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Opinião
E seria mais um Dia Internacional da Mulher mas não foi...
O Dia Internacional da Mulher na perspectiva de uma maestrina brasileira
Alba Bomfim escreve sobre a sua experiência a propósito do Dia Internacional da Mulher
Partilhar a experiência de participação de uma mulher doutoranda em Direção de Orquestra (Universidade de Aveiro) numa Master Class de Regência para maestrinas, pode ser relevante no Dia Internacional da Mulher. A brasileira e carioca Alba Bomfim, filha de funcionários públicos, irmã de uma médica, de uma engenheira de estudos e de uma engenheira civil, participou, recentemente, nesta Master Class promovida pelo Southbank Centre em Londres sob orientação de Marin Alsop.

Sem dúvida, com o passar dos tempos, desde a sua criação na virada do século XX, o Dia Internacional da Mulher seria mais um dia de reflexão.

No entanto, felizmente, mais e mais, esse dia tem revelado muitos avanços para nós mulheres. A seguir, tenho imensa alegria em compartilhar um pouco de minha história, como exemplo de que a sociedade tem se transformado, ao menos um pouquinho que seja, a cada dia.

Sou aluna do Programa Doutoral em Direção de Orquestra, sob a orientação do Prof. António Vassalo Lourenço, na Universidade de Aveiro desde setembro de 2014. No último mês de janeiro participei da Master Class de Regência, direcionada a maestrinas, promovida pelo Southbank Centre em Londres. No evento eu e mais quatro participantes (selecionadas entre mais de 120 candidatas) regemos a BBC Concert Orchestra sob a orientação da Maestrina Marin Alsop.

Pausa: “Uma master class de regência, para dirigir a BBC Concert Orchestra só para mulheres????”. Sim, pausa para reflexão..."As mulheres que têm a intenção de dirigir orquestras profissionais têm as mesmas oportunidade que os homens?". Será que a resposta seria apenas: “Basta ser boa?". Não seria uma resposta reducionista? Apoio-me sobre a condição de doutoranda e, para já, não tenho certezas. Apenas trago questionamentos que considero, no mínimo, relevantes...

Antes de mais nada: Sim, a BBC Concert Orchestra é, sim, uma orquestra maravilhosa. Antes de pensarmos em realizar algum gesto os músicos já estão respirando conosco e com as nossas intenções. Devo confessar que a experiência se traduziu em um daqueles momentos mágicos que tive a graça de vivenciar. É, definitivamente, um sonho poder tocar uma orquestra como essa. Ser orientada pela Maestrina Marin Alsop? Em duas palavras é: fazer história, ou melhor, fazer parte da história das musicistas que começaram a tocar orquestras.

Devo abrir um parêntesis para apresentar a Maestrina Marin Alsop – pupila de Leonard Bernstein, Diretora do Programa de Direção do Instituto Peabody da Universidade John Hopkins dos Estados Unidos, Diretora musical das orquestras: OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo) e Baltimore Symphony Orchestra.

Porquê a referir experiência que tive, com essa Master Class em especial, que difere dos outros cursos internacionais que tenho realizado, anualmente, nos últimos dez anos? Percebo uma quebra de paradigmas na percepção da mulher na condição de regente. Uma vez em que uma, duas, três, enfim, dezenas, conseguem se profissionalizar, ou seja, estar à frente, verdadeiramente, na condição de diretoras musicais de grandes orquestras: o caminho começa a ser aberto.  Acredito que se pudesse existir uma equação para o acesso das mulheres ao pódio, ela passaria pela equação "Formação X Oportunidade X Visibilidade". Essa equação seria equivalente à outras profissões que, em essência, exigem a liderança como traço.

Em síntese, o que posso dizer, com base em minha experiência pessoal é: E seria mais um Dia Internacional da Mulher mas não foi... esse dia, de modo especial, está me fazendo respirar mais fundo e perceber que felizmente estamos caminhando.

Alba Bomfim

Maestrina e doutoranda em Direção de Orquestra na Universidade de Aveiro

Professora, em licença, de Direção e Prática de Orquestra na Universidade Federal do Piauí.

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