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Opinião
Júlio Pedrosa, professor catedrático e antigo Reitor da Universidade de Aveiro
Viver feliz em comunidade - Questões que vou formulando sobre a ideia de ser feliz
Júlio Pedrosa
O que é a felicidade? O que é viver feliz? E onde, como e para quê? “A felicidade, a criação de condições para se ser feliz é uma questão pessoal, individual, social, das comunidades e política”. As perguntas e as respostas são de Júlio Pedrosa, professor catedrático e antigo Reitor da UA. Porque simplesmente hoje, como qualquer outro dia, é o dia ideal para se desejar que todos sejamos felizes.

1. Introdução

O querer viver feliz é fonte de questões, de interrogações para que não temos resposta imediata. As interrogações podem ser formuladas a propósito do mundo que nos rodeia e de nós próprios, de qualquer actividade nossa, ou de situações com que somos confrontados nas comunidades que integramos.

Mas será que este acto de interrogar, de formular questões, é uma atitude comum?

Um grande amigo meu, distinto professor universitário, depois de múltiplas funções de grande responsabilidade dedicou-se a escrever livros de Ciência para crianças e confirmou que as crianças fazem muitas perguntas desde tenra idade, mas que com o tempo os adultos matam essa vontade de perguntar.

Será mesmo assim?

Os tempos que vivemos são muito diferentes daqueles que os nossos pais viveram, em que nós próprios nascemos e crescemos. Tenho-me interrogado muitas vezes sobre a ideia de ser feliz, hoje e o futuro. Estes tempos criam medos em muitos cidadãos, estimulam comportamentos que por vezes nos surpreendem, apresentam sinais de que os nossos filhos e netos vão viver em contextos bem distintos daqueles em nós crescemos.

Como é que podemos contribuir para a felicidade de quem vai viver depois de nós? A este propósito, talvez seja oportuno interrogarmo-nos sobre quais são os “comandos” dos nossos comportamentos em cada tempo que vivemos. Admito, há muito, que um desses “comandos” das nossas vidas é o desejo de ser feliz, é a procura de felicidade.

Se vos perguntar o que alguém mais desejaria para os seus filhos e netos, poderia antecipar a resposta. Que sejam felizes é a resposta que normalmente se ouve para esta pergunta.

É minha convicção que os portugueses vivem tempos a que se devia responder com mais interrogações, com mais procura de opções, de escolhas para se poder ter a vida pessoal e social que desejaríamos viver. De facto, os fundamentos, os princípios que orientam a nossa vida juntos exigem âncoras em modos de entender o que é a pessoa humana, em reflexões sobre a cidade, a aldeia, a comunidade que integramos, em ideias sobre as vias para estruturar e orientar os projectos de vida das pessoas, a organização e o governo das instituições, das organizações, das comunidades e das nações.

Enfim, creio ser um bom momento para reflectir sobre a cidade que desejamos construir e em como se deve entender e participar na vida nessa cidade. Será por aí que iniciamos esta caminhada de hoje, visitando o pensamento de sábios que, ao longo de séculos procuraram responder à pergunta: O que é a Felicidade?

A felicidade, a mais formosa e a melhor de todas as coisas, é também a mais agradável … Formada a princípio preservar a vida, a cidade subsiste para assegurar a vida boa, disse-nos Aristóteles há cerca de 2300 anos.

E, uns séculos mais tarde, Santo Agostinho, em conversas com a mãe, irmãos, filhos, primos e discípulos, entre os dias 13 e 15 de Novembro do ano de 386, há 1629 anos, propunha que ser feliz consiste em … ser sábio e que a sabedoria é o contrário da estultícia é a verdade.

Um pouco mais próximo dos nossos tempos, John Locke, no seu Ensaio sobre o Entendimento Humano fala assim: Se for ainda questionado: O que é que move o desejo? Eu respondo: A FELICIDADE … A Felicidade … em toda a sua amplitude, é o prazer máximo do qual somos capazes, e a INFELICIDADE, a máxima DOR ….

Aqui temos modos de pensar a felicidade em tempos e espaços variados. E como a felicidade e a infelicidade se vivem em comunidade, será oportuno olharmos o que nos ensinou Aristóteles sobre a ideia de cidade: A cidade é constituída pela comunidade de famílias em aldeias, numa existência perfeita e auto-suficiente; e esta é, em nosso juízo, a vida feliz e boa

Algumas destes pensamentos podem ser a base para olhar as vidas das pessoas com esperança e para pensar a cidade em desejamos viver. Começaremos por uma visita a uma tal cidade, para de seguida olharmos para o que significa viver feliz nessa cidade.

2. Viver na cidade

Ser feliz é uma expressão que diz algo de importante a qualquer pessoa, de qualquer condição e modo de vida. Mas também será verdade que se perguntarmos o que é ser feliz receberemos um leque muito variado de respostas.

Convido os leitores a visitar a cidade que Aristóteles descreveu assim:

A cidade é constituída pela comunidade de famílias em aldeias, numa existência perfeita e auto-suficiente; e esta é, em nosso juízo, a vida feliz e boa.

De facto, todos nós vivemos em cidades de Aristóteles, porque todos experimentamos no dia-a-dia a vida de comunidades de famílias.

Aveiro tem uma história rica e antiga. É uma terra de gentes diversas, com passados, experiências e modos de vida variados, que não se vergou nunca a dificuldades e contratempos. Há muitos e competentes historiadores que nos mostram os caminhos que fizeram os povos, as aldeias que são a cidade de Aveiro. A leitura destas obras dá-nos conta das múltiplas agregações de pessoas que nas margens do Vouga, nos canais e frentes da ria e do mar, nos distintos lugares, aldeias e vilas criaram a cidade de Aveiro.

Será que Aveiro, não é mesmo uma cidade de Aristóteles, constituída por uma comunidade de famílias em aldeias? É que Aveiro tem sido o destino e comunidade de vida de gentes de variadas origens, que aqui se integraram numa comunidade completa, como referia Aristóteles, com actividade económica na agricultura, nas pescas, na indústria, no comércio e no turismo, em variados serviços inovadores e sofisticados, uma comunidade feita de gentes diversas e realizadoras.

Escolhi Aveiro para aqui viver e trabalhar no ano de 1973, já lá vão 42 anos, quando o Professor Victor Manuel Simões Gil, meu orientador científico na Universidade de Coimbra me convidou a acompanhá-lo e vir um pouco mais para norte, contribuir para o nascimento da nova universidade. Muito pouca gente acreditava, então, que fosse possível construir aqui o projecto institucional que hoje se conhece. A Universidade de Aveiro e os centros de investigação de empresas que aqui existem reforçaram o potencial de crescimento, de modernização e de desenvolvimento destes territórios. Atraíram-se pessoas qualificadas, projectos, infra-estruturas e meios que fizeram de Aveiro um polo de referência, conhecido e apreciado no mundo empresarial, científico e universitário. A comunidade aveirense soube acolher e acompanhar solidariamente tão exigente caminhada e os seus actores sociais e económicos foram sempre companheiros atentos, exigentes e amigos. Temos aí gente nova bem preparada povoando fábricas e escolas, autarquias e serviços públicos, empresas e organizações não-governamentais.

Acredito que as reflexões de Aristóteles sobre as bases da vida boa podem ajudar-nos a viver melhor os tempos que vivemos, podendo acrescentar ao saber daquele sábio grego os saberes de muitos sábios ao longo da história. Precisamos de mudar muita coisa nas cidades e aldeias deste País. Nos sítios onde vivemos, nas empresas e em outras organizações em que se trabalha, nos serviços que proporcionam saúde e educação, nos locais de ócio. Há muitas pessoas, organizações e instituições onde já se trabalha para ter esta exigência no seu seio e desejamos todos, ardentemente, ver estruturas públicas em que possamos confiar.

3. O que é viver feliz na cidade?

AS eleições para a Assembleia da República proporcionam um momento oportuno para reflectir sobre o significado e o modo de alcançar vida feliz e boa nas nossas cidades. Formada a princípio para preservar a vida, a cidade subsiste para assegurar a vida boa, outra vez Aristóteles …. Que acrescenta: É preciso concluir que a comunidade política existe graças às boas acções e não à simples vida em comum, a indicar-nos o que queremos que os responsáveis políticos e os actores sociais façam, que trabalhem bem, com sentido de responsabilidade, cultivando a integridade, para assegurar o bem comum.

Todos desejamos, certamente, ver nas eleições sinais claros de que somos capazes de aprender com os nossos erros e fraquezas, que se conceda grande atenção àquilo que são os alicerces para as pessoas poderem ter uma vida digna, com sentido e esperança. A dignidade das pessoas, a solidariedade e a justiça têm que ser palavras que orientam a acção e a vida nas comunidades.

A cidade é uma pluralidade que deve ser convertida em comunidade e unidade através da educação, dizia o sábio grego. A Educação começa em casa, vem da creche e do jardim-de-infância, da escola, das experiências de todos os dias nos grupos e comunidades por que passamos. Aveiro é mesmo pluralidade que precisa de grande cuidado e investimento na saúde, na cultura, na economia e na educação. Na educação toda.

Mas será que estes caminhos se abrem apenas com o contributo dos outros?

Será que mudamos algo se continuarmos a pensar que não temos o que desejamos por culpa do outro?

A coragem, a justiça e a prudência da cidade têm a mesma capacidade e a mesma forma das virtudes que fazem com que o homem que delas participa seja chamado justo, prudente e moderado (Aristóteles).

Precisamos de falar todos os dias disto, entre nós, de cuidar bem dos fins que prosseguimos e dos modos de os realizar, na família, na escola, na empresa, na estrutura política. De facto, acredito que uma forma de em Portugal se recriarem ambientes que estimulem organizações de cidadãos para buscarem a felicidade, passa por nos interrogarmos sobre a ideia de viver feliz em comunidade e de todos contribuirmos para que assim seja na nossa cidade.

A coragem, a justiça e a prudência da cidade têm a mesma capacidade e a mesma forma das virtudes que fazem com que o homem que delas participa seja chamado justo, prudente e moderado (Aristóteles).

 

Não existe vida justa, digna, sem trabalho e a sua justa remuneração. Não há auto-suficiência sem um desígnio para a dinamização da vida económica. Aqui, de novo, estamos em terra de gente ousada, responsável, empreendedora, que tem demonstrado valor, confiança e capacidade para fazer bem e com sentido de futuro.

Diz o nosso filósofo grego: A conclusão clara é de que a cidade que é verdadeiramente cidade, e não apenas de nome, deve preocupar-se com a virtude … o homem bom é aquele para quem, devido à virtude, os bens são bens em absoluto, sendo evidente que o uso que faz destes bens em si será, necessariamente, bom e nobre.

Nos tempos que vivemos exige-se mais capacidade para resolver impasses desnecessários, para cuidar de congregar vontades, para buscar aliados e descobrir vias para sermos uma comunidade mais amiga e mais feliz, onde se criam oportunidades de trabalho e de vida boa para todos. O desemprego só pode ser respondido através da revitalização da vida económica e da criação de oportunidades para se acreditar que todos têm direito a viver com dignidade. Há aliados potenciais a descobrir para realizar este desígnio. Há gente nova, bem preparada, há comunidades de gente madura e de gente velha que tem sabedoria e experiências de vida valiosas. Toda esta gente deve ser mobilizada, acompanhada e apoiada, na busca de caminhos de futuro.

Haverá estruturas e oportunidades que se devem valorizar. Surgirão espaços de acção com o novo programa quadro da União Europeia que apelam a capacidade de antecipação, à mobilização de parceiros, à invenção de formas novas de trabalho cooperativo, de expressões de cidadania activa.

Estamos a ser desafiados pelo sábio grego a cuidar das virtudes, dos elementos e qualidades que devem estar presentes quando se visa uma vida feliz e um bom governo para a cidade. Acredito sinceramente que precisamos de falar mais disto, entre nós, de cuidar bem dos fins que prosseguimos e dos modos de os realizar.

Bertrand Russel, no seu livro de 1930, que foi publicado em Portugal em Março de 2015, com o título “ A Conquista da Felicidade”, afirma que “o gosto pela vida faz parte da natureza dos seres humanos”. E que significa a expressão “gosto pela vida”?

Bertrand Russel dá-nos algumas pistas que deixo para vossa consideração:

a-      A felicidade depende em parte das circunstâncias exteriores e em parte do próprio homem

b-      O segredo da felicidade é o seguinte: deixai que os vossos interesses sejam tão amplos quanto possível, e deixai que as vossas reacções em relação às coisas e às pessoas que vos interessam sejam tão amistosas e tão pouco hostis quanto possam ser.

E como é que cada um de nós construiu a sua identidade, o ser?

Aprender a ser foi indicado como uma das fundações da Educação e se a Educação começa ao nascer, ela acontece na vida toda, em muitos lugares e contextos, com contributos bem diversos, da família, das educadoras e professores, dos amigos e concidadãos com que vivemos e crescemos. Por isso a felicidade, a criação de condições para se ser feliz é uma questão pessoal, individual, social, das comunidades e política.

E volto a Bertrand Russell: Na adolescência odiava a vida e estava continuamente á beira do suicídio, de que no entanto me salvei devido ao desejo de me aperfeiçoar em matemática. Agora, pelo contrário amo a vida, poderia até dizer que a cada ano que passa a amo mais. Isso deve-se em parte ao facto de ter descoberto as coisas que mais desejava e de ter alcançado muitas delas a pouco-e-pouco, em parte por ter afastado de mim, felizmente, certos objectos de desejo, essencialmente inacessíveis …

Esta confissão de Bertrand Russell é uma forma de dizer que “ a felicidade, a mais formosa e a melhor de todas as coisas, é também a mais agradável”, como ensinou Aristóteles. Realmente, também hoje a felicidade parece ser uma ideia presente nas escolhas de vida das pessoas, mesmo que tal não seja verbalizado.

 

Notas Finais

A síntese destas reflexões pode ser apresentada através de uma nova visita a Aristóteles. De facto há que atender ao que significa viver bem e ao modo de o adquirir, que quer dizer se será devido á natureza que se tornam felizes todos os que assim são chamados … ou se será por aprendizagem (como se a felicidade fosse uma certa ciência), ou por um determinado exercício (com efeito, muito daquilo que o homem adquire alcança-o não por natureza ou aprendizagem, mas por hábito: qualidades más por maus hábitos, boas por bons hábitos) ou então se será devido não a qualquer uma destas vias, mas antes a uma das duas que se seguem: ou por uma certa inspiração daimónica (o daimonion é uma espécie de força transcendente), ou por mero acaso (são numerosos, de facto, os que identificam felicidade com boa sorte).

Terminarei com outra citação, agora de um autor português (Miguel Real) em livro recente:  A felicidade é, assim um conceito central da Ética, porventura superior, já que estabelece e orienta a prática do bem … enquanto conceito supremo da vida ética, todos os outros se lhe submetem: o amor-próprio, o bem quotidiano, a liberdade, a justiça, a forma ética de vida …

Se a Felicidade é uma ideia central para orientar a prática do bem, para se viver bem na cidade querida, só podemos desejar que sejamos todos felizes, isto é, pessoas dignas, livres, cultivando a justiça e os fundamentos da confiança mútua.

 

Bibliografia

Aristóteles (2005), Ética a Eudemo. Lisboa: Tribuna da História.

Bertrand Russel (2015), A Conquista da Felicidade. Lisboa: Relógio d’ Água.

John Locke (2008), Ensaio sobre o Entendimento humano. Lisboa: FCG, vol. I

Miguel Real (2013), Nova Teoria da Felicidade. Lisboa: D. Quixote.

Santo Agostinho (2010), Diálogo sobre a felicidade. Lisboa: Edições 70.

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