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Investigação
Teste aperfeiçoada pelos departamentos de Biologia e de Química deteta método de pesca altamente destrutivo para os recifes
Sea Life junta-se à UA para erradicar do planeta a pesca com cianeto
O investigador Ricardo Calado
É uma técnica de pesca ilegal altamente devastadora para os recifes de coral e a Universidade de Aveiro (UA) está a ajudar a erradicá-la do planeta. O cianeto lançado por pescadores sobre os recifes do sudoeste do Pacífico atordoa ou mata os peixes tropicais facilitando a sua captura para abastecer os mercados ornamentais e alimentares. Ao mesmo tempo, a destruição dos corais representa um enorme dano colateral provocado pelo químico letal. Para erradicar esta prática a Sea Life acaba de lançar uma campanha que tem num teste desenvolvido na academia de Aveiro a pedra basilar. Trata-se de uma técnica aperfeiçoada por uma equipa de biólogos e químicos da UA que torna possível, pela primeira vez, descobrir se um peixe foi exposto ao cianeto sem ser necessário sacrificá-lo e dissecá-lo.

A organização britânica, que com os seus 40 centros marinhos espalhados pelo mundo tem a maior rede mundial de aquários públicos, um dos quais na cidade do Porto, está desde o início do mês de julho a utilizar o teste aperfeiçoado em Aveiro para assegurar que todas as espécies que recebe para exposição foram capturadas sem recurso ao cianeto.

“A utilização daquele químico letal é considerado, a par da utilização de dinamite, uma das práticas de pesca mais destrutivas para os recifes de coral”, explica Ricardo Calado, investigador do Departamento de Biologia (DBIO) da UA. O coordenador da equipa de Aveiro cujo estudo cativou a Sea Life aponta que a pesca com recurso ao cianeto, que todos os anos captura milhões de peixes tropicais nos recifes do Pacífico em países como a Cinha, a Indonésia, a Malásia ou as Filipinas, “é bastante tóxica e mortal para os corais” e já destruiu em várias zonas do sudoeste asiático “80 a 90 por cento da vida” dos recifes.

O segredo está na água

O novo teste aperfeiçoado pela UA, ao contrário dos já existentes que obrigavam à dissecação dos peixes na procura por vestígios de cianeto no sangue e nos músculos, envolve a transferência dos animais recém-entregues para água salgada artificial. É nessa água que os investigadores procuram quantidades vestigiais de tiocianato, um composto que deriva da metabolização do cianeto pelo peixe e que é expulso do organismo pela urina.

“Utilizámos como modelo os peixes palhaços e verificámos que a excreção de tiocianato pela urina acontece vários dias depois de terem sido pescados”, explica Ricardo Calado. “Através da análise da água consegue-se assim saber se, vários dias antes, um peixe foi ou não exposto ao cianeto nas Filipinas ou na Indonésia”, aponta o responsável.

O Sea Life já está a utilizar o teste da UA. A empresa escolhe aleatoriamente amostras de água onde os peixes são depositados depois de entregues e envia-os para a academia de Aveiro. Consoante os resultados químicos encontrados nas análises supervisionadas por Valdemar Esteves, investigador do Departamento de Química da UA o Sea Life aceita ou não os peixes. A recusa, no caso da presença do químico, serve para que os respetivos fornecedores do Pacífico boicotem os pescadores que usam cianeto obrigando-os, para fazerem negócio, a usarem métodos de captura ecologicamente sustentáveis.

Para além do Sea Life, várias empresas de importação e exportação de peixes tropicais estão igualmente interessadas em trabalhar com o teste da UA. “Queremos que esta iniciativa de erradicação da pesca com cianeto, através da utilização do método de deteção do químico que desenvolvemos, seja difundida a instituições de investigação, a aquários públicos e à indústria em redor do planeta”, aponta Ricardo Calado.

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