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Entrevistas
Antiga aluna UA - Susana Rito, Licenciada e Mestre em Gerontologia
Diário de uma Gerontóloga formada pela UA ao serviço de uma associação de apoio a idosos
Gerontóloga Susana Rito, antiga aluna UA
Licenciou-se e concluiu mestrado em Gerontologia na Universidade de Aveiro. Susana Isabel Nobre Rito, 29 anos, é coordenadora técnica da “Associação Mais Proximidade Melhor Vida” (AMPMV) - uma associação de apoio à população idosa residente na zona da Baixa de Lisboa e Mouraria - e uma verdadeira embaixadora do curso e da profissão.

Foi em 2010 que, como gerontóloga, integrou o Centro Social Paroquial de São Nicolau; projeto que em 2014 evoluiu para a Associação Mais Proximidade Melhor Vida”. E é lá que, a par de tarefas inerentes ao facto de ter igualmente a seu cargo a corresponsabilidade pelas equipas de voluntariado, a orientação de estágios e o apoio à área da comunicação, exerce um conjunto diversificado de tarefas associadas à “gestão de caso”.  Esta gestão implica a avaliação multidimensional da pessoa idosa vulnerável em contexto comunitário, bem como a subsequente definição e operacionalização do ‘plano Individual’, (com intuito de manter a pessoa no seu domicílio, retardando a sua institucionalização) e a avaliação formal e informal do plano individual.

Susana Rito explica que na Associação, o plano individual poderá passar pela área da solidão e isolamento, pela área da saúde e ainda pela área habitacional, dando para cada uma das áreas um vasto conjunto de exemplos que vão desde a realização de visitas domiciliares e contactos telefónicos para monitorizar situações; à integração de voluntários, articulação com técnicos e unidades de saúde e aquisição de bens (temporariamente, quando a pessoa não pode sair de casa); passando ainda pela articulação com serviços da comunidade para procura de informações ou de serviços (reparações, podologia, cabeleireiro, serviços de limpeza habitacional, veterinário, finanças, Segurança Social).

Como é o típico dia de um gerontólogo numa Associação como a AMPMV?Normalmente o meu dia começa com um plano diário das atividades previamente programadas: ligar para a Senhora A para saber como correu a consulta no Centro de Saúde. Nesse contacto, a pessoa pede ajuda, pois tem de fazer um exame de diagnóstico pedido pelo médico e não sabe onde realizar. Aqui começo à procura de dados - uma das primeiras atividades não prevista, mas essencial para a pessoa.

De seguida saio para uma visita, pois o Senhor M faz anos e já levo o bolo e as velas. À minha espera tenho os voluntários, que uma vez por semana visitam esta pessoa, bem como o voluntário que lhe liga semanalmente através do voluntariado corporativo.

A meio da visita liga a Senhora B. Recebeu uma carta e está muito nervosa pois não consegue perceber o seu conteúdo. Num “salto” passo pela casa da idosa e explico que é a programação da Junta Médica para ser avaliada de forma a saber se terá acesso ao ‘complemento por dependência’; processo já iniciado pela pessoa com colaboração da técnica da AMPMV. Aproveito para acertar alguns detalhes da ida a Fátima com a Senhora, pois fez uma promessa e apesar de ir a Fátima com regularidade nos grupos de passeios das instituições locais, nunca consegue o seu tempo para cumprir o que prometeu. Assim irá lá em breve com o acompanhamento da técnica e a cedência de bilhetes da empresa de transportes.

Chego ao escritório e tenho duas chamadas para devolver: a Senhora M queria partilhar uma grande alegria. Já é bisavó e como diz: “estamos aqui não só para as más notícias, mas para as boas também”. O segundo telefonema está relacionado com um problema numa tomada. Temos um protocolo com uma Fundação que faz pequenos arranjos e reparações.  Encaminho a situação para a Fundação e aguardo por indicações de data e hora para a reparação.

Toca a campainha e a Senhora T chega para o atendimento. Como gosta de sair de casa prefere sempre que as visitas aconteçam no escritório. Tento perceber como tem passado e como a poderemos ajudar a melhorar, de acordo com as suas potencialidades e interesses.

Antes de almoço, ainda consigo articular com os médicos do Centro de Saúde, a solução para o pedido de uma idosa que precisa de medicação, mas já não tem receitas médicas e não consegue sair de casa. Aproveito o momento e sinalizo a situação da Senhora J, cujo estado de saúde se agravou e precisa do Serviço de Apoio Domiciliário, pedindo à técnica para estabelecer o contacto.

Mal desligo o telefone, este toca. É a senhora G. Tem o cabelo muito grande e queria saber se conhecíamos alguma cabeleireira. Penso logo: mas que sorte! Ontem vi uma notícia dando conta que a Junta da zona abria um cabeleireiro solidário. Digo à pessoa que irei saber mais informações e que ligarei quando tiver novidades.

Após o almoço é a vez de tratar da supervisão semanal com os formandos da instituição que está interessada em replicar a metodologia de intervenção da AMPMV noutra área geográfica.

Começo a pensar na melhor forma de assinalar o aniversário da assinatura da AMPMV junto da população idosa. É um processo solitário… pensar nas pessoas que acompanhamos… nos seus interesses... no tipo de atividades que poderíamos promover… Sou interrompida pela chamada do Senhor D, que não se está a sentir bem. Queria ir às urgências, mas não conseguia fazer a chamada para o 112 de tão nervoso que estava. Articulo com o 112, que envia uma ambulância. Entretanto, já tinha pedido a uma colega para ir a casa do idoso, de modo a preparar a documentação para a sua ida às urgências.

Olho para as atividades programadas e parto à procura de um banco. A Senhora R teve a visita do seu médico de família e este referiu que seria importante ter um banco para elevar as pernas, devido ao seu problema de saúde. Sinto-me muito sortuda, pois como já estou há seis anos nesta atividade, vou colecionando contactos muito importantes para este tipo de situações. Ligo para a instituição X, que tem bens doados, e por sorte têm um banco na arrecadação que poderão dar.

Parto para mais uma visita com um saco carregado de fraldas, resguardos e cremes hidratantes, resultado da campanha “Farmácia Solidária”. A caminho, encontro a Senhora D a passear o seu cão. Avisa-me já ter a cadeira sanitária que tanto jeito lhe tem dado durante a noite. Na sua última visita, a idosa tinha referido sentir muita dificuldade em deslocar-se à casa de banho durante a noite e a técnica explicou que havia formas de melhorar esse problema, como a cadeira sanitária.

Ao centésimo sétimo degrau do prédio da Senhora M - sim, tinha-me esquecido de referir que um dos problemas transversais da população com quem intervenho é morarem nos 4.º e 5ºs. andares sem elevadores e com escadas irregulares, muitas vezes sem corrimãos ou luz suficiente - recebo o telefonema do filho do Senhor D, a explicar que o seu pai irá ficar internado e a descrever com mais pormenor a situação. Finalmente chego à Senhora M e entrego os bens que tanta diferença faz no orçamento familiar e que tentamos reajustar face à nova situação de saúde do marido da idosa.

Sigo para mais uma visita, onde falamos das notícias do dia a dia, da história da família e acabamos por medir a tensão arterial, pois o novo médico de família pediu para ser medida com maior regularidade.

Já na rua, começo a esboçar os pontos que gostaria de apresentar numa conferência sobre o envelhecimento e onde mais uma vez irei aproveitar para falar de Gerontologia. Termino o dia, no escritório, a registar as novas informações e a atualizar dados, programando novas atividades para os dias seguintes que resultaram dos vários contactos e “Adeus Equipa, até amanhã” para mais um dia de desafios e imprevistos que nos fazem aprender cada vez mais.

 

Embaixadora do curso e da profissão

Sente-se uma verdadeira Embaixadora da Gerontologia. Porquê?Há um desconhecimento muito grande acerca da existência de um curso de Gerontologia não só entre a população idosa e seus familiares e amigos, mas também nas próprias instituições de terreno (Junta de Freguesia, Centro de Saúde, Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, comércio local, Polícia de Proximidade, escolas e universidades), investidores sociais, meios de comunicação e outras pessoas/organizações que se cruzam ao longo do trabalho desenvolvido na Associação. E claro como, infelizmente, é raro estar-se perante uma Gerontóloga, sou muitas vezes questionada sobre o que faço e onde tirei o curso. É com muito gosto que respondo: “foi na UA”.

O que mais a fascina na profissão?A polivalência que um Gerontólogo poderá ter em função do contexto de trabalho onde se encontra. Ou seja, ser Gerontóloga na AMPMV é diferente de ser Gerontóloga num Centro de Saúde, num Centro de Investigação em Tecnologias de Apoio ou até em escolas e infantários, onde a função passará mais pelo combate ao preconceito sobre a velhice e o envelhecimento. Esta é uma das caraterísticas que destaco do curso de Gerontologia da UA. É um curso que abarca várias ciências, tecnologias de apoio, biologia do envelhecimento, teorias de ciclo de vida, gestão, sociologia, educação, aspetos jurídicos e área da saúde (enfermagem, medicina, terapia ocupacional, fisioterapia). Esta diversidade de conhecimentos, torna-o mais cativante.

Além disso, a formação em Gerontologia muto contribuiu para que me formasse enquanto pessoa, alertando-me para o facto das escolhas de hoje terem consequências ao longo da vida. Ou seja, o envelhecimento não se prepara quando a pessoa tem 65 anos, mas no nosso dia a dia. Por exemplo, quando escolho ter uma alimentação equilibrada, fazer um PPR, ou optar por uma casa com elevador.

Sempre soube que profissão queria seguir?Quando era criança queria que a minha profissão estivesse ligada à melhoria de vida das pessoas, mas não sabia muito bem como. Foi no dia em que a Universidade de Aveiro apresentou o curso de Gerontologia na RTP2 que se fez luz e percebi que era aquele curso que iria satisfazer esse meu desejo de miúda. Além do mais, sabia que a UA era considerada uma instituição de referencia no ensino superior.

E a escolha correspondeu às suas expetativas?O curso de Gerontologia era muito recente em Portugal quando ingressei no Ensino Superior pelo que ainda não existiam Gerontólogos em contexto de trabalho. Neste sentido não havia uma expetativa elevada, apenas uma grande curiosidade pelo que poderia ser um “Gerontólogo” e que tipo de formação deveria ter, tornando o curso mais aliciante. Ano após ano de formação fui-me integrando, tanto no curso como na Universidade, e as expetativas iam sendo cada vez maiores, tendo todas elas sido concretizadas.

O que mais a marcou na UA?O próprio espirito que se vivia na universidade entre alunos, professores, funcionários e comunidade. Mas devo confessar que o meu primeiro dia na UA ficará sempre na memória.

Foi fácil entrar no mercado de trabalho?Consegui integrar a equipa de trabalho do “Projecto Mais Proximidade Melhor Vida” (MPMV) ainda como estudante de mestrado da UA. O facto de se tratar de um projeto de apoio à população idosa e de uma das minhas professoras ter explicado à direção que faria todo o sentido integrar uma gerontóloga, recomendando-me, foi fulcral para a minha integração no mercado de trabalho. Considero-me uma sortuda!

Há algumas competências adquiridas na UA que entenda terem sido fundamentais para o exercício da sua atual atividade?Para o exercício da minha atividade considero fundamental o conhecimento transmitido, aliado ao fomento de um grande espirito de equipa, tão essencial na área social, onde me integro.

O curso conferiu-me um alargado leque de competências que, enquanto técnica, mas também neta, vizinha e/ou amiga, me permitem desempenhar um papel mais ativo, informado e sustentado junto da população. Como costumo dizer, se soubesse o que sei agora e se há dez anos tivesse ganho a lotaria, teria de igual modo tirado o curso de Gerontologia, pois é uma formação para a vida.

Onde se vê daqui a 10 anos?Gostaria de me ver num Portugal capaz de respeitar a população idosa, a incluir e valorizar. Um dia, todos seremos idosos!

 

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