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Academia diz presente em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor
Uma UA do tamanho da Língua Portuguesa
Faça o seguinte exercício: tire os olhos da Linhas e à primeira pessoa que vir pergunte-lhe se tem alguma ligação a África. Já o fez? Como resposta teve certamente a memória de quem lá viveu e retornou com o 25 de abril, de um militar das guerras coloniais ou de alguém que tem no continente negro um amigo a trabalhar. Faça o mesmo com o Brasil e Timor. Quem tem um familiar que emigrou para o Rio de Janeiro ou torce pela seleção canarinha quando Portugal não joga? Quem ficou arrepiado com o massacre de Santa Cruz e se emocionou na enorme onda de solidariedade com o povo maubere? Toda a gente. É nesta umbilical relação com quem faz da língua portuguesa uma pátria comum que a Universidade de Aveiro (UA) dá e recebe no âmbito da Cooperação para o Desenvolvimento.

Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor e mesmo Goa (Índia) são países onde a academia de Aveiro se tem desmultiplicado em projetos ligados ao ensino, à investigação, à divulgação da ciência, à educação para o desenvolvimento e, de uma forma geral, à assistência técnica a programas. “A Cooperação da UA está apontada em mais de 90 por cento para as antigas colónias”, sublinha Carlos Sangreman, responsável na academia de Aveiro pela dinamização dos projetos de Cooperação para o Desenvolvimento. A aposta geográfica, que tem no sangue irmão um fator decisivo, é, de resto, a mesma da Cooperação oficial portuguesa com quem a UA trabalha lado a lado.

Mas de que se fala quando o assunto é Cooperação para o Desenvolvimento? “Não há uma definição estandardizada. Existe uma que é a da cooperação oficial portuguesa e que nós, na UA, adaptámos e utilizamos”, diz o responsável. Considerando que, no atual mundo global, uma universidade de excelência tem que ter como missão a luta, dentro e fora de portas, por um desenvolvimento humano que potencie a expansão da personalidade dos indivíduo e da identidade coletiva de todos os países como atores sociais, a definição de Cooperação para o Desenvolvimento adotada pela UA, é simples e abrangente. “Apontamos para uma atividade de transferência de recursos em prol de um desenvolvimento maior, seja no país que recebe esses recursos seja, a médio longo prazo, na entidade que fornece os recursos, neste caso, a UA”, explica Carlos Sangreman sem deixar de lembrar que o próprio Reitor da academia de Aveiro é o responsável pelo pelouro da cooperação no Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas.

Por esse mun do fora

O Pensas é o mais emblemático projeto de cooperação que a UA tem fora de portas. Pensado pela mão impulsionadora de António Batel Anjo, o Pensas trabalha há quase uma década para melhorar a qualidade do ensino em Moçambique.

O docente do Departamento de Matemática da UA dirige hoje aquele que é o maior projeto português de formação e ensino além-fronteiras de professores e alunos nas áreas da Matemática e da Língua Portuguesa. Como exemplo desse imenso trabalho da UA em terras de Moçambique, registem-se os dez centros que o Pensas edificou em cada uma das províncias do país, à exceção de Maputo, e que, equipados com computadores ligados à rede global, proporcionam várias formações ao longo do ano aos professores locais. Com o apoio de manuais com o selo do Pensas e de uma plataforma de ensino assistido que serve de base ao projeto, essas formações procuram reciclar e aprofundar os conhecimentos dos professores moçambicanos.

Do outro lado do mundo, em Timor-Leste, o empurrão da UA ao jovem país lusófono passou, já este ano, pela conclusão da reestruturação do respetivo plano curricular do Ensino Secundário Geral, pela construção dos programas das diversas disciplinas e, ainda, pela elaboração dos manuais escolares para alunos e guias didáticos para professores. Um trabalho hercúleo de uma vasta equipa coordenada por Isabel Martins, docente do Departamento de Educação da academia de Aveiro, que não optou pelo caminho mais fácil. “Todos os manuais são documentos originais, não são traduções nem adaptações de Manuais e Guias de outros países, e estão contextualizados na sociedade e cultura de Timor-Leste”, aponta a responsável.

O Pensas e a restruturação do ensino secundário em Timor são ‘apenas’ alguns dos projetos mais icónicos do vasto trabalho – incomensurável nestas páginas - que a UA tem realizado em prol de um mundo mais humano, igual e participativo. No que diz respeito à formação de professores e alunos e cooperação académica e científica, também Angola, Brasil, Cabo-Verde e Guiné-Bissau, entre outras ações, têm recebido da UA apoio, seja de recursos humanos, seja de saberes, seja de meios técnicos.

Projetos que extravasam fronteiras

Mas nem só de apoio ao ensino e à investigação se faz a Cooperação para o Desenvolvimento da UA. Exemplo disso é a adaptação que a academia de Aveiro está a fazer de um software criado pela ONU a pensar na gestão da atividade parlamentar. Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, países que não possuem ainda qualquer ferramenta informática para o efeito, estão a ser apetrechados pelo Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática (DETI) da UA.

Ainda na área informática, Joaquim Sousa Pinto, investigador do DETI e responsável por estas missões, lembra a conceção do Programa de Gestão Informatizada das Secretarias e do Processo Penal do Ministério da Justiça de Cabo Verde. O programa entrará brevemente em funcionamento e, explica o investigador, “pretende informatizar os processos penais de forma a torná-los mais céleres, baratos, transparentes e seguros, contribuindo deste modo para a maior confiança dos cidadãos na Justiça”.

No que toca a programas de cooperação transversais a vários países refira-se também o “Memória de África e do Oriente”. O projeto existe desde 1996 e tem online mais de 2500 obras digitalizadas referentes à história dos países de língua portuguesa e 350 mil referências bibliográficas de instituições em Portugal, Guiné, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Goa.

Dar e receber , receber e dar

Se até à crise económica europeia, que se instalou em 2008, o movimento de recursos para ações de Cooperação para o Desenvolvimento teve, grosso modo, um só sentido, ou seja, dos países mais desenvolvidos para os menos favorecidos, hoje o cenário tem tendência para ser mais equilibrado. “Os chamados países emergentes foram adquirindo capacidade para financiarem eles próprios o seu desenvolvimento”, explica

Carlos Sangreman. Assim, exemplifica, “a UA tem atualmente projetos de cooperação em Timor, São Tomé e Príncipe, Moçambique e Cabo Verde que já são financiados, em parte ou na totalidade, pelos governos locais”. Até porque, refere o responsável, “a nossa academia não é uma instituição altruísta ou de caridade mas também não é uma empresa ou uma instituição que tenha como objetivo maximizar o lucro”.

A UA, desde que oficializou em 2004 a política de Cooperação para o Desenvolvimento, “decidiu que estas atividades não podem ter lucro negativo”. Ou seja, “podemos não ganhar nada com um determinado projeto mas não podemos é ter prejuízo”, salienta Carlos Sangreman. Por isso, “a avaliação financeira é feita globalmente e não projeto a projeto”. Para financiar os programas, para além de orçamento próprio e, em alguns casos, do apoio dos governos locais, a UA procura ou aceita programas e projetos com financiamento do Estado português, de entidades internacionais (como é o caso da União Europeia ou do Banco Mundial) e de entidades privadas, sejam fundações, empresas ou autarquias. Atualmente, a academia de Aveiro tem como entidades financiadoras dos seus inúmeros projetos em curso o Ministério dos Negócios Estrangeiros, através do Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, a Fundação Calouste Gulbenkian, os governos de Moçambique, Cabo Verde, Timor e São Tomé e Príncipe e a Fundação Portugal África.

Aposta nas boas práticas governati vas

Na UA há uma grande certeza: “são os projetos na área da governação que dão sustentabilidade à cooperação”. Professor no Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da UA, Carlos Sangreman garante que “se as governações forem estáveis, há estabilidade em tudo o resto”. Por isso, é cada vez mais uma obrigação envolver nos projetos de cooperação as instituições estatais, parlamentos e ministros locais e operar em conjunto no apoio ao que possa resultar na melhoria da governação e da política. Tudo o resto, com a mesma velocidade com que se faz, assim é desfeito “se não houver uma cultura política e institucional adquirida profundamente”.

A informatização da gestão das Secretarias e do Processo Penal de Cabo Verde, que a UA está a realizar em sintonia com o Ministério da Justiça local, a reestruturação do ensino secundário em Timor-Leste e o Pensas, que envolvem profundamente os ministérios da Educação locais, e a adaptação do programa de gestão informático para os Parlamentos de Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, debatidos com cada uma dessas instituições, “são os projetos que valem realmente a pena pois darão frutos a médio e longo prazo de forma mais sustentada”.

“Essa é a metodologia chave”, aponta Carlos Sangreman. Por aí é o futuro, sublinha a UA.

SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE

A UA está a adaptar um software de gestão para os parlamentos de Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe (STP) e Timor-Leste. O programa está a ser preparado por uma equipa de investigadores do Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática (DETI) da academia de Aveiro e São Tomé e Príncipe deverá ser o primeiro país a tê-lo a funcionar. “Está a ser um trabalho complexo e que exige uma atividade de parceria entre a Universidade e os Parlamentos de Portugal e de São Tomé”, aponta Joaquim Sousa Pinto, investigador do DETI e coordenador do projeto. “É um programa estruturante para o país e uma afirmação da UA como uma universidade de elevada capacidade tecnológica e com forte empenho na cooperação para o desenvolvimento e na transferência de tecnologia”, sublinha o responsável.

Na área da educação, em parceria com a UNICEF de STP e com o Ministério da Educação e Cultura das ilhas, a UA, através da investigadora Gabriela Portugal, do Departamento de Educação, concebeu um programa curricular para educadores de infância locais. Estes receberam da UA, em 2012, um conjunto de orientações educativas de forma a melhor promoverem a aprendizagem e o bem-estar das crianças de STP.

CABO VERDE

É um dos grandes projetos que a UA tem fora de portas. Em Cabo Verde a academia tem a cargo a conceção do Programa de Gestão Informatizada das Secretarias e do Processo Penal. Promovido pelo Ministério da Justiça local e desenvolvido em parceria com a Universidade de Cabo Verde, o programa vai informatizar os processos penais aumentando com isso a celeridade, a transparência, a segurança e a confiança dos cidadãos no sistema jurídico.

O projeto, coordenado por Joaquim Sousa Pinto, investigador do Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática da UA, deverá entrar em funcionamento durante o atual mês de setembro. O investigador tem ainda a cargo a adaptação de um software de gestão da atividade parlamentar para o Parlamento daquele país.

Na terra da morna, a UA já ajudou a edificar a primeira Casa da Ciência. Inaugurada em 2012, esta tem por objetivo promover a cultura científica e tecnológica e a ligação entre as universidades e a sociedade. O projeto resultou de uma parceria entre a UA, a Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro e o Ministério do Ensino Superior, Ciência e Inovação. A academia de Aveiro prepara-se também para instalar em Cabo Verde um Laboratório de Tecnologias de Comunicação e de Informática e estruturar a Universidade local nas áreas da Engenharia Informática e da Música.

GUINÉ-BISSAU

A formação de educadoras de infância e de técnicos do Ministério da Educação da Guiné-Bissau, em 2004, marcou o início da cooperação da UA com aquele país. Hoje, a presença da academia na Guiné-Bissau expressa-se na Casa dos Direitos, um espaço que pretende contribuir para a paz e o desenvolvimento do país através da consolidação da consciência cívica dos cidadãos. Neste projeto a academia é parceira da Associação para a Cooperação Entre os Povos, da Liga Guineense para os Direitos Humanos, do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua e da Fundação Calouste Gulbenkian.

A academia de Aveiro está também a dar apoio ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP), apoiando a gestão da presença na Internet daquele instituto e divulgando a respetiva produção científica sobre a Guiné-Bissau.

MOÇAMBIQUE

É o ex-libris dos projetos de Cooperação para o Desenvolvimento da UA. Chama-se Pensas e, no resumo possível, tem como principal motor a formação de alunos e de professores do 1º ciclo nas áreas da Matemática e da Língua Portuguesa. A estes docentes moçambicanos, o Pensas destina programas que, desde o início do projeto, em 2007, procuram reciclar e aprofundar os conhecimentos nas áreas referidas. As atividades do projeto realizam-se nos dez espaços que o Pensas criou por todo o território moçambicano e que estão equipados com computadores ligados à Internet.

Ainda na área da formação, o Pensas dinamiza anualmente a atividade “Formação em Ação” que envolve professores portugueses e moçambicanos numa troca de experiências, métodos de aprendizagem e lecionação em contexto de sala de aula. O Pensas nasceu de uma parceria entre Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento e o Ministério da Educação de Moçambique e está hoje cada vez mais inserido no próprio sistema oficial de ensino moçambicano.

Naquele país, a academia de Aveiro tem ainda implementado o Programa de Cooperação na Área do Ensino à Distância através do qual se pretende promover a conceção e a avaliação de programas de formação, em modalidade de ensino à distância, na Universidade Eduardo Mondlane. No contexto desse projeto, a UA tem fomentado a qualificação de recursos humanos e técnicos do Centro de Ensino à Distância e lançou o Programa Doutoral em Multimédia em Educação para grupo de docentes da Universidade Eduardo Mondlane. Ao lado da UA, neste projeto, está a Fundação Calouste Gulbenkian.

TIMOR-LESTE

A reestruturação do plano curricular para o Ensino Secundário Geral em Timor-Leste (10º, 11.º e 12.º anos) e a conceção de programas, manuais do aluno e guias do professor para as disciplinas de cada um dos três anos iniciaram-se, pela mão da UA, em 2010. Os projetos da academia, abraçados a convite da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), terminaram em junho deste ano com a entrega em Timor-Leste dos manuais e guias. Financiados pelo Fundo da Língua Portuguesa/IPAD (atual Camões - Instituto da Cooperação e da Língua) e pela FCG, os trabalhos envolveram 75 especialistas e inúmeros professores timorenses.

Ainda ligado ao Ensino, a UA participa em terreno timorense no Projeto de Formação Inicial e Contínua de Professores tendo selecionado e formado uma equipa de docentes portugueses do ensino secundário. Sob supervisão cientifico-pedagógica da UA, os professores lusos foram reforçar a formação dos colegas timorenses, em particular os que compõem a Bolsa Nacional de Formadores do Instituto Nacional de Formação de Docentes e Profissionais da Educação.

Para além destes projetos, a UA tem ainda em curso a inventariação da flora de Timor-Leste, a implementação de um herbário nacional e um estudo sobre a genética populacional timorense.

BRASIL

Nascido em 2007 pelas mãos da UA, do Instituto Energias do Brasil e do Instituto Ecológico, o Centro de Conhecimento em Biodiversidade Tropical é um local de pesquisa com capacidade para alojar grupos de estudantes e investigadores. A academia de Aveiro é responsável pelo conteúdo científico e pedagógico dos projetos e atividades que lá se desenvolvem e pela promoção do intercâmbio de estudantes universitários e investigadores, visando a troca de experiências nas áreas de biodiversidade, inovação tecnológica, mudanças climáticas e sustentabilidade.

Do outro lado do Atlântico a UA tem celebrado parcerias com várias universidades e institutos brasileiros com o objetivo de estabelecer programas de colaboração técnico-científica centrados no desenvolvimento de projetos de ensino e investigação e no intercâmbio de professores e estudantes. O Instituto Natureza do Tocantins, a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, o Instituto Homem Pantaneiro, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazónia, a Universidade Federal de Campina Grande e a Universidade Federal do Rio Grande sãos algumas das instituições a quem a academia de Aveiro tem juntado esforços.

ANGOLA

A cooperação da UA com Angola tem estado nas últimas décadas muito centrada na cooperação académica. Esta tem sido pautada por ações pontuais, nomeadamente as que dizem respeito à mobilidade de docentes e técnicos, envolvendo essencialmente a Universidade Agostinho Neto. Mais recentemente, em 2011,“estabeleceram-se protocolos de cooperação com diversas instituições de ensino superior”, lembra Carlos Pascoal Neto, Vice-reitor da UA. As atividades desenvolvidas ou em curso, desde então, “envolvem programas de apoio à capacitação e qualificação do corpo docente e técnico bem como programas de apoio à formação graduada e pós-graduada”.

Destacam-se, nestes contextos, a formação no Departamento de Química da UA de técnicos na área da Química do Instituto Superior Politécnico de Tecnologias e Ciências e o programa de apoio à formação prática de várias dezenas de alunos do Instituto Politécnico de Benguela das áreas de Engenharias, Administração Local e Enfermagem, formações essas oferecidas pela ESTGAUA e pela ESSUA, bem como o programa de apoio na orientação de mestrandos do Instituto Superior de Ciências da Educação – ISCED/Huíla por parte do Departamento de Educação da UA.

(Reportagem publicada na revista Linhas nº 19 - http://issuu.com/revistalinhas)

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