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Entrevistas
A história da estudante da Universidade de Aveiro que de uma doença faz um exemplo de coragem
Uma rara força chamada Adriana
O computador e a trackball que ligam a Adriana ao mundo
O nome é complicado de ser dito. Muito, muito mais difícil será senti-lo. Fibrodisplasia ossificante progressiva. Tinha 16 anos e os palavrões entraram-lhe na vida sem pedir licença. Primeiro devagar em jeito de quedas que deixavam a carne e os ossos doridos demasiado tempo. Depois, gradualmente, vieram as calcificações nos músculos, nos tendões e nos ligamentos. A jovem Adriana Pequeno perdeu a mobilidade lenta, progressiva e dolorosamente. A doença rara deixou-lhe os movimentos muito limitados.

Desistiu de atingir alguma meta na vida? De uma ou outra sim, que a doença não deixa espaço para alguns voos. Mas do que é essencial nunca abdicou. Deitada no quarto onde passa os dias licenciou-se no ano passado em Tradução pela Universidade de Aveiro (UA). Hoje está a meio do curso de especialização em Tradução Especializada Francês Espanhol, também do Departamento de Línguas e Culturas da academia de Aveiro.

Nas fotos antigas espalhadas pelo quarto há uma menina de sorriso bonito e traquinas. É o mesmo que, aos 33 anos, a Adriana mantém. Na estante em frente à cama o computador e a televisão ligam-na ao mundo. Lá fora, pela janela, ouve-se a imensa chuva que cai em Ílhavo. Cá dentro, no quarto da Adriana, o sol espreita em cada palavra que diz.

A Adriana deixou de estudar no fim do 1ºperiodo do 11º ano quando os primeiros sintomas da doença lhe começaram a toldar os movimentos. Calcificações no pescoço e algumas nas ancas que pioraram com uma queda e alastraram ao resto do corpo obrigaram-na a deixar para trás a escola. Queria ser terapeuta da fala para trabalhar com crianças. Ainda sonha hoje com esse objetivo.

Universidade: do sonho à realidade

Esteve dez anos sem estudar mas nunca deixou de alimentar a vontade de um dia voltar aos livros. A decisão foi sendo adiada. O peso da incerteza e da insegurança levou-a por vencida algumas vezes. Seria capaz? “Vou e vou mesmo”, disse ao medo há seis anos atrás. “Afinal estava sem fazer nada, sabia que me ia fazer bem à cabeça e que seria uma maneira de recuperar o tempo perdido em que estive sem contacto com o que eu mais gostava, as ciências”. Pelo messenger e pela web-camera acompanhou as aulas do ensino noturno. Em dois anos concluiu o secundário na área que tinha deixado para trás, a científico natural. “Os apoios da minha mãe e dos professores foram essenciais para conseguir este objetivo”, salienta.

Missão cumprida? Não, ainda não. Quis ir para a Universidade. À professora de apoio do Secundário disse que tinha de tirar um curso superior. Escreveram a várias universidades. Qual delas aceitaria as condições físicas da Adriana que a impediriam de comparecer fisicamente às aulas? A UA. A academia de Aveiro analisou o caso da Adriana e apresentou-lhe três cursos que poderia fazer sem sair de casa: Tradução, Contabilidade ou Secretariado. 

Escolheu a Licenciatura em Tradução. “Dentro das três opções que a UA me deu, Tradução era o curso que me permitiria, uma vez licenciada, trabalhar a partir de casa”, justifica. A opção estava feita. Com a luz verde do Ministério da Educação para realizar os exames nacionais em casa, em formato digital e na presença de três professores, à boa média que alcançou no Secundário juntou as boas notas nas provas decisivas. A Universidade, de um sonho, transformou-se numa realidade.

De desafio em desafio

“Estudar foi uma espécie de automedicação, foi a maneira mais eficaz de conseguir manter o meu lado psicológico saudável, ativo e desenvolvido”, diz Adriana. “Abracei o estudo como um desafio com um único objetivo: nunca desistir e esforçar-me ao máximo para ultrapassar todas as dificuldades”. Para o conseguir teve, e ainda tem, o apoio da mãe e, claro, “a ajuda e disponibilidade dos excelentes professores da UA, a única universidade que aceitou o desafio” de tê-la como aluna.

A plataforma online da UA, o correio eletrónico, o facebook e o skype mantiveram-na em permanente contacto com os professores, com os colegas e, naturalmente, com as matérias. Fez a licenciatura em cinco anos apesar da vontade férrea de a fazer em três. “No primeiro ano inscrevi-me a todas as cadeiras mas não consegui fazer algumas. Nos outros anos tive de dar o braço a torcer e dividi cada ano letivo em dois, pois a doença não me permitia fazer o ano completo”. Só foi a três recursos, proeza que se orgulha de salientar, e acabou o curso com média 14.

“Encarei a licenciatura como um desafio. E como adoro desafios comecei a gostar e a amar o curso cada vez mais”, recorda. “Fazer o curso de Tradução foi ótimo e já não o trocava por outro apesar de, mais tarde, poder fazer outro curso que seria, claro, o de Terapia da Fala que ainda está em stand-by”.

A Adriana lembra a enorme disponibilidade de todos os professores e a amizade de Gracinda Martins, responsável pelo Gabinete Pedagógico da UA, cuja mão, desde o início, esteve sempre presente para a ajudar. Olhos nos olhos conheceu também alguns colegas que a visitaram. Mas nem por isso ela deixou de ter contacto com o dia a dia da turma inteira. Mais uma vez a Internet, concretamente a página de Facebook do curso, mantiveram a Adriana a par dos acontecimentos. Ah!, e não esquecer os Serviços da Biblioteca da UA que muito ajudaram a Adriana com a digitalização e envio por email dos livros recomendados pelos docentes.

Como manda a tradição académica

E se a Adriana não foi ao encontro das tradições académicas, foram as tradições académicas que vieram até à Adriana. No quarto recebeu o Mestre do Salgado e a restante Comissão de Praxe da UA que a praxaram e batizaram com água da ria de Aveiro. “Quando isso aconteceu estiveram mais caloiros cá em casa que também foram aqui praxados. Gostei! Senti-me integrada”. Hoje, a Adriana prepara-se ainda para praxar alguns caloiros que o responsável pela praxe da academia lhe levará a casa. Para esse dia já está no roupeiro um traje académico à espera de ser orgulhosamente vestido para receber os alunos do primeiro ano como manda a tradição.

O quarto da Adriana serviu também de palco às três tunas da UA: a Magna Tuna Cartola, a Feminina e a Tuna Universitária. Muito suspirou em cada uma das três inesperadas e inéditas visitas. “Foi lindo! Gostei muito das três atuações. Senti-me especial por terem cantado só para mim. Mas não quero dizer que sou mesmo especial, porque não o sou. Sou igual a qualquer outro aluno da UA apesar de nenhum ter tido o privilégio de ter as três tunas a cantar só para ele”. Sorri.

No final da Licenciatura, o plano da Adriana era avançar para o Mestrado em Tradução. Tal passo não foi possível já que duas das cadeiras não podiam ser lecionadas à distância. Assim, a diretora do Mestrado aconselhou-a a fazer o Curso de Especialização de longa duração em Tradução Especializada – Francês e Espanhol. Aceitou. “É mais um desafio. Estou a gostar muito”, aponta.

Com esta especialização a Adriana fica habilitada a traduzir tudo o que esteja relacionado com as ciências jurídicas, desde cartas rogatórias, contratos, sentenças, livros da especialidade ou contratos de trabalho e de arrendamento. “Tudo o que seja feito na área do Direito nós podemos traduzir da língua portuguesa para a francesa e espanhola e vice-versa”.

E depois de terminar o curso que acabará no final deste ano letivo? “Pretendo descansar uns dias para depois procurar trabalho na área de tradução. Vou enviar currículos para seguir em frente”.

Calcificações em regressão

Nos últimos anos a doença da Adriana tem regredido. As calcificações que lhe impedem movimentar grande parte do corpo têm-se desfeito. “Com ajuda da fisioterapia e da minha preciosa mãe estou aos poucos a voltar a ter os movimentos perdidos. Este processo é lento e doloroso. Apesar de tudo, não perco a esperança de conseguir ter um dia uma vida normal”. Por isso, a Licenciatura em Terapia da Fala que aguarde pela garra da Adriana.

Entre os estudos e as sessões regulares de fisioterapia, Adriana escreve histórias para crianças. Já tem na gaveta duas dezenas delas onde o valor da amizade é sempre o tema principal.  E não se limita a escrevê-las. “Passo-as para power-point, ilustro-as com imagens tiradas da net e, com gravações áudio, dou vida às personagens imitando cada uma delas com a minha voz”. Um dia chegará em que cumprirá outro dos seus desígnios: publicar um livro infantil.

“Lutadora, teimosa, ansiosa, nervosa quanto baste, tímida de vez em quando”. Aos adjetivos que usa para se definir junte-se-lhe a simpatia, a coragem e o raro dom de saber ouvir. “Considero-me uma boa amiga. Gosto de dar conselhos e por isso algumas pessoas dizem-me que eu devia ter ido para Psicologia”. No liceu, era no ombro da Adriana que os colegas desabafavam. Ainda hoje pela internet assim acontece porque há coisas que não mudam nunca: “Não sou especial nem diferente, sou igual a qualquer pessoa que luta um dia de cada vez para chegar a um objetivo, ser feliz”.

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