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Investigação do DAO, do DBio e do CESAM
UA alerta que o biochar não traz benefícios para o rendimento agrícola nas zonas temperadas
Créditos da imagem: Victor Leshyk (www.victorleshyk.com)
Até recentemente, considerava-se que a adição de biochar a solos agrícolas favorecia o rendimento das colheitas. Um novo estudo da Universidade de Aveiro (UA), porém, coloca a descoberto que o biochar apenas melhora o rendimento agrícola nos trópicos, sem benefícios na produtividade em zonas temperadas.

A equipa de investigação responsável pelo estudo coligiu dados sobre os efeitos do biochar no rendimento de colheitas variadas, relativos a mais de 1000 observações empíricas, realizadas em todo o mundo. O uso de técnicas avançadas de estatística, baseadas em meta-análises, permitiram avaliar a relação entre o efeito benéfico da adição de biochar e a localização geográfica.

Desta análise, surgiu o resultado surpreendente: "A localização é realmente importante para a ação do biochar", avançou Frank Verheijen, investigador do Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) e do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da UA. "Nos trópicos, o uso do biochar conduz a um aumento de 25 por cento no rendimento das colheitas, mas em zonas temperadas, não se observa este efeito. Ficámos realmente admirados."

A surpresa decorreu do facto de, em estudos anteriores, ter-se assumido que o aumento da produtividade agrícola resultante do uso do biochar era universal, aplicando-se a todos os solos e condições ambientais. Este novo estudo foi pioneiro em determinar que o benefício depende, em larga medida, da localização geográfica, tendo sido o elevado número de dados analisados que permitiu chegar a esta conclusão.

O conceito do biochar foi inspirado num tipo raro e ancestral de solo existente nos trópicos – ‘terra preta’, assim designado devido ao elevado teor em carvão vegetal, proveniente de matéria vegetal parcialmente queimada. A ‘terra preta’ é fértil e tem um pH favorável ao crescimento das culturas, ao invés dos solos tropicais, que são tipicamente acídicos e com um baixo teor de nutrientes. Os primeiros estudos mostraram que a aplicação de biochar a estes solos aumentava a sua produtividade, permitindo o seu cultivo por períodos de tempo prolongados.

"Os nossos resultados confirmam os benefícios do biochar no rendimento agrícola dos solos tropicais; no entanto, a sua aplicação a solos característicos das zonas temperadas não resulta num acréscimo da sua produtividade, uma vez que o rendimento agrícola destes solos já se encontra frequentemente dentro do nível ótimo", explicou Ana Bastos, investigadora do Departamento de Biologia (DBio) da UA e do CESAM.

A investigadora adianta: “Embora o uso do biochar possa ajudar a manter rendimentos elevados em solos temperados específicos, e até reduzir os custos da aplicação de fertilizantes e corretivos de acidez (como a cal), é necessário começarmos por identificar quais os solos e condições ambientais, para os quais esta aplicação torna-se relevante”.

"Também podemos esperar outros benefícios do uso do biochar em zonas temperadas, como por exemplo, o aumento da capacidade de retenção de água e carbono dos solos, contribuindo assim para a adaptação e mitigação das alterações climáticas", observou Marija Prodana, doutoranda do DBio e CESAM. De facto, o sequestro de carbono, a mitigação da emissão de gases com efeito de estufa, a imobilização de contaminantes dos solos ou o apoio à gestão de resíduos, estão entre os possíveis benefícios adicionais da aplicação de biochar a solos.

Embora o presente estudo não visasse a avaliação destes efeitos, os autores asseguram que podem ser uma mais-valia no uso do biochar nas regiões temperadas. Estes advertem porém, que é necessário mais investigação centrada nos ‘trade-offs’, explicando que o melhoramento numa função do solo, pode significar uma deterioração num outro serviço do ecossistema.

No entanto, “se o que se pretende obter através do uso de biochar é o aumento da produtividade agrícola, então esta aplicação é apenas relevante nos trópicos" conclui Frank Verheijen.

O estudo foi publicado na revista científica “Environmental Research Letters”, com livre acesso através do link http://iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/aa67bd.

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