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Entrevistas
Pedro Melo Freitas, presidente da Comissão organizadora do Congresso de Neurorradiologia
Falar de Neurorradiologia e AVC na UA é uma mais-valia na interação Ciência Médica e Investigação
Pedro Melo Freitas preside à Comissão Organizadora do XI Congresso Nacional de Neurorradiologia
A Universidade de Aveiro (UA) vai receber o XI Congresso Nacional de Neurorradiologia, entre os dias 23 e 25 de outubro, subordinado ao tema “Intervenção Diagnóstica e Terapêutica na Fase Aguda do AVC”, uma das principais causas de morte e incapacidade em Portugal. O evento coincide com a campanha “STOP AVC – SPNR 25 anos” que inclui um programa paralelo a desafiar a população. O presidente da Comissão Organizadora do Congresso e professor da UA, Pedro Melo Freitas, destaca a “inequívoca supremacia dos resultados” da intervenção neurorradiológica em certas situações e as vantagens de discutir o tema num meio conhecido pela investigação de topo em Física, Eletrónica, Biomedicina e Biomecânica.

A Neurorradiologia é uma especialidade relativamente nova na Medicina… Desde quando existe nos hospitais centrais (Porto, Lisboa e Coimbra)?

Como especialidade existe desde 1981, data da publicação do Curriculum do internato da especialidade pela Ordem dos Médicos em D.R. Atendendo à sofisticação dos equipamentos, inicialmente esteve cingida aos grandes centros. Pese embora o reconhecimento e a legislação sobre a especialidade seja desse ano, desde o início da década de 60 que podemos falar em médicos dedicados exclusivamente ao saber neurorradiologicum, ou seja, os primeiros neurorradiologistas portugueses.

Tem provado a sua eficácia, nomeadamente no tratamento do pós-AVC… Há indicadores que comprovem essa eficácia comparativamente à intervenção convencional, nomeadamente a da Neurologia?

Os resultados dos trials clínicos que têm saído ao longo do último ano, são prova inequívoca da supremacia dos resultados da intervenção neurorradiológica mecânica (trombectomia= remoção ou fragmentação do trombo oclusivo arterial) face à terapêutica farmacológica, sempre em casos selecionados e com tempos de intervenção padronizados (até ás 6 horas após início dos sintomas). Esses resultados, reconhecidos pela comunidade médica global, constituem uma verdadeira revolução no modus operandi e na esperança do pós-AVC na fase aguda.

A Neurorradiologia atua ainda, com vantagem, noutros tipos de casos clínicos. Quer destacar alguns mais?

Saliento a terapêutica de anomalias e malformações vasculares cerebrais, crânio-faciais e medulares, para as quais a possibilidade de intervenção minimamente invasiva da neurorradiologia permite semelhantes ou mesmo melhores resultados, com menos risco; sempre em doentes selecionados e discutidos em equipas multidisciplinares.  A questão específica e, mormente conhecida, dos aneurismas cerebrais (grandes responsáveis pelos vulgarmente designados “derrames” cerebrais), é paradigma da evolução da terapêutica intravascular que a Neurorradiologia, como especialidade autónoma e de ponta, consegue oferecer, com inegável vantagem para o doente e para a sua recuperação mais rápida e segura, sempre que indicado. Em Medicina convém, contudo, frisar, cada caso clínico é um caso diferente, com múltiplas variáveis a considerar.

Porque não alargar esta especialidade a outros hospitais? É um objetivo da Sociedade Portuguesa de Neurorradiologia sensibilizar o Ministério da Saúde nesse sentido?

A questão da formação médica especializada é uma questão muito delicada, designadamente no que se refere à implementação de centros de intervenção vascular neurorradiológica. Falar em centro desta natureza e é falar de centros de competência com técnicas complexas de tratamento, que requerem um investimento formativo tão grande que, numa primeira fase e, atendendo à geografia do país, deverão estar rotinadas e concentras em grandes centros, com as vias de referenciação a funcionarem em pleno. É essa, neste momento, a nossa luta, com as ARS´s, os colegas das direções clínicas hospitalares, da Neurologia, e, mais especificamente, da Via Verde do AVC. Quanto às restantes patologias a intervir do ponto de vista neurorradiológico, os aneurismas são os que mais nos colocam problemas na fase aguda, estando contudo as referenciações já estabelecidas e assaz efetivas, fruto de um trabalho conjunto com a Neurocirurgia dos hospitais centrais, nossos parceiros ao longo de anos.

Os profissionais, nomeadamente os de emergência médica, estão devidamente sensibilizados para as vantagens da intervenção atempada da Neurorradiologia em casos de AVC? Sabem que devem encaminhar, quando se justifica, para os hospitais que dispõem dessa especialidade?

Sim, tem havido uma preocupação de atualização  sensibilização por todo o intensivismo e medicina de emergência/ urgência em geral, pelo que há um claro incremento no plano assistencial, também no que ao AVC diz respeito. Desde há cerca de uma década que a Sociedade Portuguesa de Neurorradiologia integra, nos seus congressos anuais e reuniões temáticas, elementos destes serviços médicos. Os dados recentes sobre o AVC serão, contudo, alvo de uma maior campanha de sensibilização dos colegas nesta área e encurtamento, previsível, dos tempos de início da intervenção neurorradiológica, nos casos selecionados.

Que fazer para sensibilizar ainda mais os profissionais e a população para as vantagens da Neurorradiologia?

Penso que os resultados dos estudos internacionais randomizados serão sempre a maior fonte de sensibilização da comunidade médica. Quanto aos utentes/ população em geral, a Neurorradiologia muitas vezes é confundida com outras especialidades, fruto da sua extraordinária e recente evolução nos campos do diagnóstico e terapêutica, ganhando, contudo e progressivamente o seu espaço de atuação e de maior reconhecimento pelos inúmeros casos de sucesso terapêutico. A SPNR tem realizado, a propósito, uma série de ações formativas e de divulgação, integradas na campanha “STOP AVC”, trazendo nomes sonantes e casos-tipo de intervenção com sucesso como exemplo, porque acreditamos ser a melhor forma de evidenciar, na primeira pessoa, as vantagens  das técnicas de tratamento.

No que esse refere ao diagnóstico, a nossa maior fatia da atuação neurorradiológica, a população há décadas que conhece e contacta com os nossos especialistas, designadamente quando realiza uma TAC ou Ressonância Magnética a nível cerebral, crânio ou coluna vertebral, para além dos estudos de angiografia cerebral e medular.  

Que conselhos práticos pode dar aos profissionais que atuam em casos de AVC?

Aconselharia, designadamente, não destrinçando a especialidade a que eventualmente possa pertencer, a estar familiarizado com o modus operandi das Vias Verdes nacionais para o AVC, no que a trâmites legais e burocráticos diz respeito, assim como, evidentemente, e de acordo com a área de atuação/especialidade, contribuir o mais eficazmente para a celeridade de todo o processo, pois como sabemos, no caso específico do AVC, “time is brain”.  “Atuar em casos de AVC”, vai desde o meritório trabalho de despiste sintomatológico efetuado no Centro de Saúde ou Médico de Família, até aos hospitais terciários/centrais onde há equipas altamente disciplinadas e familiarizadas com a ativação do tratamento do AVC agudo. É uma cadeia muito díspar e que tem que ser permanentemente articulada e revista, ganhando tempos de atuação.

Que se pretende com este congresso nacional, na Universidade de Aveiro, de 23 a 25 de outubro?

Com o XI Congresso Nacional de Neurorradiologia- 25 anos de SPNR, pretende-se transmitir a mensagem da necessidade de decentralizar a sensibilização para a atuação na Via Verde do AVC, em locais que como Aveiro, não sendo dotados de hospitais centrais com Neurorradiologia de Intervenção, são pontos importantes de passagem ou de referenciação de doentes para os referidos hospitais centrais. Numa Universidade de vanguarda científica como a UA, trazer a temática da “Intervenção Diagnóstica e Terapêutica na Fase Aguda do AVC”  (tema primordial do Congresso), afigurou-se-nos como uma mais-valia na interação Ciência Médica e Investigação, num campus que muito tem contribuído para desenvolvimento na área da Eletrónica, Física da Imagem e Biomecânica, para já não referir na Biomedicina Molecular e nas áreas de intervenção do IBiMed – Instituto de Biomedicina da UA.

Dado que em paralelo ao Congresso de Neurorradiologia decorre a campanha “STOP AVC – SPNR 25 anos”, há um programa de atividades abertas à participação da população. Quer destacar algumas dessa atividades?

Destaco a Exposição “Neur´Arte, o Cérebro e a Arte”, patente no Museu de Aveiro e aberta à população em geral. É uma mostra de obras de arte realizadas para o efeito e que pretendem chamar a atenção para a temática. Destaco ainda o lançamento do Livro “Egas Moniz, pioneiro da Neurorradiologia”, em parceria com a Câmara Municipal de Estarreja e Casa-Museu Egas Moniz, as publicações em revistas e jornais, assim como um programa televisivo a ir para o ar em vésperas do Dia do AVC (30 de outubro). Refiro também o Trail Aveiro Sweet Fire, em seguimento da Caminhada dos Canais (julho último), uma parceria com associações culturais e cívicas de Aveiro.

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