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Opinião
Rosa Pinho, curadora do Herbário e investigadora do Departamento de Biologia
Herbário UA - 40 anos de um precioso património
Rosa Pinho e uma Erica australis (urze-vermelha) natural do Parque Nacional Peneda-Gerês
Nasceu há precisamente 40 anos com a colheita do primeiro exemplar da coleção, uma campainha-amarela. Hoje, com mais de 65 mil exemplares de plantas, o Herbário da Universidade de Aveiro (UA) é um dos maiores do país e o local ideal para conhecer a flora que a Natureza plantou em Portugal. Em artigo de opinião, Rosa Pinho, investigadora do Departamento de Biologia e curadora do Herbário, recorda quem, como e para quê fez crescer um projeto que é muito, muito mais do que uma coleção de plantas.

No dia 7 de fevereiro de 1977, o fundador e 1º curador do Herbário da Universidade de Aveiro, Dr. Ângelo Pereira e o coletor António Marques faziam a 1ª expedição botânica para colheita de plantas superiores, iniciando assim a coleção de AVE (Sigla do Herbário no Index Herbariorum).

Nestes 40 anos de existência do Herbário, presto a minha homenagem a estes dois homens, que durante cerca de duas décadas se dedicaram a ampliar a coleção de AVE, com entrega, profissionalismo e uma enorme paixão. Não esquecendo a D. Isabel Marques que fazia o trabalho pós-colheita de secagem e montagem das plantas, com o esmero de quem faz uma obra de arte, que com orgulho nós mostramos aos visitantes.

Um herbário é uma coleção dinâmica de plantas secas de onde se está constantemente a extrair, utilizar e adicionar informação sobre cada uma das espécies conhecidas, e sobre novas espécies vegetais. É considerado o detentor das informações sobre a flora de um país ou região, a que foi extinta e a atual, representando um recurso de enorme valor, já que cada planta tem uma importância fundamental nos organismos vivos, nos diferentes ecossistemas.

descrição para leitores de ecrã
A colheita a 7 de fevereiro de 1977 destas campainhas-amarelas (Narcissus bulbocodium) marca o início do Herbário da UA.

Desde a sua fundação, o Herbário apresenta uma vasta coleção de espécimes vegetais colhidos no Distrito de Aveiro, constituindo assim, um precioso instrumento para o conhecimento da flora da região. Entre as coleções regionais, podemos ainda encontrar flora de outros locais, nomeadamente, do Parque Natural da Serra da Estrela, do Parque Nacional da Peneda Gerês, do Parque Arqueológico do Vale do Côa, de Porto Santo e uma preciosa coleção privada, que foi adquirida pela Reitoria da Universidade de Aveiro e oferecida ao Herbário, que contém plantas de norte a sul do país, sobretudo de áreas protegidas. No que se refere a colheitas fora de Portugal, possui uma pequena coleção de flora de Moçambique e uma importante coleção de flora de Timor Leste colhida pelo Professor Paulo Silveira da equipa do Herbário da UA e pelo Professor Jorge Paiva da Universidade de Coimbra, no âmbito de um Projeto da FCT, coordenado pela Professora Helena Silva, também ela da nossa equipa.

Os desafios para AVE tiveram novos desenvolvimentos nas duas últimas décadas. Com a entrada de Portugal na União Europeia, mas sobretudo a partir dos anos 90, várias foram as solicitações para as equipas de botânicos e para as bases de dados dos herbários, nomeadamente no que diz respeito aos estudos de impacto ambiental, monitorizações ambientais e ordenamento do território. Conhecer a flora e os seus habitats passou a ser fundamental na tomada de decisões ambientais e as solicitações para trabalhos na área da botânica teve um grande incremento. Com um vasto currículo na matéria a equipa do Herbário adquiriu um considerável conhecimento da flora de Portugal e dos seus habitats.

Desde o final dos anos 90, que também a flora exótica passou a ser objeto do nosso estudo e de colheitas, destacando-se o trabalho desenvolvido no Parque Serralves e posteriormente na Mata Nacional do Buçaco. Sendo, também feito por nós um herbário para entregar à Fundação de Serralves e outro à Mata Nacional do Buçaco.

O Herbário possui um enorme acervo fotográfico, com fotografias da flora de Portugal, tiradas pela bióloga e exímia fotógrafa da natureza Dra. Lísia Lopes, que integra a nossa equipa.

As exposições fotográficas temáticas elaboradas com algumas dessas imagens e textos, como por exemplo a “Flora das Dunas e Sapal” ou “A Floresta Portuguesa - um olhar mais atento” já estiveram patentes em inúmeras escolas e outros locais públicos.

descrição para leitores de ecrã
Espécie em vias de extinção, este trevo-de-quatro-folhas (Marsilea quadrifolia) foi colhido em 1977 na Pateira de Fermentelos, onde já não existe.

A produção de livros, guias de campo, desdobráveis e afins também tem sido uma das nossas áreas de trabalho, sempre com o intuito de dar a conhecer ao público em geral a nossa flora e a sua importância.

Também nesse sentido, recebemos anualmente centenas de visitantes, sobretudo de escolas, desde o pré-escolar até ao ensino secundário.

Os trilhos em parque urbanos, que realizamos com as escolas, são uma forma de dar a conhecer aos alunos a história e sobretudo a flora destes espaços verdes que estão a poucos passos da escola.

A informatização do Herbário foi um passo importantíssimo, com grande mérito do Professor Paulo Silveira, que esteve sempre muito envolvido neste propósito.

Muitas são as atividades que com base no Herbário têm sido desenvolvidas ao longo destes 40 anos. Como curadora do Herbário desde 1993, altura em que o Dr. Ângelo se reformou, expresso a minha imensa gratidão por tudo que aprendi com ele e com o Sr. António, pelas horas passadas no campo, pelos ensinamentos científicos e de vida, pelo exemplo de trabalho e dedicação e por este enorme legado que deixaram à Universidade de Aveiro e ao país. O Homem parte, mas a obra fica!

Obrigada a todos que hoje ajudam a manter o legado vivo e dinâmico!

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