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Opinião
Celeste Amorim Varum, professora de Economia no Departamento de Economia, Gestão e Engenharia Industrial da Universidade de Aveiro
Dia Mundial da Poupança - A Bela Adormecida!
Celeste Amorim Varum
“Deveria ser neste dia dado maior relevo, e mais discutida, a importância dos bancos, a sua credibilidade e segurança, o seu papel em termos de sociedade, isto em linguagem acessível para o comum dos cidadãos, contribuindo assim para restaurar a sua confiança”. A opinião de Celeste Amorim Varum, professora de Economia no Departamento de Economia, Gestão e Engenharia Industrial da Universidade de Aveiro, em Dia Mundial da Poupança.

Faz hoje, 31 de outubro de 2015, 91 anos. Foi em 1924, no final do 1º Congresso Internacional de Bancos (1st International Savings Bank Congress), em Milão, que nasceu o Dia Mundial da Poupança. Teve como objetivo alertar os cidadãos sobre a importância da poupança para a sociedade e para o individuo. Simultaneamente pretendia-se criar maior confiança junto dos cidadãos relativamente à banca, estimulando o depósito de valores junto daquela.

Após a 2ª Guerra Mundial, em alguns países, o dia readquiriu algum destaque, por exemplo na Alemanha onde havia necessidade de reestabelecer a confiança dos cidadãos no sistema bancário. Ao longo dos tempos, em muitos países, este dia perdeu relevância, em muitos casos em favor de outras celebrações mais exuberantes que decorrem na mesma data.

Assim permaneceu adormecido, despertando qual Bela Adormecida em face dos efeitos da mais recente crise económica.

Na última década, neste dia, sublinhou-se a importância da poupança. Quer tendo por base motivos de precaução ou gastos futuros, ‘a poupança é um estabilizador automático, permitindo que flutuações no rendimento (devido aos ciclos económicos ou ao longo da vida), tenham um impacto menor no nível do consumo dos agentes económicos, em agregado e individualmente’, repito. Adicionalmente, os recursos poupados são determinantes para estimular o investimento. Aquele objetivo assume, ainda, grande importância atualmente, atendendo aos baixos níveis de poupança da população portuguesa.

Atualmente esta situa-se em torno dos 7% do rendimento disponível, bem aquém da média da UE. Acrescendo a este facto, não é expectável que remessas dos ‘novos emigrantes’ venham a contribuir para atenuar estas debilidades ao nível das poupanças em Portugal, por oposição ao que ocorreu em fases anteriores de surtos emigratórios.

Sublinho, no entanto, que, em face da quebra do rendimento disponível, o discurso deverá verter mais sobre valores, princípios de ação, como gerar rendimento e como gastar melhor. Exigir uma redução dos gastos das famílias no atual contexto é um discurso, em muitos casos, irreal, e mesmo contrário às condições para a própria recuperação económica. Da mesma forma, em termos de aplicação das poupanças, carece sublinhar junto da população a necessidade de esta se preparar melhor, em termos financeiros, para a fase da reforma. Ainda recentemente, num estudo levado a cabo pela Universidade de Aveiro junto de uma amostra de cidadãos de Aveiro, registamos o baixo nível de poupança com este objetivo (Projeto Economicando).

Em Portugal, nos últimos anos, as comemorações deste dia têm sido associadas ao Dia da Formação Financeira, ganhando assim importância a sensibilização da população para a literacia financeira. Pelos resultados do estudo do Banco de Portugal, e pelos resultados obtidos no âmbito do projeto Economicando já referido, a população Portuguesa apresenta debilidades ao nível da literacia económica e financeira, o que a coloca em desvantagem quando no dia-a-dia tem de enfrentar e tomar decisões em situações complexas do ponto de vista económico e financeiro. Carece a este nível a aplicação em Portugal do Inquérito PISA da OCDE nestas matérias, o que tornaria possível uma comparação internacional. De qualquer forma, ações que promovam a literacia financeira e económica da população em geral são muito pertinentes.

Apesar da importância dos temas referidos, os fundamentos de base para a criação deste dia, em 1924, permanecem algo adormecidos, o que é surpreendente considerando os eventos que vieram por em causa a credibilidade do sistema bancário Português. Deveria ser neste dia dado maior relevo, e mais discutida, a importância dos bancos, a sua credibilidade e segurança, o seu papel em termos de sociedade, isto em linguagem acessível para o comum dos cidadãos, contribuindo assim para restaurar a sua confiança.

Este dia é sempre uma oportunidade para se repensar os padrões e opções que a sociedade portuguesa está a seguir.

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