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Investigação
Universidade de Aveiro desvenda segredos geológicos e biológicos no Atlântico
UA participa em descoberta de vulcões de lama e hidratos de gás ao largo do Algarve
Os vulcões de lama descobertos no Golfo de Cádis (no canto inferior esquerdo)
Três vulcões de lama contendo hidratos de gás foram descobertos ao largo da costa portuguesa por uma equipa internacional da qual fez parte a Universidade de Aveiro (UA). Situados a 180 quilómetros a sudoeste do Cabo de São Vicente, a uma profundidade de 4500 metros e numa extensão de 15 quilómetros, os vulcões e a presença daquela que é considerada pelos cientistas como uma possível, e muito importante, fonte de energia para o século XXI, os hidratos de gás, foram localizados em 2012 por uma equipa luso-germânica com a participação de investigadores do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da UA.

O achado ocorreu durante a expedição do projeto SWIMGLO que, pela UA, teve a bordo os investigadores Vitor Hugo Magalhães, Marina Cunha e Ana Hilário.

A descoberta agora revelada prova que a área de vulcões de lama já conhecida no Golfo de Cádis, e descoberta em grande parte por investigadores da UA, em particular no âmbito do projecto Europeu MVSEIS, coordenado pelo investigador Luís Menezes Pinheiro, se prolonga para oeste e pode ter uma extensão muito maior da que os investigadores apontavam até agora.

Associados à existência de hidrocarbonetos, exalações de gás e depósitos de hidratos de gás no subsolo oceânico, os novos vulcões de lama, e a perspetiva da existência de mais numa área muito maior da Zona Económica Exclusiva portuguesa, fazem antever que o país poderá ter reservas potenciais de gás e de hidratos de gás em quantidade que possam vir a justificar no futuro a exploração comercial.

“O facto de termos encontrado hidratos de gás quase a 100 quilómetros para oeste da zona do Prisma Acrecionário do Golfo de Cádis, ao longo da zona de falha Açores-Gibraltar, é extremamente importante porque alarga muito a nossa espectativa de encontrar mais depósitos nessa área”, diz Luís Pinheiro. O investigador do Laboratório de Geologia e Geofísica Marinha do Departamento de Geociências e do CESAM da Universidade de Aveiro tem-se dedicado, desde 1999, à descoberta e estudo dos vulcões de lama na Margem Sul Portuguesa e no Golfo de Cádis, entre a costa ibérica e marroquina. Quando ativos, estes vulcões expelem materiais argilosos carregados de gases ricos em hidrocarbonetos,  vindos de profundidades que podem chegar a vários quilómetros abaixo do fundo do mar.

A descoberta foi feita a bordo do navio oceanográfico Meteor, no âmbito do projeto SWIMGLO, uma parceria entre a UA, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, a FCUL e o instituto alemão GEOMAR. O projeto, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, nasceu com o objetivo de explorar as falhas geológicas que ligam a zona do Golfo de Cádis à Crista Média Oceânica e a ocorrência de comunidades biológicas típicas de zonas de escape de gás.

Os investigadores da UA identificaram os vulcões através de dados batimétricos de alta resolução, sonares de varrimento lateral e métodos de reflexão sísmica.

Energia portuguesa para o futuro

A previsão do investigador da UA de identificar, no futuro, muito mais ocorrências daquele gás junto àquela região da costa portuguesa está ligada ao facto das estruturas submarinas recém-descobertas estarem localizadas numa zona de fratura no fundo oceânico que vem no prolongamento das que existem no Golfo de Cádis. Este sistema de falhas originado pela convergência entre as placas tectónicas africana e euroasiática nos últimos milhões de anos, explica Luís Pinheiro, “vai dos Açores até Gibraltar e continua pelo Mediterrâneo, mas pensávamos que só no Prisma Acrecionário do Golfo de Cádis é que estava o grosso dos vulcões de lama e das estruturas de escape de fluidos ricos em hidrocarbonetos”.

Conhecidos desde os anos 70 do século passado, os hidratos de gás, que formam uma estrutura cristalina entre moléculas de metano e moléculas de água, já descoberta em muitos fundos oceânicos um pouco por todo o mundo, “são um potencial recurso energético futuro porque um cm3 de hidratos liberta por dissociação cerca de 160cm3 do conhecido gás natural”, aponta Luís Pinheiro. A tecnologia para os explorar está ainda em desenvolvimento, mas caminha no sentido de um dia permitir que os hidratos possam ser explorados tal como hoje se faz com o gás natural.

Se há nestas regiões da costa portuguesa hidratos em quantidade suficiente para que um dia possam ser exploradas comercialmente, os investigadores da UA ainda não sabem. «Para já, estamos a identificar as zonas onde existem os depósitos», explica Luís Pinheiro que adianta: “O passo seguinte é fazer trabalhos detalhados nessas zonas, explorá-las melhor para ver se existem  ou não hidratos e ocorrências de gás em quantidades exploráveis”.

Amêijoas gigantes nas profundezas

Na expedição que permitiu identificar os vulcões, seguiu também uma equipa de biólogos da UA já que, a par do estudo das características geológicas e geofísicas dos vulcões de lama, fontes frias, libertação de hidrocarbonetos e hidratos de gás no Golfo de Cádis, desde 2000 a biodiversidade sucessivamente descoberta junto a estas estrutura tem motivado também o interesse da comunidade científica.

Marina Cunha, investigadora do Departamento de Biologia da UA, revela que, através das fotografias registadas por um veículo autónomo submarino (AUV), utilizado pela expedição para rastrear o fundo oceânico, identificou junto dos vulcões agora colocados no mapa “alguns animais quimiossintéticos [sem energia solar utilizam o metano que exala dos vulcões como fonte de energia], alguns dos quais já conhecidos dos vulcões mais profundos do Golfo de Cádis”.

A investigadora, que com a sua equipa, nos últimos anos tem revelado ao mundo a existência de uma enorme biodiversidade em torno das dezenas de vulcões de lama já identificados no triângulo oceânico Ibéria-Gibraltar-Marrocos, trouxe da expedição provas da existência de campos de bivalves da família Vesicomyidae. A espécie forma bancos de elevada densidade na cratera de um dos vulcões.

“São como amêijoas gigantes. Pensamos tratar-se da mesma espécie que existe ao largo de Angola em zonas quimiossintéticas encontradas próximas de reservas de petróleo e de gás”, explica a bióloga.

Para terra, Marina Cunha trouxe ainda provas da existência de campos de Frenulata, vermes que estão intimamente ligados ao escape de fluídos junto dos vulcões de lama. “A densidade destas comunidades levam-nos a crer que a zona seja particularmente ativa em termos de emissões de gás”, diz a investigadora.

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