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Opinião
António Samagaio, professor do DAO, escreve as o culto do Sol e os calendários antigos
O Natal e o Culto do Deus Sol
O culto do Sol e os calendários antigos
Sabia que quando usa a expressão “Boas entradas!” para desejar um bom ano novo está, de algum modo, a invocar o deus Janus? Este e outros factos históricos são contados por António Samagaio, professor do Departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro UA, num texto de opinião a propósito do Natal e da Passagem de Ano.

O chamado ‘Dia de Natal’, 25 de Dezembro do actual calendário gregoriano, encontra a respectiva origem no solstício do sol e nos cultos solares que, ao longo da História, um pouco por todo o mundo, foram sendo criados.

No tempo da República Romana, os anos eram numerados a partir do ano de fundação de Roma (anno urbis conditae ou A.U.C.), ou seja, a partir de 753 a.C. (antes de Cristo), data sugerida por Marcus Terentius Varro e adoptada pelos historiadores modernos. O ‘Dia de Ano Novo’ ocorria a 15 de Março e designava-se ‘Idos de Março’. Dado que o calendário romano era um calendário lunar, em vez de ser um calendário solar, os meses rodavam ao longo do ano. Assim, os Idos de Março, por exemplo, podiam ocorrer, num determinado ano, na Primavera e, passados alguns anos, numa estação diferente do ano. Os povos da Grécia e do Norte da Europa utilizavam um calendário solar, cujo Dia de Ano Novo coincidia com o solstício de Inverno. Quando os Romanos conquistaram a Grécia, aperceberam-se das vantagens em utilizar um calendário solar e, no ano de 153 a.C., o Dia de Ano Novo foi mudado para o dia 1 de Janeiro, mês dedicado ao deus Janus, divindade de dupla face, que olha simultaneamente para o passado e para o futuro, deus de inícios e transições, materializadas por cancelas, portas e entradas, entre outras. Em Portugal, usa-se com frequência, no final de cada ano, a expressão “Boas entradas!” para desejar um bom ano novo, sem que, quem o vaticina, se aperceba que está, de algum modo, a invocar o deus Janus… Finalmente, no ano 46 a.C. (ou 708 A.U.C.), Júlio César impôs a Roma a adopção de um calendário solar, dividido em 365 dias e um quarto, agrupados em doze meses, cada um dos quais compreendendo 30 ou 31 dias, com excepção de Fevereiro, que tinha 28 ou 29 dias, de quatro em quatro anos.

A mais importante celebração anual da Roma Antiga era a chamada ‘Saturnália’, dedicada ao deus Saturno e que ocorria durante o solstício de Inverno, entre os dias 17 e 23 de Dezembro. Quando o calendário juliano foi estabelecido, o solstício de Inverno ocorreu no dia 25 de Dezembro. Infelizmente, este calendário sofria de um erro de cerca de onze minutos, uma vez que um ano solar é igual a 365,2425 dias. No séc. III d.C., o Imperador Aurélio criou um feriado oficial que designou Sol Invictus ou ‘Sol Invencível’, em honra do deus sírio ‘Sol’ e dele próprio, uma vez que os imperadores se consideravam divindades que incarnavam o deus Apolo. Em 274 d.C., Aurélio declarou o Sol Invictus ‘Senhor do Império Romano’, na sequência da vitória alcançada sobre rebeldes do Médio Oriente que ameaçavam a unidade do império, tendo edificado um templo em honra do novo deus e que foi consagrado em 25 de Dezembro, uma vez que o erro dos onze minutos era ainda desconhecido. Este dia passou a celebrar o Dia do Nascimento do Sol Invencível (Dies Natalis Solis Invicti).

Aquando da realização do Concílio de Niceia, em 325 d.C., sob influência do Imperador Constantino, a Igreja Católica adoptou o dia 25 de Março (equinócio vernal) para a data da ressurreição (Páscoa) de Jesus. Esta data coincidia, de acordo com a crença dos primeiros Cristãos, com a data da Anunciação a Maria. Em 350 d.C., o Papa Júlio I decidiu que o dia 25 de Dezembro (solstício de Inverno, nove meses após o equinócio da Primavera) passasse a ser considerado o dia oficial do nascimento (Natal) de Jesus, em linha com os restantes cultos solares.

No séc. VI, o monge Dionysius Exiguus concebeu o actual sistema da era Anno Domini, na sequência de um pedido do Papa João I para determinar com precisão a data da Páscoa, passando os anos a ser contados a partir do ano que se supunha corresponder ao nascimento de Jesus. Em 1582, o erro anual de onze minutos associado ao calendário juliano conduziu a um desfasamento de cerca de dez dias em relação ao ciclo solar. O Papa Gregório XIII decidiu corrigir o erro, eliminando dez dias do calendário desse ano, tendo o solstício de Inverno passado a ocorrer no dia 22 de Dezembro, tal como aquando do Concílio de Niceia. O Natal, no entanto, continuou a ser celebrado a 25 de Dezembro.

António Samagaio

Professor do Departamento de Ambiente e Ordenamento

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