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Opinião
Mónica Lourenço, investigadora no Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores da UA
Muito mais do que “bons” alunos…. ou as possibilidades de uma educação (para a cidadania) global
Mónica Lourenço
Precisamos de uma escola que forme cidadãos e não apenas consumidores e trabalhadores na economia global? E que essa cidadania esteja assente na humanização das relações sociais e na preocupação pelo mundo e pelo Outro? Mónica Lourenço, investigadora do Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro (UA), garante que precisamos de uma educação para a cidadania global de forma a evitar que nos afoguemos no individualismo e na competição que o desenvolvimento tecnológico e das redes de comunicação parece estar a impor.

Amanhece… Os raios de sol entram pelo quarto adentro sem pedirem licença, entram e demoram-se, espalhando um calor ténue que, a pouco e pouco, vai aquecendo a minha pele. Esfrego os olhos e ligo o rádio, quase mecanicamente, esperando ser resgatada dos braços de Morfeu por uma cacofonia de sons e ritmos. «São 7 da manhã…», uma voz calma e serena apresenta o boletim noticioso.

Sou invadida por um misto de ânsia e desconforto… mais um terramoto em Itália, mais um barco de migrantes encontrado à deriva no mar Mediterrâneo, mais ataques aéreos na Síria, mais uma descoberta de ursos polares vagueando desnutridos em minúsculos icebergs, mais uma gaffe de Donald Trump num comício eleitoral… Notícias que se repetem… dias, meses, talvez anos… Será que ainda provocam as mesmas sensações de quando as ouvi pela primeira vez? Será que ainda sou capaz de me emocionar, de me revoltar, de sentir empatia pelos outros? Será que é possível ficar indiferente a acontecimentos e processos apenas porque ocorrem a milhares de quilómetros de distância? Luto contra a letargia que me tolda os movimentos e arrefece o coração. Levanto-me energicamente, tenho de fazer alguma coisa.... Sento-me decidida na cadeira, ligo o computador e escrevo...

“Diversidade”, “mobilidade” e “interdependência” são palavras que caracterizam o mundo globalizado em que vivemos, um mundo complexo, interligado e em permanente mudança, assente no rápido desenvolvimento tecnológico e das redes de comunicação.

Neste mundo, somos confrontados com realidades ambivalentes: se, por um lado, os fenómenos da globalização nos permitiram aceder a conhecimento e informação “em tempo real”, alargando os nossos horizontes através do contacto com novas realidades, maneiras de ser e de pensar, por outro lado, conduziram ao aumento das taxas de desemprego e das desigualdades socioeconómicas, ao incremento da pobreza, ao agudizar de problemas ambientais, a conflitos e insegurança crescentes.

Esta realidade lança novos desafios à educação e aos educadores, exigindo uma nova geração de indivíduos que conheçam e compreendam assuntos globais e que sejam capazes de comunicar os seus pontos de vista, de respeitar os dos outros, de resolver problemas e de participar ativamente na vida local, nacional e global.

A resposta a estes desafios pode estar numa nova conceção de educação que seja um pilar central de cidadãos informados e que não vise apenas formar «bons» alunos para se tornarem consumidores e trabalhadores eficientes na economia global, mas alunos que tenham um sentido de cidadania, assente na humanização das relações em sociedade e na preocupação relativamente ao mundo e ao «Outro».

É neste sentido que se defende uma educação (para a cidadania) global, uma perspetiva educativa transformativa que decorre da constatação de que os povos contemporâneos vivem e interagem num mundo cada vez mais globalizado e de que é necessário caminhar de uma cultura de individualismo, competição e compartimentalização do saber para uma cultura de parceria, colaboração, de construção de pontes que permitam aproximarmo-nos dos outros, conhecê-los e compreendê-los. A educação global é, pois, uma possibilidade de responder aos desafios atuais e dotar os alunos, desde os primeiros anos de escolaridade e ao longo da vida, de conhecimentos, capacidades e atitudes essenciais para compreender, viver e agir num mundo globalizado.

Há quatro temas centrais relativamente ao que implica ensinar/aprender de acordo com uma perspetiva de educação global:

1)      Conhecimento de problemas/questões globais;

2)     Compreensão da interdependência que caracteriza o mundo globalizado;

3)     Reconhecimento de outras perspetivas;

4)     Preparação de cidadãos ativos na busca de soluções para um mundo melhor e mais justo.

Em linha com estes temas, entre as práticas recomendadas no âmbito da educação global salienta-se a pedagogia por projeto, que incentiva o trabalho em torno de um tema comum, por exemplo, na comunidade local; a realização de debates, como forma de consciencializar os alunos acerca das questões globais contemporâneas; as dramatizações ou jogos de simulação que promovem a empatia dos alunos e favorecem a descoberta de outras perspetivas e mundivisões; as atividades desportivas, estimuladoras das relações interpessoais e promotoras da coesão e do respeito mútuo; ou o serviço comunitário voluntário, que alimenta a responsabilidade social e o compromisso face à realidade mais próxima.

A inclusão de uma perspetiva de educação global no trabalho diário dos educadores e professores não significa, contudo, uma alteração profunda do currículo, mas sim uma nova visão que perpassa a forma como estes consideram os conteúdos a trabalhar, os objetivos a atingir, a metodologia a utilizar, as atividades a propor e os instrumentos e parâmetros a ter em conta na avaliação dos alunos.

Nesse sentido, cabe-nos a nós, formadores de professores, abrir os olhos e as mentes dos futuros e atuais educadores (no sentido mais lato e belo da palavra) para as realidades do mundo, desenvolvendo competências que lhes permitam educar para a convivência e para o diálogo intercultural e contribuir para sociedades com mais justiça, equidade e direitos humanos para todos.

 

Alguns recursos sobre educação global:

Conselho da Europa. (2010). Guia prático para a educação global. Um manual para compreender e implementar a educação global. Lisboa: Centro Norte-Sul do Conselho da Europa.

Oxfam. (2015). Education for Global Citizenship: A Guide for Schools. London: Oxfam GB.

Sampedro, R. & Hillyard, S. (2004). Global Issues: Resource Book for Teachers. Oxford: Oxford University Press.

Tavangar, H. S. (2009). Growing up Global: Raising Children to be at Home in the World. New York: Ballantine Books.

Tavangar, H. S., & Mladic-Morales, B. (2014). The Global Education Toolkit for Elementary Learners.  Thousand Oaks: Sage.

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