conteúdos
links
tags
Opinião
Nuno Negrões, biólogo da Unidade de Vida Selvagem da UA, e António Batel, professor da UA
Roer as unhas faz muito bem... salva os Rinocerontes!
O biólogo Nuno Negrões
Como é que roer as unhas pode salvar uma espécie... Quer saber como? No Dia Internacional da Vida Selvagem, que hoje se assinala, leia o artigo de opinião de Nuno Negrões, biólogo e investigador da Unidade de Vida Selvagem da Universidade de Aveiro, escrito conjuntamente com António Batel, professor da academia de Aveiro. O artigo, publicado recentemente no “Sol do Índico”, marca a estreia da colaboração do biólogo com aquele jornal moçambicano.

"Não roas as unhas!”, quem é que não ouviu esta advertência? Todos em algum momento das nossas vidas. Para evitar este vício desenvolveram-se vernizes, que dão mau sabor para evitar esta relaxante atividade. Mas a verdade é algo que vai passando de geração em geração e não parece querer desaparecer da “ecologia alimentar”. Mas porquê roer as unhas? Um dos motivos mais apontado é o stress,mas na verdade é mais um hábito sem grande consequência para a evolução da Humanidade, mas que pode salvar uma espécie da extinção.

Muito recentemente surgiu um facto que talvez ajude a contextualização desta atividade e que de alguma forma pode levar à compreensão da mesma. Mas para isso temos que falar de uma outra espécie… o rinoceronte.

Em África existem duas espécies de rinoceronte: o rinoceronte branco e o rinoceronte negro sendo que no Mundo existem mais três e que apenas se encontram na Ásia. Não vamos agora explicar as diferenças mas que fique claro que nada tem que ver com a cor.

As populações de rinocerontes vivem em permanente ameaça de extinção, ameaça esta que se estende a todas as espécies que têm de conviver com o ser humano na Terra. Mas é nos últimos anos que o fantasma da extinção tem assombrado mais este imponente mamífero.

Desde 2008 que se vem assistindo a uma desenfreada perseguição a esta espécie com um único objetivo – retirar-lhe o seu corno. O interesse vem da parte da medicina tradicional chinesa que o usa para tratar algumas doenças: febres, reumatismo, gota, dores de cabeça e até febre tifóide. Ao contrário do que as pessoas pensam a questão o efeito afrodisíaco não está na bula do corno de rinoceronte.

Mais recentemente este pseudo-medicamento foi alvo de uma enorme procura em países Asiáticos, como o Vietname e que acrescentaram à lista de tratamentos as ressacas e as doenças terminais. É caso para dizer que a dor de cabeça de uns, é a morte de outros. Sendo que a humanidade não se livra das dores de cabeça e os rinocerontes vão desaparecer da face da Terra. Este último facto causa de facto muitas dores de cabeça!

Mas é aqui que entra a questão das unhas. O material com que está feito o corno de rinoceronte é em grande parte de uma proteína chamada queratina, mais alguns sais de cálcio que lhe dá a dureza e melanina que protege dos raios UV. Ora nós, seres humanos, também temos queratina... e muita! Adivinhem onde? A queratina é o material de que é feito o nosso cabelo e unhas.

A ser verdade roer as unhas fazia desaparecer qualquer dor de cabeça e sabe-se lá que mais! Mas infelizmente está comprovado cientificamente que o uso do corno de rinoceronte para curar o quer que seja é apenas uma ilusão! A queratina, do corno de rinoceronte e das nossas unhas, não tem nenhum efeito na saúde humana. Mas é como tudo na vida, quando uma pessoa acredita muito… o chamado efeito placebo.

Por isso, quando se vê alguém a roer as unhas ou os cascos de um cavalo, que também são feitos de queratina é apenas puro prazer!

Mas esta ideia que se criou sobre o uso do corno de rinoceronte para aliviar as dores de cabeça após uma longa noite de farra, tem como consequência a morte de mais de 3500 rinocerontes só na África do Sul, desde 2008. E mais assustador ainda é que esta perseguição tem aumentado ano após ano.

Talvez a dor de cabeça maior seja a perda de uma espécie majestosa por causa de um mito. Mas já existem soluções baratas para tratar as dores e cabeça e os excessos de uma noite de farra. Mas se acreditar mesmo que a queratina é a solução, então roa as unhas! E todos vamos dizer “roer as unhas faz muito bem"!

Nuno Negrões e António Batel

imprimir
tags
outras notícias