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Investigação
Investigação de João Santos do Departamento de Biologia
Biólogo da UA otimiza métodos para monitorização e gestão de populações de veados
O investigador João Santos
É possível avaliar e monitorizar a condição física dos veados usando métodos mais simples e rentáveis do que aqueles utilizados atualmente, que passam pela análise dos dois rins, e respetiva gordura associada, dos animais encontrados mortos na natureza ou abatidos pela caça. João Santos, biólogo da Universidade de Aveiro (UA), descobriu que é preciso apenas um rim e a sua gordura perirrenal para avaliar o estado nutricional do veado. O procedimento desenvolvido pelo investigador reduz o esforço, o custo e o tempo necessários para obter um dado fundamental para conhecer melhor a condição física de uma espécie que, só na Península Ibérica, tem mais de 900 mil indivíduos.

“Provou-se que a condição nutricional dos veados, medida em termos da quantidade de reservas de gordura, pode ser avaliada usando apenas um rim e a sua gordura perirrenal, em vez de dois rins e a sua gordura associada, como era usual”, explica João Santos, biólogo do Departamento de Biologia e da Unidade de Vida Selvagem da UA. O resultado, aponta, tem implicações na redução do esforço e do tempo necessário tanto no campo como no laboratório, em particular aquando da recolha e posterior processamento das amostras.

Esta é uma das principais conclusões do trabalho de doutoramento intitulado “Ecologia e condição física do veado na Península Ibérica: implicações para a gestão” e que o biólogo, sob orientação de Carlos Fonseca, da UA, e de Christian Gortázar e Joaquín Vicente, da Universidad de Castilla-La Mancha (Espanha), concluiu em outubro.

Do estudo, que pretendeu otimizar os métodos usados para avaliar a condição física do veado e identificar os fatores de gestão cinegética e ambientais que afetam o estado nutricional e a fisiologia do stress desta espécie nos ecossistemas mediterrânicos da Ibéria, assim como investigar possíveis interações entre esses fatores, surgiu outra importante conclusão.

João Santos explica que “ao nível da otimização de procedimentos, provou-se, pela primeira vez, a viabilidade da espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS) para estimar concentrações de metabólitos de hormonas de stress (glucocorticoides) em fezes, em particular de veado, os quais têm sido usados como bio-indicadores para monitorizar a resposta de stress fisiológico em várias espécies silvestres e domésticas”. Uma boa notícia já que a NIRS, garante o investigador, apresenta algumas vantagens em relação às técnicas imunoquímicas convencionais pois é limpa (não produz resíduos contaminantes), não destrói as amostras e, uma vez calibrada usando os métodos convencionais (standard), apresenta baixo custo de análise por amostra.

Práticas de gestão mais sustentáveis

A segunda grande conclusão do trabalho do biólogo é que é essencial considerar variáveis que reflitam as práticas de gestão cinegética aquando da avaliação de fatores que afetam a condição física do veado e, muito provavelmente, também de outras espécies cinegéticas. Uma certeza que o biólogo justifica tendo em conta que as “elevadas densidades populacionais relacionaram-se negativamente com a condição nutricional e positivamente com os níveis de stress fisiológico em populações naturais, sem alimentação suplementar”.

A este argumento João Santos acrescenta ainda o fato dos “níveis de stress fisiológico” terem sido “mais elevados em áreas onde os métodos de caça envolviam vários caçadores e o uso de matilhas, em comparação com áreas em que a caça era feita com métodos menos perturbadores, como, por exemplo, pelo método da aproximação”.

“Estes fatores de interferência humana são potenciais fontes de stress fisiológico crónico, o qual pode ter efeitos adversos sobre a condição física dos animais e influenciar diversos aspetos da sua história de vida, tais como crescimento, estado sanitário, reprodução e sobrevivência, com implicações e consequências ao nível da dinâmica das próprias populações”, refere João Santos.

Na prática, o biólogo da UA espera que o trabalho desenvolvido possa ajudar os gestores de fauna silvestre, em particular de espécies cinegéticas de caça maior, a implementar programas de monitorização mais eficazes e práticas de gestão mais sustentáveis. Relativamente à monitorização, aponta, “o estudo apresenta novas ferramentas e procedimentos otimizados para avaliar a condição nutricional e o estado fisiológico do veado e das suas populações”. Muitos destes procedimentos, garante o investigador, podem ser facilmente adotados para avaliar o estado de indivíduos e populações.

Já ao nível da gestão, João Santos considera que “a mensagem mais importante a deixar para os gestores de caça é que devem promover o uso de métodos de caça que causem a menor perturbação possível para as populações e também que devem dirigir esforços no sentido de tentar ajustar as densidades populacionais à capacidade de carga do meio ambiente”.

Uma espécie abundante em Portugal e Espanha

O veado é, atualmente, uma espécie abundante na Península Ibérica. Embora não hajam dados quantitativos precisos sobre o número de animais para todo o território peninsular, estima-se que possam existir mais de 900 mil veados, grosso modo, em toda a península. A abundância, que varia de região para região, é, em muito, determinada pelo tipo de gestão cinegética praticada, que varia não apenas entre países, mas também entre regiões dentro de um mesmo país e depende do tipo de unidade/área de gestão e dos objetivos das entidades gestoras, públicas ou privadas.

Relativamente à gestão das populações de veado na Península Ibérica, explica João Santos, consideram-se, normalmente, dois grandes cenários. Em geral, “as populações que ocupam a parte norte da península, caracterizada ou influenciada por um clima atlântico, ocorrem em menores densidades populacionais (até 10 animais por quilómetro quadrado) e estão sujeitas a menor intervenção humana”. Estas populações “estão sobretudo dependentes dos recursos vegetais naturalmente existentes no ambiente para a sua alimentação e, muitas delas, estão também sujeitas à predação do lobo-ibérico, um elemento chave na regulação das densidades de veados e outros ungulados silvestres”.

Este cenário “contrasta com aquele que se regista na porção centro-sul da Península Ibérica, caracterizada por um clima mediterrânico, onde, normalmente, as populações de veado estão sujeitas a uma gestão mais intensiva, ocorrendo em maiores densidades (chegando, por vezes, a 30-40 animais por quilómetro quadrado), encontrando-se, frequentemente, acima da capacidade de carga do meio ambiente”.

“Algumas destas populações são mantidas com recurso a alimentação suplementar e a manipulação dos recursos hídricos também é frequente (através da criação de pontos de água artificiais). Este tipo de intervenções pode aumentar o risco de transmissão de agentes patogénicos entre indivíduos, uma vez que promove a agregação dos animais num espaço reduzido”, aponta o investigador.

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