valorização económica e social do conhecimento, com a criação, em distintos momentos, de várias ferramentas como a UNAVE e a grupUNAVE, a Unidade de Transferência de Tecnologia (UATEC) e, mais recentemente, as Plataformas Tecnológicas.

Neste âmbito devemos destacar também a cooperação mais ligada às cidades, nomeadamente à de Aveiro. Percecionámos a importância dos antigos alunos e fizemos deles os nossos embaixadores, criando, para tal, lógicas relacionais com eles, como é o caso do Sistema Integrado de Gestão de Acompanhamento de Antigos Alunos da Universidade de Aveiro (SIGAAA).

Fomos a Universidade que per capita mais sucesso teve na captação de fundos europeus

A internacionalização é também uma preocupação recente?

O cuidado crescente com a internacionalização, tanto do ponto de vista de atração de mais alunos estrangeiros, hoje com ênfase particular, como de mais projetos europeus, e também a pertença a mais redes transnacionais, de que é exemplo o European Consortium of Innovative Universities (ECIU), têm sido apostas permanentes. Há, no entanto, outras, como a pós-graduação e a informatização da própria Universidade, que importa sublinhar.

Apostámos, ainda, numa política de estágios que cria múltiplos canais de relacionamento com o mundo exterior e, ao mesmo tempo, propicia a cada vez mais alunos esse contacto com a realidade para além do meio académico. Estas duas vertentes essenciais foram consubstanciadas por uma política que atinge, atualmente, já perto de 1500 estágios/ano de várias tipologias.

O investimento na Ciência foi notório.

Houve uma preocupação com a manutenção e melhoria do parque científico da Universidade – um investimento em infraestruturas científicas novas ao nível do que melhor existe no mundo e na modernização do equipamento já existente – que foi feito com o recurso a receitas próprias e com a ajuda fundamental de fundos europeus. Fomos a Universidade que per capita mais sucesso teve na captação de financiamento europeu e a segunda em valor absoluto para este efeito.

Este esforço também é fundamental no alargamento da missão da Universidade e abertura ao que nos rodeia, do qual as cátedras convidadas são uma imagem de marca; a que se associam múltiplos projetos e protocolos, que celebramos anualmente com empresas e outras estruturas. Tudo isto contribui para o reforço da nossa capacidade de produção de conhecimento novo, de fazer investigação e, portanto, consolida o nosso envolvimento na cooperação com a sociedade e a nossa eficácia na passagem do conhecimento para fora da Universidade.

Em suma: ao longo destes 44 anos é visível a existência de um pensamento estratégico por parte da Universidade, que nos permitiu chegar e estar hoje onde estamos.

E que Universidade temos hoje?

Temos uma Universidade reconhecida e líder em várias áreas a nível nacional. É uma Universidade que serve muito bem a região e o país, que tem um reconhecimento internacional. Tem um ambiente físico e humano muito, muito bom e, portanto, é uma Universidade que tem uma capacidade muito consolidada, uma competitividade assinalável. Penso que temos todas as condições para continuarmos a fazer bem e, quem sabe, ainda melhor para sermos mais úteis à sociedade a que pertencemos.

Terá a nova organização e modo de funcionamento da Universidade decorrente da implementação do Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior (RJIES) contribuído também para esta casa que temos hoje?

Faço uma leitura positiva quer do RJIES, quer da passagem da Universidade a Fundação. Não é fácil distinguir os dois aspetos porque os seus efeitos aconteceram ao mesmo tempo. Uma marca fundamental do RJIES traduz-se, na nossa casa, na mudança da estrutura de gestão, que levou a que os diretores passassem a ser designados por um processo, que me parece feliz, através de um Comité de Escolha. Os candidatos têm que o querer ser e apresentar e discutir um programa numa audição pública. Considero que é um modelo que tem as suas virtualidades, que foge ao modelo de nomeação pelo Reitor e, também, ao modelo de eleição direta de bottom-up por parte das unidades orgânicas. Parece-me, por isso, que se encontrou aqui um modelo equilibrado que permite que haja voluntarismo, no melhor sentido do termo, no querer ser diretor; e depois, também, que obriga à definição de um programa e de metas para a própria unidade orgânica, o que constitui um compromisso, sobre o qual quem concorre se vê, no final, obrigado a prestar contas. Tudo é transparente.

O RJIES permitiu, ainda, um agilizar das estruturas de decisão. Conseguiu-se ir plasmando um modelo que permite um equilíbrio razoável entre, por um lado, participação e eficácia na decisão e, por outro, responsabilidade e contributo por parte da própria unidade orgânica. Mais, os contratos programa que este modelo também veio permitir estabelecer entre a Reitoria e as unidades orgânicas, com a clarificação do que é devido a um e a outro, usando indicadores mensuráveis, é igualmente positivo do ponto de vista organizacional.

Não vê então pontos fracos neste modelo?

Este modelo assenta muito no Conselho de Diretores, estrutura informal, mas que é uma peça chave por ser nela que a comunicação e a consensualização têm de ocorrer. Quer isto dizer que uma das potenciais debilidades do modelo é esta dependência da boa vontade dos Diretores em passarem palavra e proporcionarem às unidades que dirigem aquilo que vai sendo consensualizado e, por outro lado, recolherem elementos que possam levar a novos entendimentos. É óbvio que a comunicação/participação se joga muito aqui. Se as pessoas não cumprirem o seu papel, pode haver um sentimento de menor participação nas decisões e um efetivo mitigar dessa participação, o qual pode corresponder a um indesejável distanciamento.

Ser uma Universidade-Fundação tem sido uma mais-valia para a instituição?

Com a passagem a Fundação, a UA identificou cinco indicadores que constituem a base do contrato-programa com o Governo; e, embora o Governo nunca tivesse cumprido a sua parte – não houve transferência do fundo previsto para a Fundação –, o facto de termos inscrito esses indicadores e a sua evolução desejável ao longo do tempo, obrigou-nos a ter "guias de marcha" que nos permitiram caminhar com sentido estratégico. Quer isto dizer que, mesmo sem esse "dote", fomos capazes de atingir, e até superar, os objetivos a que nos tínhamos proposto. Isto assumiu-se, desde logo, como uma vantagem.

Outro benefício concreto foi a possibilidade que tivemos de criar carreiras próprias em funções privadas. Uma delas, a carreira de investigadores, permitiu-nos recrutar a um nível elevado e com isso garantir a necessária retenção de talento. Um terceiro aspeto positivo refere-se à gestão do património que o regime fundacional nos permite fazer, através do Conselho de Curadores, com a flexibilidade inerente. Há ainda outros aspetos não despiciendos como a ausência de cativações que se revelaram muito úteis no governo e gestão da casa.

Considera assim que as virtudes do modelo fundacional superam claramente quaisquer dos seus eventuais constrangimentos?

As vozes sobre os medos do estatuto fundacional não têm, do meu ponto de vista, nenhuma razão de ser. Não há nada que pudéssemos ter feito, se não fossemos Fundação, que não fizemos enquanto Fundação e houve várias coisas que fizemos por sermos Fundação, que não teríamos feito se o não fossemos. Esta é a realidade dos factos.

Agora, é claro, está por consagrar na prática muito daquilo que o regime fundacional pressupunha; ou seja, na verdade o regime fundacional foi coartado naquilo que tinham sido as premissas constitutivas, em particular no que diz respeito aos instrumentos de gestão e ao fundo prometidos.

Acresce, ainda, o facto de termos sido uma das primeiras instituições a aderir ao estatuto fundacional, o que nos associou a uma imagem de instituição bem gerida, com um volume de receitas próprias superior a 50 por cento.

descrição para leitores de ecrã

A UA contornou a crise com a capacidade de gerar receitas próprias

A crise generalizada trouxe nos últimos anos sérios constrangimentos financeiros às IES. Como conseguiu a UA contornar estas dificuldades?

Apesar dos últimos sete anos terem sido anos de constrangimentos orçamentais, a UA conseguiu, através da mobilização de todos, continuar a gerar as receitas complementares ao Orçamento do Estado, que, inclusivamente, nos permitiram fazer, como já referenciado, um investimento significativo na modernização do equipamento científico. Há que dizer que os maiores entraves estiveram sempre mais do lado orçamental do que do lado da tesouraria, porque o dinheiro gere-se num quadro orçamental, através da distribuição pelas rubricas de acordo com as regras da Direção Geral do Orçamento.

Foi por isso que se investiu mais em equipamentos do que em recursos humanos?

Exatamente. Isto aconteceu porque havia um plafond salarial e regras da sua utilização que não nos davam margem para abrir concursos. Estávamos a aplicar em recursos humanos o máximo de verbas que a lei nos permitia usar. A flexibilidade aí era nula. Como não podíamos fazer investimentos nas pessoas em termos de recrutamento e promoção, investimos em equipamentos, até porque com equipamentos obsoletos não podemos ser competitivos. Agora, é certo, no fim do dia são as pessoas que fazem a diferença. Se pudéssemos escolher, obviamente não tendo descurado o investimento em equipamento, teríamos feito muito mais investimento nas pessoas.

No entanto, é bom que se diga que, apesar de tudo, a existência de carreiras em funções privadas deu-nos a flexibilidade suficiente para adequar o conteúdo funcional de um conjunto razoável de pessoal técnico, administrativo e de gestão. Aquém do desejado, naturalmente.

 

Relações consolidadas com empresas de topo

Nos últimos anos a UA tem feito uma grande aposta em projetos de cooperação com a sociedade onde sobressaem o Parque de Ciência e Inovação (PCI), o ECOMARE, os protocolos com a Bosch e a Navigator ou as apostas na área da Saúde. O que gostaria de destacar em relação a estes projetos?

Não referindo nenhum desses projetos, em particular, todos eles são demonstrações da capacidade da UA em se relacionar com empresas e entidades determinantes na nossa vida coletiva. Temos há muitos anos a Nokia no nosso campus que tem sido um parceiro desde sempre do Instituto de Telecomunicações, o qual também engloba a Altice, outro parceiro de especial referência. Somámos a Bosch e a Navigator ao grupo de empresas com quem temos colaborações aprofundadas, muito positivas, não só para a UA, mas também para a região, já que estamos a falar de grandes empregadores e de centros de competências de nível mundial. Portanto, sermos considerados parceiros destas empresas é um reconhecimento do nosso papel.

Das grandes apostas da UA ao nível da cooperação com a região pode destacar-se o PCI?

O PCI é um projeto que vem do mandato anterior aos meus e que tem, desde logo um grande valor simbólico porque envolve 19 entidades de variadíssima índole. Para além da própria UA, estão envolvidos no projeto do PCI a Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro, com os respetivos 11 municípios, empresas, instituições financeiras e associações empresariais, num projeto que tem uma capacidade agregadora e integradora.

Constitui um instrumento por excelência para fazer a extensão da atividade da UA em projetos de investigação aplicada, de desenvolvimento e de inovação com vários parceiros potenciais.

E a localização do PCI, no município de Ílhavo e junto ao campus da UA na zona da Agra do Crasto, em tudo facilitará esse processo.

O PCI vai ser contíguo ao próprio campus. Se pensarmos na expansão do Hospital Infante D. Pedro e na relação mais estreita na área da Saúde entre este Hospital e a própria UA, podemos facilmente visualizar um contínuo desde o atual Estádio Mário Duarte até ao extremo do PCI. Ao todo estamos a falar de uma área de mais de 150 hectares que podemos facilmente conceber como um cluster fortíssimo de inovação, um autêntico campus de inovação, para Aveiro, para a região e para o país.

Quando é que o PCI estará a funcionar em pleno?

Esperemos que no primeiro trimestre de 2018.

Saúde continua a ser prioridade

A saúde é outra das grandes apostas da UA.

Inscrevi a Saúde no meu segundo mandato como uma prioridade para o desenvolvimento da UA por duas razões principais. Primeiro, porque é óbvio que a Saúde é algo que vai ter uma importância crescente no mundo em que vivemos, incorporando cada vez mais ciência multidisciplinar a um ritmo crescente. Cada um de nós quer a melhor saúde possível, quer acesso às melhores tecnologias e aos melhores métodos terapêuticos e de diagnóstico.

Por outro lado, cidadãos e estados querem que isso aconteça com os menores custos possíveis. Há aqui o desejo legítimo de podermos ter acesso a melhor saúde num quadro comportável para as finanças públicas. E isto só se consegue com maior conhecimento. Portanto, se pensarmos no facto de termos enormes valências em muitas áreas determinantes para a Saúde, se percebermos que temos excelentes condições para podermos ser úteis nessa matéria, não poderíamos nunca alhearmo-nos deste desígnio. Se ficássemos de fora não só seria mau para nós, como mau para o país. Por isso, a parceria da UA com o Centro Hospitalar do Baixo Vouga, com a Câmara Municipal de Aveiro, com a Universidade Nova de Lisboa e com a Administração Regional de Saúde do Centro é um instrumento que consubstancia esta aposta. Quero, ainda, mencionar o projeto Teaming em Medicina Regenerativa e de Precisão, por se tratar de uma parceria com outras instituições de ensino superior de grande fôlego.

Que grandes objetivos pretende cumprir a UA e os seus vários parceiros para a área da Saúde?

Melhor prestação de cuidados de saúde para todos. A região tem altíssimos índices de desenvolvimento económico, social e cultural, mas no que à saúde diz respeito é preciso fazer bem mais. Precisamos de contribuir para termos uma prestação de cuidados de saúde melhor.

E como é que mais e melhores cuidados de Saúde para todos se concretiza?

É fundamental criar uma dinâmica de atração de talento também na área da Saúde, porque é o talento que faz sempre a diferença. Quando referimos talento nesta área pensamos logo em melhores profissionais de saúde. A criação de sinergias entre o Centro Hospitalar do Baixo Vouga e a UA em que, a par do ensino, possamos também contribuir mais fortemente para a investigação pré-clínica e clínica é essencial. Com a possibilidade dos profissionais de saúde lecionarem na UA e colaborarem nos nossos projetos de investigação, com a possibilidade dos profissionais da UA irem ao Hospital e inscreverem a sua ação nessas frentes de investigação, com certeza que conseguiremos estar mais perto dessa dinâmica e sinergia desejadas.

A expansão das infraestruturas do Hospital de Aveiro para os terrenos do Estádio Mário Duarte é essencial para concretizar a aposta da UA na Saúde?

É um instrumento importante nesta trajetória de colaboração que o Programa Mais Conhecimento Melhor Saúde pressupõe. Com essa expansão permitir-se-á haver um reforço da capacidade do ambulatório e uma dotação do Hospital com instalações dedicadas à prática do ensino e da investigação.

Voltando ao PCI, também este terá um papel na Saúde?

Também no PCI é natural que se instalem empresas interessadas na área da Saúde e que se dinamizem projetos de inovação nessa área. Aliás, o que queremos é que haja um contínuo de interações entre empresas, unidades de investigação e o próprio Centro Hospitalar.

A Medicina continua a ser uma aposta da UA?

A Medicina é ela própria um indutor da dinâmica que referi. Acho que a Medicina faz sempre sentido. Veja-se bem o que aconteceu noutras paragens, por causa da Medicina, em termos de atratividade e do que ela gerou. Contudo, o que estamos a fazer na área da Saúde é estruturante para a criação de um centro académico clínico, que espero que possa surgir a curto prazo. Porque há mais coisas importantes para além da Medicina que estão a acontecer e é nisso que estamos, firmemente, empenhados.

O ECOMARE é o nosso instrumento para a investigação e a transferência de conhecimento na área do Mar

Inaugurado em junho deste ano, o ECOMARE assume-se como uma enorme aposta da UA no Mar e um valioso instrumento de ligação à sociedade. Concorda?

O ECOMARE não pode ser desinserido da estratégia global da UA em cooperar cada vez mais com o exterior. Não está no campus, pela natureza daquilo que trata, tornando óbvia a sua localização perto da ria e com acesso fácil ao mar. É o nosso instrumento para a investigação e a transferência de conhecimento na área do Mar. O ECOMARE tem duas grandes valências, uma para reabilitar animais marinhos, naquela que é uma capacidade nacional única e rara a nível internacional; e outra consubstanciada em laboratórios de uso comum, que é exatamente o nome que atribuímos aos espaços edificados que temos no PCI. São laboratórios destinados, simultaneamente, à investigação, à incubação de empresas e à prestação de serviços. Os equipamentos não escolhem aquilo para que são utilizados, nós é que escolhemos o uso a dar aos equipamentos.

Queremos que exista mais uma vez ali essa osmose entre quem se dedica à investigação, quem faz incubação de novas ideias e as gentes das empresas que precisam de testar hipóteses e metodologias. Esta prática insere-se perfeitamente na lógica do PCI.

A estas apostas junta-se um campus cada vez mais internacional. De que forma a presença na UA de mais de 80 nacionalidades tem tido repercussões na cultura e identidade da Universidade?

Como já referi, a internacionalização é fundamental. Há uma relação muito estreita entre a qualidade das instituições e o respetivo nível de internacionalização. As melhores universidades são as mais internacionais e vice-versa. Como já mencionado, a internacionalização não tem acontecido apenas pelos alunos, radica nos projetos internacionais e na integração de redes transnacionais, o que vem ocorrendo em grande número. Por isso, a internacionalização tem contribuído para a transfiguração contínua da Universidade.

Para além disso, também a comunidade académica, na individualidade de cada um, beneficia da mundanidade do campus.

Precisamente. Há um aspeto extremamente importante: um ambiente internacional ajuda também a formar melhor os nossos alunos que não saem de cá. Enviamos bastantes alunos para Erasmus, temos alguns estágios no estrangeiro, mas é óbvio que nem todos têm possibilidade de ter uma experiência fora do país. Mas podem ter essa experiência "internacional" dentro do campus. À medida que o campus se internacionaliza todos têm oportunidade de falar mais línguas e de contactar com diferentes culturas. Isso é um enorme enriquecimento para um mundo que queremos cada vez mais inclusivo e que sabemos que é cada vez mais global e "mais pequeno".

Formar cidadãos cosmopolitas é uma das missões mais nobres da Universidade

Considera que, também para o futuro dos alunos, é muito importante esse contacto com pessoas de todo o mundo?

É crucial porque ganham competências linguísticas e capacidade de perceber e de se adaptar a outros ambientes, o que é muito proveitoso para eles, enquanto futuros profissionais. Mas, diria, a internacionalização da UA é igualmente muito enriquecedora para a formação dos estudantes enquanto cidadãos, já que o cosmopolitismo é algo fundamental. A missão das universidades mais nobre de todas é a de formar cidadãos cosmopolitas, capazes de compreenderem e de se relacionarem com o outro e com as respetivas diferenças. Tal é determinante no enriquecimento individual da pessoa e é certamente o mais importante instrumento para a paz no mundo. No dia em que formos todos capazes de nos colocar no lugar do outro os conflitos e as guerras são menos prováveis. A internacionalização também serve para isso.

Cada vez mais a UA e as restantes universidades públicas nacionais são presença assídua nos rankings internacionais de avaliação da qualidade das instituições de ensino superior. De que forma isso demonstra o bom trabalho que por cá se faz?

É bom que as universidades portuguesas apareçam nos rankings com algum destaque e que haja esse reconhecimento internacional da qualidade do ensino superior português.

Quer o ensino, quer a nossa investigação têm muita qualidade. A nossa formação de profissionais é reconhecida pelas grandes empresas e por outros setores como uma formação de enormíssima qualidade: os rankings acabam por refletir isso mesmo. E ao fazerem-no são eles próprios indutores de motivação das pessoas, no fundo as responsáveis por estarmos nesses rankings. Quando isso acontece há um efeito multiplicador. É com orgulho que digo, sempre, que Portugal tem seis ou sete universidades que aparecem nas 500 primeiras do mundo. É um caminho de batalha constante, o de nos capacitarmos melhor para sermos mais competitivos, para podermos ser mais úteis e com isso termos mais atividade num ciclo de realimentação positiva e contínua. Esta é a lógica da espiral virtuosa que precisamos de garantir.

E o futuro? A Universidade não está parada, está em constante mudança. Para onde ruma a UA?

O futuro é sermos cada vez mais relevantes na resposta aos grandes desafios que se colocam à sociedade.

Já se vislumbram que desafios serão esses?

Obviamente já podemos antever alguns: as alterações climáticas, as questões ligadas à área da Saúde, a distribuição da riqueza ao nível mundial, a digitalização da economia ou o desvanecer das fronteiras entre a esfera física, biológica e digital, que lança um enorme repto à própria indústria. A que juntaria também a questão da sustentabilidade ao nível planetário. Sabemos hoje que extraímos cerca de 60 mil milhões de toneladas de matérias-primas cada ano e reutilizamos apenas sete por cento, uma situação que não pode continuar. Sublinho ainda a atenção que devemos dedicar à correção do desequilíbrio estrutural do nosso país e da consequente necessidade de promover maior coesão entre regiões.

O caminho da UA passará pela capacidade de dar boas respostas a esses desafios?

O futuro da Universidade é, repito, ser cada vez mais pertinente nessas respostas. E quanto mais o for mais sucesso vai ter. Nos próximos 10/20 anos a Universidade estará muito centrada neste desafio: como é que nos devemos organizar para podermos ser mais relevantes nestas frentes que envolvem tudo, desde a educação, a criação de conhecimento e a respetiva transferência para a sociedade, o ajudar a pensar os grandes problemas societais.

E quando falamos em educação temos de dar atenção, por causa desta voragem da tecnologia e da atração pela inovação tecnológica, às Humanidades e às Artes porque o Homem não é só razão. O Homem é razão, é sociedade, é emoção… Há necessidade de educar o Homem nestas vertentes todas, e as Humanidades e as Artes têm um papel determinante neste processo. Não pode haver esse tal cosmopolitismo, de que falei, não pode haver um entendimento do mundo, não pode haver resposta a estes desafios globais se não conseguirmos integrar, cada vez mais, as disciplinas do lado mais técnico com o lado mais humanístico. Porque é essa conjugação que nos ajuda a entender melhor a evolução do comportamento humano no mundo em que vivemos e em que tudo flui com maior rapidez.

E internamente? Que futuro terá de calcorrear a UA?

A UA, tal como outras universidades, tem de rejuvenescer. Há realmente necessidade de injetar sangue novo na vida da Universidade. Este é certamente o desafio maior e, por isso, estamos agora a abrir concursos na exata medida do que nos é possível efetuar. E é nesse caminho que devemos continuar, acautelando, naturalmente, a sustentabilidade do projeto UA no seu todo. Com certeza, a justiça relativa entre as pessoas é algo ao qual a Universidade deve dar a devida atenção, de modo a podermos estar todos crescentemente motivados e num melhor ambiente humano. Esse bom ambiente humano tem sido, aliás, um dos grandes fatores do sucesso da UA. Apesar de na Administração Pública os instrumentos para contrariar essas injustiças serem escassos, temos de cuidar desse ambiente humano, temos de cuidar das pessoas. O rejuvenescimento e o cuidar das pessoas devem, por isso, continuar a constituir uma preocupação da Universidade no seu futuro mais próximo.

Que gostaria que os alunos levassem daqui?

Uma melhor perceção do mundo, estarem mais adaptados a ele, poderem viver em ambientes mais diversificados, terem mais capacidade e oportunidades de escolha ao longo da vida. E hoje o mundo muda muito depressa, é preciso sabê-lo ler hoje, mas é preciso ter a capacidade de o continuar a ler.

E é isso que é fundamental, que os alunos saiam daqui com essa bagagem multivivencial que lhes permita ir sempre lendo o mundo onde quer que vivam. Se o conseguirem fazer, as suas possibilidades de escolha serão maiores e, por isso, possivelmente terão uma vida mais preenchida e mais feliz. É isso que queremos num Campus que Pensa, mas que seja também um Campus que Sente.

descrição para leitores de ecrã O lado pessoal do Reitor Manuel António Assunção

Como se define como pessoa?

Discreto, conversador e contemplativo.

Traço principal do seu carácter?

Não desisto das coisas em que acredito. E sou um otimista, privilegio o bom senso.

E defeitos?

Há dois: a impulsividade que toda a gente conhece e, parafraseando Oscar Wilde, "posso resistir a tudo, menos à tentação".

Que qualidade mais aprecia em si?

Algumas tendo, não me compete a mim apreciá-las. Mas sempre diria que consigo pôr-me no lugar do outro. Se toda a gente conseguisse pôr-se no lugar do outro seria tudo muito mais fácil. Não tenho problemas em autocriticar-me e em dizer que errei.

Que facto histórico considera mais relevante?

Na realidade em que vivemos, aponto o processo de construção da União Europeia que teve enormes repercussões na qualidade de vida dos portugueses e, externamente, enormes repercussões na maneira como a Europa é vista pelo resto do mundo.

Quantas horas precisa de dormir para se sentir em forma?

Sete.

O que não dispensa no dia a dia?

De não repetir todas as rotinas.

Como gosta de ocupar os tempos livres?

De muitas maneiras diferentes. Por exemplo, gosto muito de jardinar e de andar de bicicleta.

Que livros o marcaram?

"O Guardador de Rebanhos" do Alberto Caeiro. Marcou-me muito e leio-o sempre que posso. Foi-me dado a conhecer pelo Prof. Manuel Patrício, ex-Reitor da Universidade de Évora e que foi meu professor de liceu aos 16 anos. Não é possível escrever melhor do que isto:

"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia"

Gostei também muito do livro "A Noite e o Riso", do Nuno Bragança… E de muitos outros.

E filmes favoritos? Tem?

"O Leopardo", do Luchino Visconti. E como sempre gostei muito de westerns, aponto o "Johnny Guitar", de Nicholas Ray, que é, se tal existe, o filme da minha vida e que revejo de vez em quando.

Que música ouve?

Sou muito eclético: Bob Dylan (cresci com ele e tenho quase todos os vinis), Gustav Mahler (gosto muito), cante alentejano (particularmente com os meus amigos Janita e Vitorino), Billie Holiday e muita música francesa (a minha geração ouviu muito), particularmente Georges Brassens.

O que está a ler?

Acabei há pouco "A Máquina de fazer Espanhóis", do Valter Hugo Mãe. Agora estou a ler "Homo Deus", de Yuval Noah Harari. O pior de ser Reitor é, paradoxalmente, não ter tempo para ler.

Tem algum desejo por realizar?

Nenhum. Sou muito carpe diem. Todavia, se não tivesse netos diria que os queria ter.

E depois de deixar de ser Reitor?

Tenho de arrumar a papelada. Ler, ler, ler e colar cromos com os meus netos.

Esta entrevista integra a edição n.º28 da revista Linhas

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