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Opinião
Texto de opinião de Ana Isabel Miranda e Carlos Borrego
A Semana da Mobilidade, a Crise e os Desafios Ambientais
Semana da Mobilidade e Engenharia do Ambiente
A Semana Europeia da Mobilidade 2013, que se assinala por estes dias, é abordada num texto de opinião de Carlos Borrego e Ana Isabel Miranda. Mas os Professores do Departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro, falam ainda da 10ª Conferência Nacional do Ambiente, que decorrerá no próximo mês de novembro, e do futuro da Engenharia do Ambiente em Portugal, um futuro que consideram "simultaneamente, sólido, desafiador e exaltante".

Num período em que os desafios ambientais parecem estar cada vez mais longe das preocupações do governo e dos cidadãos, continuam a organizar-se iniciativas desafiadoras, como a conhecida Semana da Mobilidade, entre 16 e 22 de Setembro, com o objetivo de facilitar um debate alargado sobre a necessidade de mudanças de comportamentos em relação à mobilidade, especificamente no que se refere à utilização do automóvel particular. A Semana Europeia da Mobilidade 2013, em consonância com o Ano Europeu do Ar, focaliza-se na qualidade do ar dando um ênfase, muito particular, ao papel dos cidadãos, com o lema “Ar limpo - Está nas tuas mãos!”. Todos nós temos um papel a desempenhar e as mudanças, mesmo que pareçam pequenas, como o uso de bicicleta nas deslocações ao invés do carro, ou a opção por meios de transporte públicos ou por caminhar, podem melhorar a nossa qualidade de vida. Uma boa qualidade do ar está associada a uma vida mais longa em cerca de oito meses, com menos problemas de saúde.

A 10ª Conferência Nacional do Ambiente, que decorrerá no próximo mês de Novembro, organizada pelo Departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro, no seu 35º aniversário, e com o tema ”Repensar o Ambiente: luxo ou inevitabilidade?”, é outra iniciativa interpelante e motivadora, face ao papel da crise no nosso dia-a-dia.

O arrefecimento da economia a que assistimos desde 2008 pode ser uma oportunidade, que não devemos perder, para melhorar a qualidade do ambiente. É verdade que, à custa da penalização coletiva, a crise está, na prática, a prestar um bom serviço ao ambiente. Em 2012, com a economia a bater no fundo, as emissões de gases com efeito de estufa, os que provocam as alterações climáticas, estão a baixar devido ao menor consumo de combustível nos automóveis, nas centrais térmicas e nas indústrias e já caíram cerca de 9%. A poluição atmosférica está também a abrandar. Há menos lixo, diminuiu 13%. Poupa-se em matérias-primas. As famílias estão a prestar mais atenção aos contadores de água e de eletricidade. Em tempos de “vacas gordas”, jamais se chegaria a tal resultado.

É um choque brutal, mas pelo menos o planeta agradece. Agradeceria muito mais, no entanto, se o momento fosse aproveitado para relançar algo diferente, uma sociedade baseada num ideal distinto de desenvolvimento, o dito progresso sustentável, e não o mero crescimento contabilístico. Ou seja, o progresso fundado em três pilares equitativamente importantes: a economia, o ambiente e o bem-estar social.

Esta capacidade de relançar a economia, não à custa de mais recursos e mais desperdício, mas suportando de modo sustentável as soluções, necessita de técnicos qualificados, experientes e inovadores, preparados para contribuírem para o repensar/refazer o ambiente face aos desafios do século XXI. De facto, o futuro da Engenharia do Ambiente em Portugal é, simultaneamente, sólido, desafiador e exaltante. Sólido, porque, nos últimos 35 anos, se avançou espetacularmente na área da formação dos técnicos e na investigação no domínio do Ambiente. Desafiador, porque se está na encruzilhada da consolidação estrutural resultante da aplicação do Processo de Bolonha ao Ensino Superior na Europa, criando um enorme espaço de empregabilidade, que obrigou a reorganizar o sistema formativo em torno de novos valores: as competências e não só os conteúdos, as aprendizagens e não simplesmente o ensino, a participação e o envolvimento de todos os intervenientes. Exaltante, porque o ensino da Engenharia do Ambiente é cada vez mais necessário para resolver e prevenir as disfunções criadas pelo “progresso” e para reforçar a coresponsabilização das outras especialidades de engenharia a enformarem os conhecimentos ambientais, criando novas oportunidades de emprego.

A Engenharia do Ambiente integra esta visão, que assenta no estudo integrado das questões de ambiente e desenvolvimento, nas suas dimensões ecológica, social, económica e tecnológica, numa perspetiva de sustentabilidade. Responde ao desafio do século XXI em que o ambiente não é um luxo, mas sim o motor inevitável do desenvolvimento socioeconómico.

 

Carlos Borrego e Ana Isabel Miranda

Professores Catedráticos do Departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro

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