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Opinião
Opinião de Alfredo Rocha, especialista em Climatologia do Departamento de Física da Universidade de Aveiro
Será o verão de 2016 mais quente do que o normal?
Alfredo Rocha
Já está a pensar no verão? No sol, na praia, no mar e nos longos e quentes dias de agosto? Mas o clima vai ajudar a desfrutar em pleno as desejadas férias? Ou o termómetro e as nuvens conspiram uma surpresa desagradável? Alfredo Rocha, investigador do Departamento de Física e do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro e especialista em Clima, antecipa desde já se pode ir preparando o guarda-sol e o protector solar ou, pelo contrário, o guarda-chuva e um par de casacos.

A previsão de tempo é do conhecimento de todos. Esta é realizada regularmente, todos os dias, para um horizonte temporal que pode ir até alguns dias, tipicamente entre 3 e 10 dias. Estas previsões são baseadas em modelos numéricos físico-matemáticos da atmosfera que representam as Leis da Física, representadas por equações matemáticas e convertidas para linguagem de computador.

Este tipo de previsões parte do conhecimento das propriedades da atmosfera conhecidas num determinado instante de tempo, obtidas através da observação e registo dessas propriedades (temperatura, humidade, vento, entre outros), e utiliza os modelos acima referidos para calcular as propriedades da atmosfera para instantes de tempo posteriores. Trata-se, portanto, de um problema de condições iniciais que, em conjunto com os tais modelos permitem calcular um único estado atmosférico possível para cada instante de tempo posterior. Diz-se, por isso, que estas previsões são determinísticas.

Todos sabemos também que há sempre algum erro associado a este tipo de previsões cuja origem é variada. Uma das maiores fontes de erro resulta do facto do estado inicial utilizado construído, como se disse, com base em observações, apresentar sempre algum erro relativamente à realidade, por menor que seja esse erro. A atmosfera é um sistema caótico (o tal Caos de Lorenz) o que significa que esse pequeno erro inicial aumenta no tempo de forma que, a partir de 10-14 dias e por vezes antes, as previsões de tempo tornam-se praticamente inúteis porque se afastam muito da realidade.

Recentemente, os Institutos de meteorologia e outras entidades de investigação na área passaram a realizar também previsões de clima. Este tipo de previsões é praticamente independente das tais condições iniciais e depende, sim, das condições de fronteira, como, por exemplo, a energia radiativa solar que penetra no planeta, entre outras.

Convém aqui distinguir tempo meteorológico e clima. O primeiro diz respeito às propriedades da atmosfera num determinado instante de tempo. O segundo constitui um conjunto de estatísticas calculadas para um agregado sequencial de tempos meteorológicos, tipicamente 30 anos (definido pela Organização Meteorológica Mundial). A média é a grandeza estatística tipicamente utilizada para caracterizar o clima mas outras grandezas estatísticas devem ser consideradas, como por exemplo, o desvio padrão, valores extremos, etc..

Entre estas duas escalas temporais, de alguns dias a dezenas de anos, existem escalas intermédias de 15 dias a um ano para as quais são também realizadas previsões. Faz todo o sentido que este tipo de previsão, designada de previsão de médio prazo para horizontes de previsão até um mês dependa ainda parcialmente das condições iniciais. Para horizontes temporais de um mês até um ano a previsão designa-se de previsão sazonal, e as condições iniciais perdem importância relativamente às condições de fronteira.

As condições de fronteira que menciono são aquelas que variam consideravelmente e lentamente nestas escalas de alguns meses a poucos anos, e que demonstram uma persistência e, portanto, uma predictabilidade considerável. Refiro-me concretamente à temperatura da superfície do oceano, à cobertura de neve e ao conteúdo de água no solo. O fenómeno do El Niño representa o modo de variabilidade mais importante da temperatura da superfície do oceano global. O El Niño traduz-se num aumento significativo da temperatura superficial de grande parte do Oceano Pacífico tropical, apresenta uma periodicidade aproximada de 2 a 5 anos, o seu comportamento é em grande parte previsível e a sua interação com a atmosfera é forte, afetando o tempo (meteorológico) e o clima em muitas regiões da Terra.

Devido à sua natureza não determinística, estas previsões são apresentadas de forma diferente das previsões de tempo. As previsões sazonais referem a probabilidade de ocorrer um mês ou estação do ano mais ou menos quente, ou mais ou menos chuvoso do que o normal. São utilizadas probabilidades para quantificar o grau de incerteza na previsão do estado climático para esse mês ou estação do ano.

A previsão sazonal apresenta maior predictabilidade nos trópicos porque, nessas regiões, a variabilidade da atmosfera de origem natural (aquela que se observa sem considerar as variações nas condições de fronteira aqui mencionadas) é consideravelmente inferior àquela com origem na temperatura da superfície do oceano tropical. Nas latitudes médias e elevadas, embora a influência do oceano tropical, em particular os eventos de El Niño, se façam sentir em algumas regiões remotas, o seu sinal é tipicamente inferior à variabilidade natural da atmosfera. Deste modo, as previsões sazonais apresentam tipicamente níveis de incerteza elevados.

A previsão sazonal entre Abril e Agosto de 2016 pode ser consultada no site do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), em:

http://www.ipma.pt/export/sites/ipma/bin/docs/publicacoes/meteo.prev/bps_0104.3108_2016.pdf

Em resumo, para Portugal Continental e para os meses de verão (Junho Julho e Agosto):

  1. Não se preveem anomalias da precipitação estatisticamente significativas, relativamente às condições normais.
  2. Prevê-se uma probabilidade de 60 a 70% da temperatura média trimestral ser até 1ºC superior à média, sobretudo nas regiões do interior.

Note-se que a probabilidade de 60 a 70% mencionada não representa um valor elevado. Significa que há também entre 30 e 40% de probabilidade de isto não vir a acontecer.

Basta referir que a probabilidade de lançar uma moeda ao ar e sair ‘cara’ ou ‘coroa’ é igual, nomeadamente de 50%. Claro que este valor não apresenta utilidade alguma se eu quiser prever o resultado ao lançar uma moeda ao ar.

Isto significa que há apenas alguma expectativa de virmos a ter um verão até 1ºC mais quente do que o normal. Curiosamente, está a decorrer o evento de El Niño mais intenso, juntamente com o que ocorreu em 1997-98, pelo menos desde 1950 e, nem por isso a predictabilidade sazonal do clima em Portugal é elevada para os próximos meses.

 

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