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Entrevistas
António Chagas Rosa, diretor artístico dos Festivais de Outono
Festivais de Outono ou a “vontade de mostrar que as crises também nos tornam mais fortes tal como a árvore podada”
O compositor António Chagas Rosa, diretor artístico dos Festivais de Outono
Feche-se os olhos e deixe-se a viagem ao livre arbítrio da linguagem mais universal de todas: a Música. O Concerto para piano nº 2 e a Sinfonia nº 4 de Johannes Brahms assinalam o arranque da 10º edição dos Festivais de Outono da Universidade de Aveiro (UA). Dia 7 de novembro, às 21h30, no Teatro Aveirense, interpretadas pela Orquestra Filarmonia das Beiras acompanhada do pianista João Bettencourt da Câmara, as obras do compositor austríaco são ‘apenas’ as notas de partida de um festival que terminará a 29 de novembro com o trabalho dos não menos imortais Joly Braga Santos e Richard Strauss. António Chagas Rosa, diretor artístico dos Festivais de Outono, compositor e professor no Departamento de Comunicação e Arte (DeCA) deixa o convite: apareça, deixe-se desafiar e saia dos Festivais mais forte.

Entre os palcos da Reitoria, do Teatro Aveirense e do Museu de Aveiro, e dez anos depois dos primeiros Festivais de Outono, a batuta da UA renova a aposta dos sons primordiais de um evento que já marca indelevelmente a agenda cultural no país. Entre as motivações de um programa preparado desde há um ano, António Chagas Rosa quer “dar palco a estruturas da UA e de grande proximidade à universidade, tais como a Orquestra Filarmonia das Beiras e as Orquestras de Sopros e de Cordas do DeCA e apresentar agrupamentos de música de câmara de elevado nível artístico de jovens músicos portugueses, como o Incertus Trio, o ARTrio e o Ensemble Actus Tragicus”.

Promover agrupamentos inovadores em termos de reportório como o Trio Porteño, apresentar solistas portugueses de prestígio internacional, tais como António Rosado, Marco Pereira e José Pereira e contribuir para a vida cultural aveirense com uma programação abrangente que contempla música de câmara, recitais a solo, música sinfónica e ópera foram também alguns dos ingredientes que Chagas Rosa teve em conta na hora de compor os Festivais de Outono 2014.

Alguma vez imaginou como, quando e porquê terão nascido os sons primordiais da viagem musical empreendida pela humanidade?

Sons primordiais… Terá sido a voz de mãe? Ou terão sido ecos de atos repetitivos como malhar cereais ou lascar pontas de sílex? Os antropólogos também não sabem...

Nesse sentido, o que é que a música tem para tocar de forma tão unicamente exclusiva nesta nossa espécie humana?

A música, como fenómeno artificial que é, toca por sugerir e imitar o natural. Mas é uma natureza por transferência, que apela ao córtex dos humanos por lhes colocar desafios.

E os Festivais de Outono? O que é que eles têm?

Os Festivais de Outono têm muitos talentos e vontade de mostrar que as crises, que nos vão erodindo, também nos tornam mais fortes tal como a árvore podada.

Sobem ao palco em outono mas, a cada edição, nascem bem antes. Quando começou a tocar esta edição na sua cabeça?

Tudo começa um ano antes.

E de que forma se lhe foi harmonizando o Festival até chegar ao programa de 2014?

Em modo pragmático: são propostas válidas que vão chegando, harmonizadas com ideias de programação que vinham de trás. Havendo um orçamento mais folgado, o festival teria uma filosofia de programação mais temática. Mas isto não é um lamento.

Deixe-me provocá-lo, como também a música o provoca constantemente. É mesmo um Festival para todos os públicos ou apenas para o que normalmente se apelida, porventura preconceituosamente, de erudito?

Penso que o Festival não é apenas para o público erudito, no sentido em que o público-alvo não tem que ser "da música". Agora há que assumir que o Festival é predominantemente erudito, que vai ao encontro do gosto de pessoas que gostam de um largo espetro de música clássica, e que não tem necessariamente que incluir bandas de rock. Há plataformas para tudo. Nunca percebi a razão do preconceito relativamente ao erudito. Nem todos temos que ser do Benfica...

Que aconselha a escutarem nestes Festivais de Outono os ouvidos menos 'eruditos' para se maravilharem e constatarem que, de fato, a música é mesmo uma linguagem agregadora da humanidade?

Temos tido sempre belíssimos concertos, dos quais destaco os de encerramento, onde se vê uma grande orquestra, resultado da fusão da Filarmonia das Beiras com as Orquestras de Sopro e de Cordas do DeCA. Sempre com solistas de topo. São os nossos "proms", um vislumbre daquilo que Portugal poderia ser se houvesse uma vontade política mais continuada em refinar o petróleo que temos no quintal. Todos os músicos participantes são de excelência e eu sinto pudor em destacar uns em detrimento de outros.

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