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Opinião
Teresa Fidélis, coordenadora do Grupo uariadeaveiro, escreve sobre as oito tertúlias
Ciclo “Quintas da Ria”: a importância da colaboração entre as entidades e utilizadores da Ria
Teresa Fidélis é vice-presidente da Associação Portuguesa dos Recursos Hídricos
As oito sessões do ciclo de tertúlias "Quintas da Ria" e a pluralidade de perspetivas expressas por habitantes, utilizadores, políticos e responsáveis de várias entidades em relação à Ria que é um recurso precioso, pelo qual todos são responsáveis, motiva um texto de opinião. Teresa Fidélis, coordenadora do Grupo uariadeaveiro e professora do Departamento de Ambiente e Ordenamento da UA, apresenta a "big picture" dos debates que evidenciaram a importância da colaboração para garantir o futuro da Ria.

O ciclo de debates “Quintas da Ria” promovido pelo Grupo uariadeaveiro com a colaboração da Fábrica Ciência Viva de Aveiro teve a sua última sessão a 5 de Junho, Dia Mundial do Ambiente. O debate, centrado no tema “Novos Futuros para a Ria”, contou com a participação de José Ribau Esteves, José Luís Cacho, Carlos Borrego e Júlio Pedrosa. A sessão foi moderada por Filipe Teles, Pró-reitor da UA.

Depois da apresentação de uma síntese dos principais temas abordados durante o ciclo, o mote da discussão foi lançado através de quatro questões: qual o papel da administração local e regional na governação da Ria e que desafios deverão enfrentar e que estratégias prosseguir? Qual deve ser o papel dos grandes utilizadores e como se devem posicionar perante o futuro e a governação deste território? Qual deverá ser o papel dos pequenos utilizadores na governação da Ria e como pode a UA veicular e estimular as boas práticas na sua utilização? Qual pode ser o papel das instituições de ensino superior, em especial da UA, na construção de políticas públicas locais e regionais, e em particular no caso da governação da Ria de Aveiro?

A importância da colaboração entre as entidades e utilizadores dominou o discurso dos oradores convidados. Ribau Esteves destacou a importância de uma liderança forte no processo de gestão das utilizações e intervenções sobre a Ria e no papel que a Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro deve assumir. Falta um organismo dedicado e autónomo, contudo, este orador defendeu que importa aproveitar o melhor possível o enquadramento legislativo existente, nomeadamente os instrumentos previstos na Lei da Água, e trabalhar em parceria com as atuais instituições mais relevantes no âmbito da Ria. Destacou ainda que a ambiência de trabalho partilhado entre municípios e entidades da administração central em torno do Polis Litoral da Ria de Aveiro constitui um exemplo relevante na construção do necessário processo de colaboração intersectorial e multinível. Luis Cacho, por seu turno, destacou o papel do Porto de Aveiro na valorização económica da região e a importância de construção de um modelo económico para a Ria e para região como veiculo para alcançar a desejável autonomia e sustentabilidade.

Carlos Borrego enfatizou a importância do diálogo entre utilizadores e entidades privilegiando a prevenção de conflitos e a identificação das melhores práticas e soluções técnicas. Apelou também para uma especial atenção para os potenciais efeitos das alterações climáticas na Ria e apara a necessidade de desenvolvermos, com urgência, estratégias de adaptação adequadas. Júlio Pedrosa referiu a importância da região envolvente à Ria e às actividades económicas que gravitam em torno dela. Entre as diversas recomendações que deixou para o debate destacaram-se a importância da criação de uma “mesa colaborativa” onde os diversos utilizadores e entidades aprendam a trabalhar em conjunto e a construir um Futuro para a Ria, criando esperança e riqueza para todos.

Ria: de todos e para todos que a todos responsabiliza

O debate final concluiu um ciclo de oito sessões, sempre com sala cheia, com a colaboração de oito moderadores e 22 oradores, reunindo investigadores, historiadores, representantes de municípios, de entidades da administração central, de empresas, utilizadores e cidadãos. Cada sessão contou com uma média de 75 participantes. Abordaram-se temas complementares, designadamente, a evolução geomorfológica e o modo como as pessoas se foram apropriando do espaço envolvente em constante mutação, a dinâmica dos níveis de maré e a diversidade das comunidades microbianas da água, a importância da biodiversidade, a multiplicidade de atividades económicas e a sua interdependência da Ria, as atribuições de diversas entidades relevantes para a gestão da Ria, os principais riscos existentes na Ria, por exemplo de erosão costeira, inundação e poluição, e, finalmente, os dilemas de proteção existentes em outras zonas estuarinas semelhantes nas suas singularidades e desafios de gestão. Muitos outros temas ficaram certamente por explorar como, por exemplo, as boas práticas de utilização da Ria, os serviços dos ecossistemas e das infraestruturas ambientais, as potencialidades económicas e novos usos, a adaptação as alterações climáticas, o capital social e respetivas redes ou os requisitos de uma governação responsável e partilhada, entre muitos outros.

O Quintas da Ria criou uma oportunidade para a UA partilhar conhecimento científico com a região e, através dele, conversar sobre a Ria num ambiente informal e plural. Procurou contribuir para enriquecer o que, individual e coletivamente, podemos fazer para valorizar, usufruir e contribuir para a gestão da Ria de Aveiro que é de todos e para todos e por isso a todos responsabiliza. Tratou-se de um passo num percurso que acreditamos poder prosseguir e evoluir para mobilizar e valorizar a participação cívica em torno na Ria.

As atividades do Grupo uariadeaveiro, dinamizado pela Reitoria da Universidade de Aveiro, irão prosseguir. O futuro deste ciclo de debates, contudo, não cabe apenas ao Grupo, passou a ser também da região, esperando-se dela contributos e sugestões para futuras edições do “Quintas da Ria”.

 

Teresa Fidélis

Professora do Departamento de Ambiente e Ordenamento da UA

Coordenadora do Grupo uariadeaveiro

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