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Opinião
Mónica Lourenço, professora no Departamento de Educação e investigadora do Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores
Três mitos sobre a aprendizagem de línguas na infância que pais (e professores) deveriam conhecer
Mónica Lourenço
Quanto mais cedo se aprende uma língua, melhor? Apenas a aprendizagem da língua inglesa traz benefícios às crianças? Para ensinar línguas a crianças não é necessária uma metodologia própria, nem uma formação específica? A investigadora Mónica Lourenço, do Departamento de Educação da Universidade de Aveiro, dá uma ajuda para que pais e educadores possam proporcionar às crianças os benefícios da descoberta e da exploração das línguas.

A aprendizagem de línguas na infância tem vindo a ser alvo de uma atenção sem precedentes nas últimas décadas, suportada pela produção de documentos de política linguística internacional que enfatizam a necessidade de promover a aprendizagem de duas línguas, para além da língua materna, desde cedo. O objetivo passa não só por desenvolver a proficiência linguística das crianças, mas, acima de tudo, por promover atitudes de respeito em relação a diferentes povos e culturas, contribuindo para a construção da cidadania e de uma identidade plurilingue e intercultural.

Estas orientações traduziram-se na antecipação formal da aprendizagem de línguas em vários países do mundo, nomeadamente em Portugal, com a introdução do Inglês como disciplina obrigatória no 3.º ano de escolaridade, já no corrente ano letivo. Do mesmo modo, em instituições pré-escolares, assistimos a um aumento da oferta (e da procura) de atividades extracurriculares de ensino de língua, alargada a outras instituições privadas.

Os pressupostos que levam os pais a querer que os seus filhos aprendam línguas são, comummente, de natureza instrumental, tendo em conta a futura utilidade das línguas na sua vida profissional e académica. Todavia, as suas expetativas e motivações são, não raras vezes, desadequadas e irrealistas, sustentadas em alguns mitos e ideias de senso comum que contribuem para obscurecer os verdadeiros benefícios da descoberta e da exploração das línguas na infância.

Mito #1: Quanto mais cedo se aprende uma língua, melhor

Este mito está associado ao pressuposto de que as crianças aprendem línguas mais facilmente e mais rapidamente do que os adolescentes e adultos, por se encontrarem ainda dentro de um período crítico de aprendizagem. Pensa-se que, durante este período, que antecede o fim do processo de lateralização e a consequente diminuição da plasticidade cerebral, as crianças podem fazer uso de mecanismos implícitos e da memória procedimental, o que reduz o esforço cognitivo e facilita a espontaneidade e a fluência na aquisição.

Embora esta teoria seja relativamente consensual no que se refere à aquisição de uma língua materna, ainda não existe unanimidade relativamente à aprendizagem de outras línguas. Na verdade, em comparação com aprendentes adultos ou adolescentes, as crianças parecem ser capazes de alcançar melhores desempenhos no âmbito da pronúncia, revelando também uma maior fluência e proficiência no futuro. Porém, têm piores prestações na realização de tarefas de natureza verbal e dispõem de representações fonológicas e lexicais pouco estáveis, o que dificulta a aprendizagem de vocabulário numa outra língua.

Neste caso, a idade parece surgir como um fator facilitador, podendo os aprendentes adultos utilizar estratégias cognitivas mais eficazes no domínio da memorização, nomeadamente através da transferência de conhecimentos da língua materna.

Mito #2: Apenas a aprendizagem da língua inglesa aporta benefícios às crianças

As experiências educativas realizadas nos jardins de infância portugueses têm-se traduzido, na sua grande maioria, no ensino da língua inglesa. Todavia, face à presença cada vez mais visível de crianças de origens diversificadas nas nossas escolas, têm vindo a defender-se outras abordagens didáticas, como a sensibilização à diversidade linguística e cultural, que não se restringe à aprendizagem de uma única língua, mas que promove o contacto com línguas de grande difusão, como o inglês, línguas minoritárias, línguas de herança, e até línguas em vias de extinção.

Estudos científicos realizados com crianças em idade pré-escolar sugerem que esta abordagem desperta o conhecimento do mundo, fomenta o respeito face à diversidade e à alteridade, aumenta a motivação para a aprendizagem futura de línguas, promove a integração de crianças migrantes, e desenvolve capacidades de observação e reflexão linguística, como é o caso da consciência fonológica.

Mito #3: Para ensinar línguas a crianças não é necessária uma metodologia própria, nem uma formação específica

Vários estudos sugerem que a aprendizagem de uma língua no ensino pré-escolar ou primário sem que se opte por uma metodologia pedagógico-didática adequada, por uma correta formação dos professores e educadores, e sem que exista uma transição apropriada para ciclos posteriores pode revelar-se pouco eficaz.

Como observámos num estudo que conduzimos com crianças que aprendiam inglês pela primeira vez no 3.º ano de escolaridade, perante uma metodologia desadequada, de tipo avaliativo, desligada de situações de comunicação reais e relevantes para o seu mundo, algumas crianças desenvolvem sentimentos de desinteresse, desmotivação e frustração, passando a encarar as línguas como pesados fardos nos currículos escolares. É, portanto, fundamental, repensar os currículos do ensino pré-escolar e do ensino básico, no sentido de uma aprendizagem linguística gradual que evite a repetição de conteúdos e que comece por uma sensibilização da criança a outras sonoridades e culturas, tendo em conta uma oferta de línguas mais diversificada.

Em suma, se a aprendizagem de línguas permite à criança tomar consciência de que existem diferentes maneiras de ver, pensar e sentir o mundo, e alarga os conhecimentos sobre a sua própria língua, é necessário, como sugere Gaonac’h, «éviter tout lyrisme sur les formidables aptitudes d’apprentissage du jeune enfant», repensando currículos, formando professores competentes e promovendo abordagens didáticas mais adequadas para educar as crianças para viverem e participarem em sociedades que se querem mais justas e mais solidárias.

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