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Opinião
Artigo de opinião da autoria de Rui Costa, docente na ESSUA
Acidente Vascular Cerebral e Hipertensão Arterial
Rui Costa, docente na ESSUA
Assinalou-se, a 7 de abril, o Dia Mundial da Saúde que, este ano, teve como tema a hipertensão arterial, um dos principais fatores de risco para as doenças cardiovasculares e para o acidente vascular cerebral (AVC). Como forma de sinalizar a efeméride, Rui Costa, professor na Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro, caracteriza a doença que é apontada como uma das principais causas de morbilidade e mortalidade em todo o mundo.

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é uma afeção cerebrovascular relacionada com a obstrução ou a hemorragia de uma artéria, envolvendo o hemisfério cerebral ou tronco cerebral, de que resulta um défice neurológico súbito e específico de acordo com as regiões do cérebro afetadas. A Organização Mundial de Saúde (OMS) define-o como o desenvolvimento rápido de sinais clínicos de distúrbios focais (ou globais) da função cerebral, com sintomas que perduram por um período superior a 24 horas ou conduzem à morte, sem outra causa aparente que a de origem vascular.

Com particular ênfase nas sociedades ocidentais, o interesse sobre o AVC constitui matéria que, gradual e crescentemente, tem preocupado governos, investigadores e prestadores de cuidados de saúde. Tal interesse justifica-se, não só porque constitui nestas sociedades um dos problemas de saúde mais comuns e dispendiosos, mas também por se tratar de uma das principais causas de morbilidade e mortalidade em todo o mundo, ocorrendo predominantemente em meados da idade e adultos mais velhos.

Dados internacionais disponíveis apontam que o AVC é a segunda causa de morte em todo o mundo. Apesar da elevada mortalidade e morbilidade, reconhece-se que as limitações geradas por este problema de saúde são igualmente uma das causas mais comuns de incapacidade. O AVC é a primeira causa de morbilidade e incapacidade prolongada na Europa, assim como noutros países industrializados.

Para além do desconforto e incapacidade que geram, os acidentes vasculares cerebrais têm constituído preocupação acrescida pelos custos individuais e sociais que representam. Tais custos dizem respeito quer aos cuidados de saúde consumidos para os enfrentar, quer aos custos indiretos resultantes das limitações, e restrições de atividade e participação inerentes, quase sempre presentes neste problema de saúde.

O acidente vascular cerebral pode ser entendido como um acontecimento de vida universal que envolve alterações irreversíveis das condições de vida. O doente, na ausência de uma perspetiva de cura definitiva, tem de enfrentar a necessidade de aprender a viver com esta nova condição. Um terço dos sobreviventes apresenta incapacidade entre moderada e severa e 10% com incapacidade em viver na comunidade, necessitando de cuidados permanentes de terceiros. Outros estudos consultados revelam que mais de metade destes utentes apresenta vários níveis de incapacidade e dependência na realização das suas atividades de vida diária, com impacto nos vários domínios da sua funcionalidade, vida pessoal, familiar, social, profissional e económica.

Como referido, o impacto do AVC não ocorre apenas na função física, mas também nas funções psicológicas e sociais, onde as preocupações e ruturas do doente se estendem aos restantes membros da família e comunidade. A doença impede ou dificulta o bem-estar psicológico e social e o desenvolvimento do doente e da sua família, acarretando uma elevação do stress ligado ao fator financeiro e do tempo da família, com acrescidos problemas de adaptação que interferem na gestão da doença.

Diversos são os fatores de risco associados ao AVC, sendo classificados de imutáveis e não imutáveis (não passíveis de serem modificados). No primeiro grupo encontramos a idade, o sexo/raça, hereditariedade, baixo peso à nascença e origem geográfica. Do lado dos mutáveis identificam-se a hipertensão arterial, a existência de diabetes, a dislipidémia, a fibrilhação auricular, os Acidentes Isquémicos Transitórios (AIT), os hábitos tabágicos e os hábitos alcoólicos.

A Hipertensão Arterial (HTA) é o principal e único fator de risco que não sofre qualquer contestação em todos os tipos de AVC. O risco de AVC aumenta dramaticamente com o aumento da pressão sanguínea. A HTA é fator de risco para AVC isquémico, hemorrágico e para a hemorragia subaracnoídea.

Dentro do AVC isquémico, os mais frequentes, a HTA pode ser implicada na fisiopatologia da doença cerebral de pequenos vasos, na aterosclerose que atinge os grandes vasos intra e extra cranianos. Reconhece-se que a elevação da tensão arterial (TA) sistólica, com ou sem aumento da TA diastólica, se associa ao risco de AVC isquémico de forma contínua, consistente e independente de outros fatores de risco.

A hipertensão (diastólica e/ou sistólica) é um maior fator de risco tratável. O benefício da diminuição da TA é determinado fortemente pelas características gerais do doente e pela conjugação de fatores de risco para a doença vascular, mais do que pelo nível absoluto da TA. Como a hipertensão é o maior fator de risco para o AVC, as características humanas e comportamentais que aumentam a tensão arterial também aumentam o risco de AVC.



Rui Costa

Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro

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