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Opinião
Texto de Rita Torres e Carlos Fonseca marca Dia Nacional da Conservação da Natureza
Conservação do Lobo-ibérico em Portugal: uma questão de tempo
A conservação do Lobo-ibérico a sul do Douro passa pela reintrodução do corso - foto de Joaquim Pedro Ferreira
A conservação do Lobo-ibérico e a reintrodução do corço nas serras da Freita, Arada e Montemuro é o tema do texto de opinião a assinalar o Dia Nacional da Conservação da Natureza, 28 de julho. Assinado por Rita Torres e Carlos Fonseca, respetivamente, investigadora e coordenador da Unidade de Vida Selvagem do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, o texto salienta a importância da reintrodução do corço como meio para reduzir os conflitos entre lobo e homem e explica as várias fases do projeto na Serra da Freita, Arada e Montemuro.

Durante as ultimas décadas tem-se registado um declínio dramático da biodiversidade mundial. Como resposta à pergunta “o que se pode fazer para salvar a biodiversidade?” existem várias alternativas, entre as quais, o estabelecimento de programas de reintrodução de espécies animais. Assim, a reintrodução de animais é uma importante ferramenta que, direta ou indiretamente, exerce um decisivo papel na conservação de espécies cujas populações se encontram em risco. Mais recentemente, o papel das reintroduções tem-se revelado fulcral na restauração das funções dos ecossistemas.

Atualmente, o Lobo-ibérico (Canis lupus signatus), um predador de topo, é considerado em Portugal uma espécie “em perigo de extinção” estando totalmente protegido por Lei desde 1988, tendo sofrido uma diminuição significativa da sua área de distribuição e efetivo populacional, nas décadas passadas. Entre as principais causas deste declínio, encontram-se a destruição do seu habitat (incluindo o declínio das suas presas selvagens) e a perseguição direta pelo Homem.

A perseguição humana é um dos principais problemas de conservação deste vulnerável predador na Península Ibérica, devido ao elevado nível de predação do lobo sobre os efetivos pecuários. Estudos realizados em Espanha e Portugal mostram uma elevada dependência de ungulados domésticos na dieta deste predador. Contudo, a predação ao gado parece diminuir em áreas com maior densidade e diversidade de presas selvagens, com o lobo selecionando, em geral, a presa selvagem mais disponível. Vários estudos têm demonstrado a importância do fomento das presas selvagens do lobo, como o corço (Capreolus capreolus), com vista a uma maior oferta de alimento a este predador, de forma a reduzir o seu impacto sobre a pecuária, minimizando assim, os conflitos com o Homem. Encontrar métodos eficazes para diminuir os danos causados sobre a pecuária parece ser vital para melhorar a tolerância das populações humanas locais ao Lobo-ibérico e consequentemente, a sua conservação. Assim, torna-se crucial o aumento das populações de corço, com vista a uma maior oferta de alimento.

O “Projeto de reintrodução do corço nas Serra da Freita, Arada e Montemuro” iniciado no fim de 2011 pela Unidade de Vida Selvagem do DBIO-UA e sob coordenação da Associação para a Conservação do Habitat do Lobo-Ibérico (ACHLI), tem como base a premissa de que a reintrodução de corço nalgumas áreas de lobo, fomentará a disponibilidade de presas selvagens e a sua subsequente predação, diminuindo assim a predação sobre presas domésticas. O principal objetivo deste processo é o estabelecimento de uma população selvagem auto-sustentada (i.e. viável e reprodutora), de corços nestas áreas.

Na primeira fase do projeto - fase pré-reintrodução ou de viabilidade – foi analisada a viabilidade do projeto, tendo sido definidos os núcleos de reintrodução com base em modelos de adequabilidade de habitat, a origem dos animais a reintroduzir com base num estudo de caraterização genética da população de corço em Portugal, o número de animais e o rácio sexual. Adicionalmente, como qualquer outro projeto de reintrodução, este projeto tem também uma forte dimensão social e uma parte deste projeto focou-se também na sensibilização ambiental e social, onde foram feitas ações de sensibilização pública, com vários agentes pretendendo-se assim sensibilizar as populações locais para a problemática da reintrodução do corço e para a conservação do lobo ibérico. Após a conclusão da 1ª fase, foi iniciado o processo de libertação dos corços (2ª fase da reintrodução), até ao momento, em dois núcleos de reintrodução.

Neste momento, o projeto encontra-se na 3ª fase – monitorização. A monitorização dos animais reintroduzidos deve ser parte integrante de qualquer processo de reintrodução, pois é através desta que o sucesso do projeto é avaliado. Em ambas as ações de reintrodução, os animais reintroduzidos possuíam colares GPS (Global Positionion System), através dos quais a posição do animal é registada.

Esta é uma oportunidade única para obter informação científica básica sobre a seleção de habitat do corço e sobre a sua dinâmica populacional, que é completamente desconhecida em Portugal.

 

Rita Torres e Carlos Fonseca,

respetivamente, investigadora e professor da Universidade de Aveiro.

Foto de Joaquim Pedro Ferreira

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