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Opinião
Opinião de Carlos Fernandes, professor catedrático de Psicologia da UA, em Dia Mundial da Saúde Mental
"Quando a ideologia oculta é de natureza puramente economicista, a saúde mental deixa de ter qualquer interesse"
Carlos Fernandes
Não obstante todas as iniciativas nacionais e internacionais, públicas e privadas, associadas a mudanças legislativas para proteger o cidadão com perturbações do foro psicológico e promover a saúde mental, esta continua a ser um parente pobre da “saúde”. As políticas de saúde pública são influenciadas por mudanças de paradigmas que em muitos casos não passam de ideologias sociopolíticas mascaradas com discursos aparentemente científicos, ultrapassando muitas vezes os limites do razoável. Outras vezes perde-se o bom senso a favor do senso comum.

Quando a ideologia oculta é de natureza puramente economicista, sem preocupações de natureza social, a saúde mental deixa de ter qualquer interesse, dado que as intervenções psicológicas apoiadas pela evidência científica e pelas práticas empiricamente validadas são desvalorizadas porque não são produtos visíveis no mercado (apesar dos excelentes indicadores de custo-efetividade). Por exemplo, se uma intervenção psicológica ou psicoterapêutica necessita de sessões de uma hora e revela um excelente indicador de custo-efetividade, podendo até potenciar os efeitos dos psicofármacos, a redução das sessões para vinte minutos por razões económicas (e de gestão) só pode conduzir à eliminação deste serviço de qualidade porque lhe retira ab initio a sua eficácia. Porém, não permitirá avaliar o balanço custo-benefício a médio e a longo prazo, o que constitui um exercício de gestão rudimentar.

Mas os cidadãos em geral também contribuem para desvalorizar a doença mental. Efetivamente, num caldo cultural em que abunda o materialismo, a vida a correr que impede momentos de reflexão, programas de televisão maioritariamente de entretenimento e amiúde de “baixa qualidade intelectual”, jornais que apenas vendem aquilo que apetece ao nível mais primitivo do humano em termos filogenéticos (o complexo R), a saber, dramas sanguinários (de faca e alguidar), a extorsão, a fraude, o sequestro, dando uma aparência de normalidade, os cidadãos dificilmente conseguem dar o salto que se espera de um Homo Sapiens Sapiens. Deixam de refletir e lutar pela dignidade humana, pela qualidade de vida, pelo bem-estar tanto físico como mental, demonstrar interesse pelas descobertas científicas em todas as áreas e pela Filosofia.

Note-se o progressivo ostracismo a que estão sujeitas as áreas do pensamento crítico (Filosofia do Conhecimento, a Ética laica, a Antropologia, a Psicologia Científica, a Sociologia) por parte dos governos e entidades financiadoras de investigação, com reforço de investigação nas áreas dos produtos tecnológicos e serviços indissociáveis dos produtos tecnológicos.

O humano é hoje concebido como pouco mais do que um agregado de moléculas a dançarem rap ou zumba, ou um folclore de imagens multicolores que são inferências matemáticas a partir de sinais elétricos ou magnéticos captados. Conseguem ver a felicidade numa molécula (ex.: dopamina) ou numa mancha avermelhada em fundo azulado com contornos de Talairach.

Assim, não é de admirar que o cidadão comum compreenda facilmente que uma perna engessada seja efetivamente um problema de saúde e que uma perturbação borderline o possa ser … é uma parvoíce que se resolveria facilmente com “uns bons tabefes”.

Só se lembram dos psiquiatras e dos psicólogos quando a desgraça lhes cai em cima, nas Urgências hospitalares, nas ruas, nos estabelecimentos públicos, nos crimes horrendos, e em muitas outras situações que resultam de falta de saúde mental.

Neste dia 10 de Outubro deveria debater-se a saúde mental em termos científicos e com bom senso. Não sobrecarreguem as famílias dos doentes mentais sem recursos sociais efetivos. Com saúde mental haverá maior produtividade e desenvolvimento económico e social.

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