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Opinião
Joana Ivónia, estudante do Programa Doutoral em Design da Universidade de Aveiro
Uma escola chamada cidade
Joana Ivónia
“Precisamos da cidade inteira para educar as nossas crianças e a nossa sociedade”. Joana Ivónia, estudante do Programa Doutoral em Design da Universidade de Aveiro (UA), fundadora e ativista da Ciclaveiro, defende que é nessa grande escola chamada cidade que se aprende a conhecer, a fazer, a viver com o outro e a ser. Mas para isso é preciso construir cidades de pessoas para pessoas.

Há um provérbio africano que diz que “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança“. Diria que precisamos da cidade inteira para educar as nossas crianças e a nossa sociedade.

Segundo o relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, coordenada por Jacques Delors, a educação deverá organizar-se em torno de quatro pilares fundamentais, que, ao longo da vida humana, serão os pilares base para o conhecimento: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a ser.

A aquisição de competências que se organizam em torno destes pilares não se obtém em tempo limitado ou em espaços exclusivos dentro de muros. O conceito de escola, enquanto espaço de aprendizagem, não deverá ter muros nem horários.

É no dia-a-dia, nas relações que criamos com os espaços e com os outros que se dá a verdadeira aprendizagem, e que acontece na maioria das vezes nos espaços públicos das cidades.

Nestes espaços, os mais pequenos (e os crescidos também) aprendem a conhecer os seus vizinhos, a dizer “bom dia”, a questionar o mundo com inundações de perguntas e reflexões, a explorar cada detalhe do seu percurso, tão mais detalhado quanto maior for o seu contacto com essa realidade. Desenvolvem o sentido crítico, a capacidade e vontade de acção sobre o que vão conhecendo à sua volta e sentindo-o como seu.

Através deste conjunto de vivências diárias, constrói-se um sentido de pertença pelo espaço de todos. Aumentando a exposição das nossas crianças a este grande espaço que é a cidade, alicerçamos os verdadeiros pilares do conhecimento para que elas aprendam a conhecer, a fazer, a viver juntos e a SEREM verdadeiros cidadãos.

Para isso, precisamos de verdadeiras cidades para pessoas, como nos diz Jan Gehl, o conceituado urbanista e arquitecto dinamarquês, autor de vários projectos desenhados dando prioridade às pessoas. Precisamos de estreitar ruas para estreitar relações, diminuir a utilização do carro para desacelerar a vida, sentir o ar fresco sem ter de ligar o botão do ar condicionado, conhecer um estranho que, afinal, não é tão estranho assim porque o conhecemos “de vista” da rua, ir às compras sem ser obrigatório usar dois carros (um carro e um carrinho).

Uma cidade de pessoas para pessoas, onde as pessoas ocupem mais espaço do que os seus automóveis, as crianças possam brincar na rua de forma segura, ir para a escola a pé ou de bicicleta com os amigos e conheçam muito bem os espaços e as ruas da sua cidade, porque a cidade é a escola e, por isso, é suposto ser segura.

A construção deste grande espaço de relações e de aquisição de conhecimento compromete-nos a todos como comunidade e requer um esforço colectivo, atribuindo uma grande responsabilidade às cidades no papel que têm na educação das futuras gerações. Requer mobilização dos cidadãos e um forte compromisso de políticas públicas alinhadas.

Possivelmente é esta a maior responsabilidade que temos enquanto comunidade educadora que somos todos nós, cidadãos, na forma como nos relacionamos e educamos para viver e partilhar um espaço comum, e na forma como participamos colectivamente para a construção de uma cidade escola.

Nota: artigo de opinião publicado a 22 de maio na Smart Cities

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