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Entrevistas
Evento decorre de 31 de maio a 6 de junho na UA, Estarreja e na Feira
Brain Week: prova de vitalidade das sinergias com a UA e com a Região
Pedro Melo Freitas preside à Comissão Organizadora do XI Congresso Nacional de Neurorradiologia
A primeira Brain Week, evento impulsionado pela Sociedade Portuguesa de Neurorradiologia (SPNR) em parceria com o município de Estarreja, a Universidade de Aveiro (UA) e várias outras entidades, arranca dia 31 de maio. Entre a UA, Estarreja e a Sta. Maria da Feira, decorrerão diversos eventos de caris científico, social e cultural, sob o mote dos 90 anos da primeira angiografia cerebral por Egas Moniz. O evento tem especial significado para a UA e para a região, explica Pedro Melo Freitas, médico neurorradiologista, professor da UA e presidente da Brain Week.

A Neurorradiologia é uma especialidade médica que congrega conhecimentos científicos, técnicos e tecnologias usadas noutras especialidades, como a Radiologia e a Neurologia, correto? Pode especificar dois ou três problemas clínicos típicos em que atua a Neurorradiologia?

A Medicina Portuguesa, no que à Neurorradiologia Diagnóstica e Terapêutica diz respeito, encontra-se na vanguarda do desenvolvimento/ inovação a nível mundial, assim como, de modo genérico, na disponibilização aos doentes das suas mais diversas técnicas diagnósticas e terapêuticas disponíveis. Tal refere-se à neuro - angiografia, por exemplo no tratamento do AVC na fase aguda (com a sua distribuição geográfica nacional, incluindo quase já a totalidade do território continental e insular em termos terapêuticos endovasculares), mas também em relação às técnicas de imagem médica diagnóstica mais avançadas por Tomografia Computorizada (TAC) ou Ressonância Magnética, essenciais no estudo/investigação das diversas patologias do sistema nervoso central, como a Esclerose Múltipla ou a patologia Demencial. Em Neurorradiologia, os conhecimentos clínicos neurológicos interligam-se às mais avançadas técnicas de imagiologia.

O XI Congresso de Neurorradiologia, há dois anos, decorreu na UA e em plena campanha “STOP AVC”. Os resultados dessa campanha foram os esperados? Tanto a comunidade médica, como a população, estão hoje mais informados sobre a importância da intervenção nas primeiras horas após o AVC?

O ano 2015 foi um ano marcante a nível mundial, no que à Neurorradiologia e atuação face ao AVC diz respeito, pela publicação dos resultados acerca de estudos multicêntricos, todos coincidentes no sentido da mais-valia dos tratamentos endovasculares para o AVC isquémico em grandes vasos e nas primeiras seis horas. A nível nacional, o XI Congresso de Neurorradiologia que decorreu em Aveiro, foi um momento privilegiado de reunir toda a comunidade nacional e internacional relacionada com esta patologia, autêntica calamidade de Saúde Pública e primeira causa de morte (integrada nas doenças vasculares). O momento foi o mais adequado à sensibilização dos muitos profissionais de saúde que se associaram à iniciativa, assim como para a população em geral, com press releases e atividades de promoção da saúde e informação sobre o AVC (ex. campanha STOP AVC). Estamos convictos que, para a Região de Aveiro, foi mais um passo na diminuição dos tempos de transporte/ referenciação pelos familiares/cuidadores aos centros de saúde, o que deve ser sempre realizado pela ativação do 112 / Via Verde do AVC.   

A intervenção da Neurorradiologia nas primeiras horas após um AVC pode ser determinante para uma boa recuperação do paciente. Esses primeiros cuidados médicos são possíveis em todo o país, ou apenas nos hospitais centrais do Porto, Gaia, Coimbra e Lisboa? E, no resto do país, que tipo de intervenção é disponibilizada?

Se pensarmos que em cada minuto de obstrução de um grande vaso perdemos 1,9 milhões de neurónios (célula basilar do sistema nervoso central) dos cerca de 100 mil milhões (em média), percebemos da necessidade/importância da rápida e assertiva referenciação dos doentes aos centros hospitalares via INEM/ Via Verde dos AVC. Hoje em dia, a cobertura nacional é praticamente completa em termos assistenciais para o AVC, através do desenvolvimento de uma rede de transportes de emergência médica, incluindo o helitransporte, apesar da existência apenas de tratamento neurorradiológico endovascular nas unidades de saúde centrais citadas. A organização de equipas de tratamento endovascular é complexa, mas o crescimento das Unidades de AVC nos hospitais (multidisciplinares) e da rede de transporte dos doentes emergentes, tem aumentado significativamente os resultados obtidos, com a diminuição dos tempos de referenciação/ instituição precoce da terapêutica (endovenosa/ trombólise, por equipas de neurologistas e internistas; mecânica/ trombectomia, pelos neurorradiologistas) e diminuição das taxas de mortalidade e de incapacidade permanente pós-AVC. Como se diz na comunidade médica envolvida, "Time is Brain", sendo que as equipas médicas articuladas decidem, em cada doente, de acordo com análise clínica-imagiológica individualizada, qual a orientação terapêutica mais adequada, o que fará depender o tipo de referenciação hospitalar a considerar em cada caso.

Visionário da Medicina e pioneiros da Neurorradiologia

A Brain Week (https://www.spnr.org/), onde se inclui o XIII Congresso Nacional de Neurorradiologia e várias outras iniciativas, decorre sob a égide dos 90 anos da primeira angiografia cerebral. Qual a relevância deste trabalho pioneiro de Egas Moniz para a Neurorradiologia dos dias de hoje?

Egas Moniz foi um dos vultos maiores da Medicina Universal do século XX, designadamente pelos trabalhos de investigação na área da Neurociência - e nas suas diversas vertentes - catapultando-a para um patamar de desenvolvimento científico que despoletou e consagrou, nas décadas seguintes, o reconhecido rumo de diversas especialidades médicas, entre as quais a atual Neurorradiologia Diagnóstica e Terapêutica.  Se é unânime que o Neurocientista marcou a história da Medicina Portuguesa com as suas investigações no âmbito da Neurologia e da Psiquiatria, assim como da Neurocirurgia (tendo sido inclusive laureado com o Nobel da Medicina e da Fisiologia, com um procedimento cirúrgico posteriormente abandonado), porventura mais unânime (e muito atual) é o reconhecimento do seu contributo para a Medicina Universal, com o desenvolvimento técnico-científico e a realização da 1ª Angiografia Cerebral, naquela longínqua "tarde inesquecível" (in "Confidências de Um Investigador Científico", Egas Moniz) do dia 28 de Junho do ano de 1927, no Hospital de Santa Marta, em Lisboa. Tal feito, valer-lhe-ia o justo reconhecimento da comunidade científica com a atribuição do Prémio de Oslo no ano de 1945, antecipando mas contribuindo com a necessária visibilidade investigacional científica no percurso para o Nobel de 1949.  De facto, volvidos 90 anos, angiografia cerebral primordial de Egas Moniz, aparte o desenvolvimento tecnológico subjacente, permaneceu como procedimento médico diagnóstico executado por médicos neurorradiologistas em todo o mundo até aos nossos dias, tendo sido progressivamente adaptado para técnicas de terapêutica endovascular (ex. embolização de aneurismas, de malformações artério-venosas e de terapêutica do AVC na fase aguda), fortalecendo a contribuição do Mestre para a Medicina da atualidade, salvando vidas humanas em número cada vez mais significativo, como bem demonstram os estudos multicêntricos e as recomendações dos organismos de saúde mundiais. Por tudo isto, Egas Moniz assume-se, nos nossos dias, como um visionário da Medicina e um dos pioneiros da Neurorradiologia. Por tudo isto, e muito mais, celebramos Egas Moniz enaltecendo a sua obra, muito atual para a Medicina dos dias de hoje.

A Brain Week envolve eventos científicos, culturais e sociais. Alguns abertos à população. Qual a mensagem que este grande evento, a Brain Week, pretende fazer chegar à população?

A Neurorradiologia portuguesa, veiculada pela associação médica SPNR- Sociedade Portuguesa de Neurorradiologia, em parceria com as entidades coorganizadoras (Universidade de Aveiro, Municípios de Estarreja, Aveiro, CHUC, CHBV, CNEDV), assim como sob o alto patrocínio científico da Ordem dos Médicos e das Faculdades de Medicina e de Ciências Médicas, assume como desafio principal decorrente da realização desta Brain Week inaugural, as mesmas questões das restantes escolas da neurorradiologia mundial, veiculando através dos órgãos internacionais a que pertence, os seus ideais, pretensões e objetivos científicos e investigacionais, assim como organizacionais, no que às políticas mundiais de promoção da Saúde/ prevenção da doença na área das Neurociências diz respeito. De facto, o papel central da especialidade Neurorradiologia na relação privilegiada de troca de Saberes com a Neurologia, a Neurocirurgia e a Psiquiatria, entre outras, coloca esta especialidade médica, com raízes radiológicas, inevitavelmente no campo das Neurociências, fruindo todas elas da permanente e conjunta investigação no que de mais recôndito e ainda território-fronteira guarda o sistema nervoso central. Em termos técnico-científicos diagnósticos destaco, por exemplo, a necessidade do desenvolvimento crescente dos estudos funcionais cerebrais / correlação anátomo-funcional, assim como da interpretação dos fenómenos de Neuroplasticidade, com aplicações progressivamente mais abrangentes no tratamento médico e compreensão de determinadas patologias, permitindo igualmente avançar em questões de degenerativas (não esquecendo as crescentes patologias do envelhecimento) e de regeneração neuronal/recuperação das funções neurológicas perdidas, num desafio conjunto com outros necessários avanços na neurofisiologia e cirurgia de reabilitação. Por tudo isto, através da realização da Brain Week - Semana do Cérebro e da Neurorradiologia, os neurorradiologistas atuais assumem a enorme responsabilidade na herança do percurso que foi trilhado, por muitos ilustres, ao longo do último século, veiculando os mesmos ideais de progresso e motivação em prol de uma práxis médica adaptada à melhoria contínua dos cuidados de saúde assistencial e contributo para melhoria de todos os indicadores da saúde.

Parcerias assentes no conhecimento produzido na UA

A Brian Week decorre na sequência do XI Congresso de Neurorradiologia, que também aconteceu na UA, e prevê um conjunto de eventos na Universidade e em vários locais da região. A Brain Week conta, aliás, com a parceria desta instituição e tem para ela um especial significado, assim como para região. Quer explicar?

De facto, a parceria com a Academia, pelo seu papel formativo e investigacional em áreas relacionadas com o desenvolvimento tecnológico inerente à especialidade neurorradiológica (ex. IBiMed, DETI, Dep. Biomateriais, ESSUA...), é essencial ao sucesso das iniciativas na comunidade e à motivação para novas linhas de desenvolvimento e parcerias científicas. Tal, per se, justificou o mote inicial de aceitação, em 2015, para a realização inaugural de um primeiro Congresso de Neurorradiologia em Aveiro, sendo a génese das interações e iniciativas científicas e socioculturais que se seguiram e que permitiram o avançar para a realização de uma Brain Week em 2017, inteiramente na região centro/centro-norte de Portugal e com epicentro em Estarreja, Aveiro e Santa Maria da Feira. Aparte as importantes razões de índole histórica (bem patentes na Casa Museu Egas Moniz), as motivações científicas inerentes a esta Brain Week fortalecerão certamente o enraizamento das ciências médicas em diversos departamentos do campus universitário aveirense, com mais-valias diretas e indiretas sobejamente reconhecidas e desejáveis. Numa Universidade que é, desde o primeiro momento, pioneira no desenvolvimento de sistemas de Telemedicina (ex. INTERACT, no passado, Biobanco de Neuroimagem, no presente), muito usados pela comunidade de saúde ligada ao Cérebro, a observação crescente de desenvolvimento e criação de biomateriais para uso em procedimentos médicos (ex: para tratamentos na coluna vertebral), é a prova segura de vitalidade e sinergias contínuas para as quais esta e outras "Brain Weeks" certamente contribuirão.     

Quer destacar alguns aspetos do programa que tenham especial interesse para a população em geral?

Para a população, e com entrada livre, destaco:

Conferência de Abertura Brain Week: "Neurociências: com Ciência e História" (31 de Maio, Reitoria da UA, 15h00); lançamento do Livro “Os Trilhos da Neurorradiologia depois da 1ª Angiografia Cerebral - edição comemorativa do 90º Aniversário” (apresentado por Victor Oliveira, direção do Centro de Estudos Egas Moniz- H Santa Maria) (31 de Maio, Casa Museu Egas Moniz (Avanca), 19h00); exposição de Arte "BRAINSTORMING: a Celebração da Ciência Após 90 Anos de Engenho e Arte" (1 de Junho, Casa da Cultura de Estarreja, 15h00); projeção de Filme e Tertúlia, "O Cinema e as Neurociências" (moderado por Mário Augusto - jornalista e crítico de cinema) (1 de Junho, Cineteatro Estarreja, 21h30); Sessão Solene de Abertura BW´17 - Entrega do Prémio Egas Moniz em Neurorradiologia (2 de Junho, Cineteatro Estarreja, 18h00); apresentação do livro (por Manuel Valente Alves, fundador do Museu da Medicina FML) “A herança de Egas Moniz na Neurorradiologia – perspetiva universal, 90 anos após a 1ª angiografia cerebral” (Dia 2 de Junho, Cineteatro Estarreja, 21h30), Caminhada Solidária, campanha STOP AVC da SPNR/ associação PT. AVC (4 de Junho, Parque Municipal de Antuã (Estarreja), 17h00); Workshop O cérebro: tecnologia e soft skills (5 de Junho, Ciclo Criativo, Estarreja, 14h00); Open Day, Visita Documentada à Casa Museu Egas Moniz (6 de Junho, Avanca).

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