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Entrevistas
Alírio Boaventura, investigador do Instituto de Telecomunicações da Universidade de Aveiro
“Ir atrás do que está por saber e fazer foi sempre uma constante”
O jovem investigador Alírio Boaventura
Por onde começar quando se fala de Alírio Boaventura, o primeiro investigador em Portugal, e dos poucos no mundo, a ser distinguido com o Graduate Fellowship, um prémio atribuído pela secção das micro-ondas do IEEE, a maior e mais emblemática organização mundial em engenharia eletrotécnica?

Resumir o percurso do investigador do Intituto de Telecomunicações (IT) da Universidade de Aveiro (UA), com 29 anos de vida, é um exercício exigente. Atraído desde cedo pela eletrónica e pelas telecomunicações, ainda no liceu – foi um dos melhores alunos de sempre no ensino secundário em Cabo Verde – desenvolveu um transmissor de televisão caseiro com o qual fazia emissão televisiva para a vizinhança. Este foi um dos muitos passos que percorreu para dar resposta à pergunta que o persegue desde sempre: como transmitir energia sem recurso a fios?

Nasceu em Santo Antão, Cabo Verde, corria o ano de 1985. Quando terminou o secundário com média de 19 valores recebeu uma bolsa de mérito para estudar na universidade. Escolheu a de Aveiro onde, em 2009, concluiu o mestrado em Engenharia Eletrónica e Telecomunicações no Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática (DETI). Hoje é investigador no IT e está a concluir a tese de doutoramento na UA.

Talvez as distinções que já recebeu sirvam para dar uma ideia que vocação e dedicação são palavras que encerram nelas próprias o enorme e inovador caminho que Alírio Boaventura tem percorrido na eletrónica e telecomunicações. Para além do Graduate Fellowship do Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE) alcançado em 2013, e atribuído a apenas dez investigadores em todo o mundo, foi nomeado para o best student paper no International Microwave Symposium de 2011, foi distinguido na conferência internacional RFID-Technology and Applications como “Jovem investigador com potencial para investigação em Identificação por Radiofrequência” e foi o vencedor do Prémio ANACOM-URSI pelo trabalho apresentado na área da rádio-eletricidade abordando formas eficientes de transmitir energia sem fios.

E o futuro do investigador ainda agora começou. O trabalho que ultimamente tem realizado no desenvolvimento de um comando de televisão que funciona sem recurso a pilhas deixa a certeza: na ciência ou na indústria, ainda muito se vai ouvir falar de Alírio Boaventura.

Como surgiu o seu interesse pela eletrónica e telecomunicações?

O meu interesse pela eletrónica e comunicações sem fios já vem de longe. Desde de muito cedo tive uma enorme curiosidade em relação à eletricidade e eletrónica, tanto é que acabava sempre por espreitar o interior dos equipamentos para tentar perceber do que eram feitos e como funcionavam. Ao fim de pouco tempo as peças dos brinquedos eletrónicos que recebia serviam-me para fazer experiências e montar outras engenhocas. Fruto desta minha curiosidade, o recetor FM lá de casa deixou de funcionar, mas tempos depois consegui recuperá-lo para alegria do meu pai. Durante o meu percurso tive o privilégio de conhecer o Eng. João de Deus que me abriu as portas para um conhecimento mais estruturado em eletrotecnia. Mas o que realmente me fascinava era a forma, na altura, “mágica” como se conseguia telecomunicar sem usar fios. Ainda nos meus anos de liceu, juntando alguns conhecimentos básicos e alguns componentes, consegui a partir de casa transmitir sinal de vídeo para a vizinhança, o que aumentou ainda mais o meu interesse por esta área fascinante das comunicações sem fios.

Quando era criança já sabia que queria ser investigador nessa área ou sonhava com outra profissão?

Em criança sempre dizia que queria ser cientista. Não sabia ao certo o que isto implicava, mas agradava-me a ideia de fazer ciência, explorar, desvendar, estudar coisas novas. Com o passar dos anos comecei a pensar numa profissão mais na área das engenharias, eletrónica e telecomunicações. Mas agora, olhando para trás, vejo que o ir atrás do que está por saber e fazer foi sempre uma constante. 

E nessa altura, durante a infância, alguma vez pensou que teria de sair de Cabo Verde para concretizar as suas ambições? E essa ideia assustava-o ou aliciava-o ainda mais?

Sair de Cabo Verde para estudar fora, mais do que uma possibilidade, era também encarado como um objetivo, uma vez que na altura o curso a que me propunha fazer não era lecionado na sua totalidade em Cabo Verde. A ideia teve o seu tempo para se enraizar e, naturalmente, fui-me habituando a ela, sempre com a consciência de que me esperava uma realidade diferente, o que eu via como um desafio.

Como foi a adaptação a Portugal?

O processo de adaptação a um país com cultura, vivência e clima diferentes nunca é propriamente fácil. A diferença climática faz-se sentir muito, sente-se falta da gastronomia… No caso de quem vem de Cabo Verde para continuar os estudos superiores em Portugal, acrescem ainda as dificuldades de adaptação a um novo sistema de ensino. É claro que, no nosso caso, temos a grande vantagem da língua oficial ser a mesma, o que facilita em muito todo o processo de adaptação. A ajuda dos colegas que já cá estão é também fundamental em todo este processo. Não obstante, os obstáculos acabam por ser superados com uma taxa de sucesso considerável, ou não tivéssemos uma história de emigração e grande capacidade de superação e trabalho.  

O que mais sentiu falta nos primeiros tempos de vida em Portugal?

No meu caso particular, e acredito que para a maioria dos colegas que vêm, a maior dificuldade nos primeiros tempos é sem dúvida a distância que nos separa da família e dos amigos, com tudo o que isto implica.

E hoje, as saudades ainda apertam?

A saudade está sempre presente, apertando mais naquelas datas que normalmente são celebradas em família e também em situações menos boas da vida em que a família faz falta para repor o equilíbrio. Ainda assim, nessas alturas, ajuda muito poder contar com os amigos e com a comunidade de estudantes cabo-verdianos residente e não só.  

O Alírio foi o primeiro estudante em Portugal a receber o prémio Graduate Fellowship, atribuído pelo Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE). Todos os sacrifícios que deve ter feito e todo o trabalho que teve ao longo dos seus estudos valeram a pena tendo em conta o patamar que hoje atingiu?

É extremamente gratificante ver o nosso trabalho reconhecido a este nível. É verdade que chegar aqui implica alguns sacrifícios, mas quando se faz algo de que se gosta fica tudo mais fácil. Já alguém disse, “escolhe uma profissão de que realmente gostes e não terás de trabalhar um dia que seja na tua vida”. Há também que reconhecer que tive a sorte de vir parar a uma boa universidade que me proporcionou uma formação sólida, posteriormente fazer investigação num instituto de referência nas telecomunicações, o Instituto de Telecomunicações, e o privilégio de trabalhar com o Professor Nuno Borges Carvalho, que não é apenas um excelente profissional da área como também dá aos seus colaboradores todo o “espaço” necessário para crescerem.         

Vê-se como um exemplo de sucesso para as crianças e para os estudantes cabo-verdianos e não só?

Gosto de me ver mais como um exemplo de empenho e de trabalho, trabalho esse que tem vindo a dar bons frutos, e se o sucesso surgir como uma consequência natural melhor ainda.

O trabalho de tem desenvolvido na área da transmissão de energia sem fios, mais concretamente com o projeto do telecomando sem pilhas tem dado muito que falar. Até onde gostaria que o projeto chegasse?

Do ponto de vista académico e de investigação, o trabalho que temos vindo a desenvolver em transmissão de energia sem fios já conseguiu atingir um patamar muito bom, a par do que se tem feito na Europa e não só. No caso do telecomando sem pilhas, que resulta de uma aplicação mais prática destes conceitos, tendo passado a fase da prova de conceito e registo de propriedade intelectual, passamos à fase dos contactos com a indústria, de onde têm surgido feedbacks bastante positivos. Até ao momento, o feedback mais interessante que tivemos foi o de uma multinacional da área dos vídeo jogos, que no final de uma apresentação nossa numa conferência veio ter connosco e demonstrou interesse nesta tecnologia para eliminar as pilhas dos comandos das suas consolas de jogos. A concretizar-se qualquer tipo de colaboração neste sentido, quer a nível de investigação, quer a nível de indústria, seria extremamente positivo. 

Que planos académicos e profissionais tem?

Com a tese de doutoramento na sua reta final, as minhas energias estão agora a ser direcionadas para a vertente empresarial e de empreendedorismo. A minha próxima meta a curto-médio prazo é fazer valer as competências adquiridas durante a formação universitária e a especialização doutoral, combinados com alguma experiência que ficou de uma breve passagem pela indústria, para colocar cá fora produtos vendáveis, de elevado valor tecnológico e altamente competitivos. Sou de opinião que faz falta trazer para a indústria a mão de obra altamente qualificada, adquirida em cursos universitários e doutorais, e com isso criar valor acrescentado e competitividade. Numa lógica inversa daquela que é habitual - plano de negócios, captação de investimento, conceção de produto - neste momento estamos num regime de pré-incubação de empresa em que estamos primeiro a desenvolver o protótipo de um produto que virá a ser o core business da empresa, produto esse que visa tanto o mercado nacional como o externo.   

E a médio longo prazo?  

Num horizonte de médio-longo prazo está Cabo Verde. Ensinar e partilhar o conhecimento que tenho recebido na minha terra natal é sempre uma possibilidade em cima da mesa. Se a minha “aventura” pelo mundo do empreendedorismo se vier a revelar mais do que isso, no futuro, conciliar a vertente empresarial com a académica é uma possibilidade. 

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