conteúdos
links
tags
Opinião
Rosa Pinho, investigadora do Departamento de Biologia e responsável pelo Herbário da UA
Leguminosas: uma família muito eclética!
Rosa Pinho
Sabia que o consumo de leguminosas é extremamente importante para a saúde humana? E que foram elas que na Idade Média salvaram a Europa da extinção? E que a sua produção e consumo são sinónimos de um futuro sustentável? Em Ano Internacional das Leguminosas Rosa Pinho, investigadora do Departamento de Biologia e responsável pelo Herbário da Universidade de Aveiro, desvenda alguns dos segredos destas plantas que andam, ou deveriam andar, de mãos dadas há milhares de anos com a alimentação humana.

A ONU declarou 2016 como Ano Internacional das Leguminosas no sentido de conscientizar a população mundial para a importância desses alimentos na promoção da saúde, nutrição, bem como na segurança alimentar e sustentabilidade ambiental.

No que se refere à segurança alimentar, a FAO (Food and Agriculture Organization) tem dois objetivos principais que são: ajudar a eliminar a fome, a insegurança alimentar e a desnutrição e tornar a agricultura mais produtiva.

As leguminosas (Leguminosae ou Fabaceae) são uma família de plantas superiores, que podem ser árvores, arbustos ou herbáceas. Em Portugal, à semelhança do que acontece no resto do mundo, temos um grande número de espécies, algumas autóctones (nativas), outras alóctones (introduzidas ou exóticas). Várias espécies são cultivadas para a alimentação humana, outras são utilizadas como plantas forrageiras e outras como plantas ornamentais. O fruto das leguminosas é uma vagem, como o feijão, que pode pertencer a mais que um género botânico, a fava (Vicia) o grão-de-bico (Cicer), o amendoim (Arachis), a ervilha (Pisum) e a lentilha (Lens). A parte comestível nestas plantas é a semente ou a vagem, ou ambas. Espécies destes géneros e de muitos outros são cultivadas como forrageiras em grande escala ou usadas para melhorar pastagens.

A contribuição das leguminosas para a nutrição é inegável, graças ao seu elevado teor de proteínas e aminoácidos essenciais, sendo ainda uma fonte de hidratos de carbono, vitaminas e minerais, como o ferro e o cálcio.

As leguminosas constituem um dos alimentos básicos da população humana desde o período Neolítico. Alguns historiadores defendem uma antiguidade de 20.000 anos do seu cultivo, mas o que parece provado é que no Médio Oriente, há cerca de 10.000 anos atrás, houve uma associação entre grãos de cereais como trigo, com leguminosas, tais como lentilhas ou ervilhas.

Os egípcios, como comprovam os vestígios encontrados, professaram verdadeira veneração pelas lentilhas, cultivo a que dedicaram grande atenção, seguidos por outras culturas, como a romana. As lentilhas são referidas na Bíblia, Esaú filho de Isaac e Rebeca, trocou com seu irmão Jacó, o seu direito à progenitura, por um prato de lentilhas.

Ilustres membros desta família, os feijões ou feijoeiros incluem plantas de diversos géneros e espécies, nem todos originários dos mesmos locais, nem dos mesmos continentes. No caso da espécie mais conhecida, Phaseolus vulgaris, originária da América do Sul, tudo indica que os portugueses já ai a encontraram cultivada, fazendo parte da alimentação dos autóctones.  E foram os portugueses que trouxeram esta espécie para a Europa e a difundiram pelo mundo tropical logo no século XVI.

Portanto, os feijões entram na Europa nos anos posteriores aos Descobrimentos e logo fazem parte inseparável do que hoje é conhecida por Dieta Mediterrânica

O escritor italiano Humberto Eco refere que as leguminosas salvaram da extinção a Europa, durante a Idade Média, uma vez que as epidemias, as guerras e a fome só puderam ser combatidas graças aos feijões. Segundo H. Eco, sem feijão, a população europeia não teria duplicado em poucos séculos e atualmente não seríamos centenas de milhões.

As leguminosas são também importantes sob o ponto de vista da sustentabilidade ambiental, uma vez que aumentam a biodiversidade, a produtividade e eficiência do uso da água em sistemas agrícolas e na rotação de culturas, diminuem a necessidade de fertilizantes, reduzindo o custo final da prática agrícola evitando a emissão de gases com efeito estufa.

É do conhecimento geral a importância das leguminosas na manutenção da qualidade do solo, dado que fixam o azoto, porporcinando um melhor rendimento das culturas posteriores ao seu cultivo.

De facto, esta é uma magnífica família botânica, mas nem todos os seus “membros” são bem-vindos! Quem não conhece as famosas acácias, plantas invasoras que tanto ameaçam a nossa biodiversidade? Também elas são leguminosas! Noutros cantos do mundo há quem passe o mesmo com o nosso tojo (Ulex europeus), também ele faz parte desta família.

O tão almejado trevo-de-quatro-folhas, sobejamente conhecido por trazer sorte a quem o encontrar é um dos notáveis desta família, pertence ao género Trifolium (três folhas) e em Portugal existem cerca de 40 espécies deste género. A procura de trevos-de-quatro-folhas levou ao aparecimento de cultivares e técnicas de cultivo que aumentam a probabilidade de ocorrência dessa mutação. 

Quase a chegar ao fim, este foi o Ano Internacional das Leguminosas, com grande ênfase na sua enorme importância para a alimentação humana.  Em suma, o objetivo principal deste ano foi chamar a atenção para os muitos benefícios desses alimentos, assim como incentivar a sua produção e comércio.

Segundo a FAO, as leguminosas representam uma fonte alternativa de proteínas mais barata do que as encontradas nas carnes. Elas também têm o dobro das proteínas do trigo e o triplo do arroz, são ricas em micronutrientes, aminoácidos e vitamina B, substâncias que as tornam componentes essenciais de uma dieta saudável.

imprimir
tags
outras notícias