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Opinião
Miguel Estanqueiro Rocha, docente do DCSPT, sobre os desafios da Europa
Eleições para o Parlamento Europeu: a encruzilhada?
Miguel Estanqueiro Rocha
Os enormes desafios colocados à integração europeia, particularmente os decorrentes dos resultados das eleições para o Parlamento Europeu em vários países membros, motivam um texto de opinião de Miguel Estanqueiro Rocha, professor do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território. Estes crescentes desafios recomendam, na perspetiva do investigador, "prudência na escolha do futuro presidente da Comissão Europeia e reflexão profunda.

Ainda sob o efeito do choque das eleições para o Parlamento Europeu muitas vozes se interrogam sobre qual o rumo da construção europeia, cinquenta e sete anos após o início deste ambicioso projecto, inovador na história mundial, com a criação da CEE, em 1957. A subida da extrema-direita, dos partidos eurocépticos, da extrema-esquerda, representa um sintoma de um mal-estar cada vez mais crescente na sociedade europeia, um enfraquecimento dos partidos tradicionais pró-europeus, fenómenos sobre os quais os líderes europeus devem meditar. Todos estes argumentos têm sido realçados no pós-eleições, “faltando” agora aguardar pela resposta dos representantes europeus, dos quais a escolha do futuro presidente da Comissão Europeia será a primeira decisão, talvez um primeiro sinal sobre o que esperar da Europa nos próximos anos.

Vivemos um período crucial da história da construção europeia, provavelmente uma mudança da natureza da mesma. Edificada sobre os valores da democracia, responsável por um período inédito de paz no continente europeu, com uma contribuição para a integração e modernização de países e sociedades diferenciadas – casos da Irlanda e dos países do Sul de Europa e do Leste –, esta mesma Europa, é, atualmente, mais “sensível” ao critério dos mercados financeiros do que aos cidadãos. Assiste-se, por outro lado, a uma tentativa por parte dos Estados de recuperação de um modelo intergovernamental, com o enfraquecimento relativo da Comissão, como já foi salientado por diversos especialistas, mas, paradoxalmente, a aprovação da união bancária representa um aprofundamento da integração, embora sob a quase exclusiva liderança de um só Estado-membro, no caso a Alemanha. É urgente uma reforma da estrutura institucional do euro, para enfrentar o dilema de uma Europa a duas velocidades, com o Norte a beneficiar disso, e uma Europa do Sul confrontada com uma austeridade “sem fim” e com um fraco crescimento económico como perspetiva; enfim, uma União Europeia “prisioneira” da globalização, a sofrer os efeitos de uma desindustrialização abrupta e acelerada, a lidar com uma opinião pública crescentemente céptica.

Todos estes desafios recomendam prudência na escolha do futuro presidente da Comissão Europeia, uma opção que se espera possa recair numa personalidade capaz de trazer um novo élan à Europa, num quadro político muito complexo saído das últimas eleições. A dúvida existe: serão as lideranças europeias capazes de uma escolha forte capaz de impulsionar o interesse comum e um futuro solidário, em detrimento dos egoísmos nacionais e de visões “curta” - no fundo, de permanecer fiel ao legado deixado pelos pais fundadores.

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