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Entrevistas
Professor UA – Paulo Ribeiro Claro, Departamento de Química
Tu cá, tu lá com a Química. Tu cá, tu lá com a nobre arte de ensinar
Paulo Ribeiro Claro
Conhecido do grande público pelo trabalho de divulgação da Química na televisão e na rádio, Paulo Ribeiro Claro é professor no Departamento de Química (DQ) da Universidade de Aveiro (UA) desde 1999. À preparação científica adequada e ao profissionalismo na relação com os alunos, Paulo Ribeiro Claro acrescenta ainda outro ingrediente, menos tangível, para o sucesso dos professores: “qualquer coisa que faz com que os alunos aprendam, independentemente de gostarem ou não do professor”!

Licenciado em Química e doutorado em Ciências – Estrutura Molecular pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, onde também foi professor durante oito anos, Paulo Ribeiro Claro lembra que o DQ “tenta regular e criar os respetivos cursos de acordo com os melhores padrões internacionais”. Exemplo disso é a Licenciatura de Química e o Mestrado integrado em Engenharia Química do DQ, de cujos estudantes é professor, “validados pela Ordem dos Engenheiros e pela Eurobacheler”, a associação europeia criada para garantir a qualidade dos cursos de química na Europa.

Qual é o segredo para se ser bom professor?

Não sei se há segredo, ou se há ‘receita’ que funcione sempre. Há dois ingredientes que considero indispensáveis: ter preparação científica adequada e ser profissional na relação com os alunos (preparar aulas, cumprir prazos, definir regras e agir de acordo, coisas assim…). Depois, há um outro ingrediente, menos tangível: ‘qualquer coisa’ que faz com que os alunos aprendam – independentemente de gostarem ou não do professor! – e que pode variar de professor para professor.

O que mais o fascina na profissão docente?

A possibilidade de transmitir Conhecimento, de ajudar os estudantes a desenvolverem as suas capacidades, de os ver evoluir. Creio que há dois momentos em que me sinto particularmente bem com a minha profissão: o primeiro é episódico, quando estou a falar com um aluno e consigo ver que percebeu qualquer coisa que não percebia antes; o segundo é quando contacto com ele mais tarde e percebo que evoluiu, que a passagem pela universidade teve um contributo positivo para ele, como cidadão e como ser humano.

Qual o maior desafio que enfrenta hoje um professor do Ensino Superior?

Não sei se hoje os desafios são muito maiores que os de ontem. Mas creio que os maiores desafios resultam do aumento do número de jovens a quem falta a maturidade para perceber o significado de ser estudante do ensino superior. Jovens que ainda não perceberam que por melhores condições de ensino que haja, por melhores professores que tenham, por mais apoio que recebam dos pais… nada disso conta, nada disso resulta, se não cumprirem a parte deles. Alguns demoram pouco tempo a perceber isso, mas outros demoram demasiado…

Qual o segredo para cativar os estudantes?

Se eu soubesse o segredo, já não seria segredo, porque o partilharia com gosto. Há atitudes que podem ser trabalhadas e depois há as características inatas de cada um. A capacidade de comunicação é importante, e, citando um colega meu, ser um bom actor, ajuda! Mas a empatia também não deve ser sobrevalorizada. Tal como digo aos meus alunos, para o sucesso de uma disciplina, não é necessário que os alunos gostem do professor, nem que o professor goste dos alunos: isso apenas torna o processo mais agradável… mas não é indispensável!

Existem diferenças entre esta e as anteriores gerações de estudantes? 

Não sou daqueles que acham que antigamente é que os alunos eram bons. A massificação do ensino trouxe à Universidade mais alunos e, por isso, maior diversidade em termos de preparação e motivação. Mas continuo a encontrar alunos muito preparados e motivados. A diferença existe naturalmente pela evolução da sociedade: imaturidade, múltiplas solicitações externas, (des)valorização do esforço, etc…

Que três conselhos daria aos seus colegas docentes?

Admitindo que são jovens colegas a entrar no sistema, creio que salientaria três pontos importantes:

O respeito é uma propriedade comutativa: tem de funcionar nos dois sentidos. Logo nas primeira aulas há que deixar bem claros quais os papéis atribuídos, “O Professor”/ ”O Estudante”, e o que se espera de cada um. E, a partir daí, cumprir e fazer cumprir as regras definidas.

A tarefa do Professor é proporcionar a aquisição de Conhecimentos - e estou a evitar dizer que é apenas transmissão de Conhecimento, mas certamente essa é uma componente incontornável  – e por isso a preparação científica é muito importante. Um professor deve dominar as matérias que lecciona e estar sempre disponível para aprender (e não ter problemas em reconhecer: “isso eu não sei, mas na próxima aula já trago a resposta").

Outra tarefa importante do Professor no sistema existente é a avaliação. E porque isso é muito importante para o estudante, tem de ser tratada com seriedade. Não recomendo facilitismo como meio para a popularidade: creio que a exigência é mais respeitada, e até apreciada, pelos estudantes. O meu esforço é para que a classificação final seja proporcional ao trabalho dos estudantes – ou seja, que eles sintam que se estudarem mais isso resulta em melhores notas. Depois há algumas regras de bom senso, como “não mudar regras a meio do jogo”, ou não exigir competências que nunca foram trabalhadas, por exemplo.

E aos estudantes?

Creio que nós damos demasiados conselhos, avisos e recomendações aos estudantes… O que também não é muito grave, porque eles raramente nos ouvem!

Com isso em mente, eu costumo dizer aos recém-chegados à universidade que é importante perceberem, o mais rapidamente possível, que já são adultos e vão ser tratados como tal: para o bem e para o mal, passam a ser responsáveis pelos seus atos; Aos que já cá estão e enfrentam dificuldades, recomendo que identifiquem o problema na origem dessas dificuldades e tentem fazer qualquer coisa diferente do que fizeram antes (e isso nem sempre é apenas ‘estudar mais’, frequentemente é ‘estudar melhor’);

O que está hoje bem e mal no ensino superior?

Não me considero um observador informado e vou evitar questões de ciclo político. Há assuntos que merecem ser discutidos e melhorados, como as regras de acesso ao ensino superior, o número de tipo de licenciaturas em oferta, e o financiamento/autonomia das instituições, por exemplo.

As avaliações internacionais indicam que, de uma forma geral, a qualidade do nosso ensino superior é boa – e tem vindo a melhorar em várias áreas, o que é positivo. Por outro lado, creio que há sinais de “evolução” das universidades no sentido de serem ‘escolas secundárias avançadas’ – e isso é claramente negativo.

E na profissão docente?

A profissão de docente universitário continua a ser uma profissão da qual gosto muito. Tenho algumas queixas, claro – e o excesso de burocracia e a contínua transferência de tarefas de secretariado para os docentes estão no topo da minha lista – mas o que mais me incomoda é olhar à volta e ver que a classe docente está envelhecida, embora haja um grande número de jovens (e alguns já menos jovens) que poderiam ser excelentes professores universitários, mas não têm essa oportunidade.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula?

Situações agradáveis tenho várias, porque a maior parte das aulas é realmente agradável (para mim. Para os alunos… não sei! Umas sim, outras não, suponho eu). E há também muitas aulas em que fico com a sensação de que desta vez consegui explicar bem o assunto e eles perceberam… Claro que também houve algumas situações constrangedoras, mas prefiro que essas fiquem dentro da sala onde aconteceram.

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