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Opinião
As várias frentes do problema dos incêndios: opinião de Elisabete Figueiredo
Os incêndios florestais e os “Portugueses de quem menos se fala”
Elisabete Figueiredo co-editou dois livros internacionais sobre o rural
Retiro esta frase, no título, da comunicação ao país do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, feita no dia 18 de junho de 2017 (noticiada no Expresso a 18 de junho de 2017), um dia depois do início do incêndio de Pedrogão Grande, já conhecido o número de pessoas mortas e já conhecidas muitas das dimensões desta tragédia.

Esta frase condensa bem uma das principais razões porque, todos os verões, com data marcada pelo aumento do calor, Portugal arde, ou melhor, essencialmente o interior do país arde. Marcelo Rebelo de Sousa, disse, naquele domingo em que não queríamos acreditar que mais de 60 pessoas haviam morrido na sequência de um fogo florestal, que o incêndio de Pedrogão Grande “atingiu os portugueses de quem menos se fala, isto é os idosos que vivem isolados nas zonas rurais do país e que por isso são mais difíceis de contactar, de proteger e de salvar” *. Atingiu, portanto, os territórios que, desde há décadas, se encontram à beira do fim, aqueles que, depois de um incêndio com esta magnitude e estas consequências, se aproximaram eles mesmos mais da morte. Os territórios onde permanecem sobretudo os mais idosos, os territórios isolados de forma material ou simbólica, os territórios menos acessíveis de muitas maneiras.

O incêndio de Pedrogão Grande, a tragédia de Pedrogão Grande, é o retrato de um país que não é desenvolvido; de um país em que mais de metade do território que foi progressivamente sendo desqualificado, entregue às silvas e à solidão, deixado ao abandono, por negligência, sobretudo política; de um país onde ardem todos os anos árvores de ninguém e pelas quais ninguém se responsabiliza. Árvores de ninguém em terras de ninguém.

O incêndio de Pedrogão Grande representa o culminar de décadas de negligência política face aos territórios rurais, à agricultura e à floresta, de décadas de marginalização de vastas áreas de território, atualmente povoadas pelos ‘Portugueses de quem menos se fala’, por aqueles (poucos) que resistem ainda a abandonar o único lugar a que chamaram casa.

Desde há mais de 60 anos que assim é, apesar de algumas exceções, desde há mais de seis décadas que deixámos de falar dos territórios rurais, os mesmos em que a agricultura perdeu a sua relevância social, económica e ambiental, os mesmos em que a floresta – agora constituída sobretudo por árvores não autóctones e aparentemente mais inflamáveis e menos resistentes ao fogo – foi tomando conta de todos os terrenos, antes agrícolas. Os mesmos em que a floresta não conhece qualquer tipo de ordenamento, de limpeza e de cuidado, porque neles habitam os mais vulneráveis de muitas maneiras. Os mesmos em que se perderam práticas económicas, sociais e culturais, sobretudo associadas às tarefas agrícolas e de pastoreio, que asseguravam a manutenção ‘natural’ da floresta, ao utilizar e integrar todos os seus recursos na vida e nas tarefas quotidianas. Estas perdas e desordenamentos não se iniciaram ontem e isso torna o incêndio de Pedrogão Grande e as suas vítimas ainda mais insustentáveis num país alegadamente desenvolvido, no século XXI.

Se Portugal dispõe, pelo menos desde 2004, de um conjunto de instrumentos legais e de mecanismos para a prevenção e combate dos incêndios florestais, a sua operacionalização tem fracassado em toda a linha, desde há pelo menos uma década e meia. Aparentemente, não há pressa em implementar tais instrumentos e mecanismos. E aparentemente isso acontece porque os incêndios afetam este Portugal e estes Portugueses ‘menores’, estes de ‘quem menos se fala’. Estes que aguardam apenas a sua morte e a morte desde há muito anunciada dos territórios rurais onde construíram as suas casas e as suas vidas. Aparentemente, embora o despovoamento e o envelhecimento dos territórios rurais e a perda de dinâmicas sociais e económicos se tenha iniciado no final dos anos 50, não há igualmente pressa em requalificar aqueles territórios, tornando-os lugares de vida e com vida. Num caso e noutro, temos assistido conformados ao conformismo e à inércia dos políticos e das políticas. 

 

(A notícia referida no texto foi publicada a 18 de junho de 2017: http://expresso.sapo.pt/sociedade/2017-06-18-Marcelo-O-incendio-atingiu-os-portugueses-de-quem-menos-se-fala )

 

Elisabete Figueiredo

Socióloga (rural). Professora Auxiliar do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território e Investigadora no GOVCOPP – Unidade de Investigação em Governação, Competitividade e Políticas Públicas. É membro da Comissão Executiva da European Society for Rural Sociology. Foi, desde julho de 2012 e até junho de 2017, Presidente da Sociedade Portuguesa de Estudos Rurais.

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