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Opinião
Alfredo Rocha, professor do Departamento de Física, clarifica termos no Dia Mundial da Meteorologia
O Tempo, eventos extremos, Clima e Alterações Climáticas
Alfredo Rocha
A propósito do Dia Mundial da Meteorologia, assinalado a 23 de março, Alfredo Rocha, professor do Departamento de Física da Universidade de Aveiro e investigador nesta área, clarifica conceitos frequentemente confundidos pela opinião pública, como por exemplo, Clima e Tempo, e explica a relação entre eventos extremos e alterações climáticas.

Nos tempos que correm, sempre que acontece um evento extremo, como por exemplo um tornado ou um episódio de acentuada erosão costeira fala-se em alterações climáticas. Diz-se esse fenómeno foi provocado pelas alterações climáticas. Convém esclarecer alguns aspetos.

O Tempo (meteorológico) representa o estado da atmosfera num local e num instante de tempo (não é por acaso que a designação de tempo do relógio e tempo meteorológico é a mesma, na nossa língua). O Clima representa a estatística do Tempo registado durante um intervalo de tempo, tipicamente 30 anos (definido pela Organização Meteorológica Mundial).

Quando questionado sobre a diferença entre Tempo e Clima, um aluno disse que ‘Tempo indica que roupa eu devo vestir e Clima que roupa que eu devo comprar’.

O Clima é também frequentemente referido como a média do Tempo. No entanto, a estatística do Tempo (e de qualquer outra variável) não é somente caracterizada pela sua média. Há outras propriedades tão ou mais importantes do que a média do Tempo para caracterizar o Clima. Variabilidade (desvio padrão) e valores extremos, mesmo que muito pouco frequentes são também uma propriedade do Clima. Portanto, um evento extremo, mesmo que tipicamente e, por definição, pouco frequente, não constitui uma situação ‘anormal’.

Voltamos aqui ao início: não podemos associar um qualquer evento extremo a alterações climáticas. Só podemos falar em alteração climática se a frequência (mesmo que pequena), a duração ou a intensidade desse tipo de eventos extremos variar quando comparando dois intervalos de tempo, por exemplo 1950-1980 e 1980-2010.

Se os eventos extremos estão a variar (frequência, duração e intensidade) em Portugal é uma questão que só pode ser respondida estudando os registos meteorológicos. Se os eventos extremos irão variar no futuro só poderemos saber se analisarmos os dados meteorológicos simulados por modelos do clima. São alterações destes ‘detalhes’ do Clima, mais do que da média, que merecem ser estudados. Para determinados setores, como por exemplo a agricultura, será eventualmente mais importante avaliar se, num clima futuro, a chuva irá ocorrer mais concentrada em eventos de alguns dias do que de forma mais uniforme ao longo do ano. É este tipo de investigação que trará mais-valia aos vários setores da sociedade permitindo tomar medidas corretas de adaptação às alterações climáticas.

Alfredo Rocha,

professor do Departamento de Física da Universidade de Aveiro

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