conteúdos
links
tags
Entrevistas
Percursos antigos alunos
Ruben Bettencourt: poesia dedilhada na guitarra
Ruben Bettencourt, guitarrista
Ruben Bettencourt, 24 anos, soube muito cedo que o caminho a percorrer incluía uma guitarra, música e muita entrega.

 

 

A música embalou-o desde criança. Aos seis anos os dedos conheciam de cor as cordas da sua primeira guitarra. Com uma tradição e raiz familiar assente nos sons populares da terra que o vê nascer – a ilha açoriana da Terceira – Ruben Bettencourt está destinado a aprender um instrumento musical. Primeiro, com aulas particulares e, depois, numa escola de música, cresce ao ritmo da expressividade e emotividade musical transmitida pela família. No fim do Conservatório Regional de Angra do Heroísmo e ao atingir a maioridade está preparado para descobrir novos destinos. Prepara as malas, despede-se de Victor Castro, o seu primeiro mestre, da família, da ilha do seu coração, e viaja para o continente.

Escolhe a Universidade de Aveiro, numa “opção única”, onde outros dois mestres o acompanham e lhe marcam o compasso da aprendizagem, na licenciatura em Música: Paulo Vaz de Carvalho e Pedro Rodrigues.

A mente ávida de conhecimento é o terreno fértil para a aprendizagem. O curso proporciona-lhe o alimento necessário: novos saberes, técnicas musicais diferentes, sons e ritmos desconhecidos, compositores criativos e sobretudo, o reconhecimento do seu talento pela massa crítica e atenta dos docentes da UA.

Termina o curso em 2009, na vertente de guitarra clássica, com a classificação de 19 valores. Observador atento do trabalho do aluno da UA, o pianista e compositor português António Chagas Rosa, que leciona a disciplina de Música de Câmara, admira a sua determinação, a sua vontade em saber mais e, impressionado com a dedicação do pupilo, não hesita em recomenda-lo e apoiá-lo na internacionalização do percurso. Uma única palavra, numa escala de várias conversas cúmplices entre professor e aluno, num final de aula, é o acorde final para a decisão em aperfeiçoar a técnica na guitarra e partir para Europa. O conselho do docente é claro: “A opção é tua” mas “tens que voar”. As palavras soaram como o estímulo, a força e o tónus necessário para a escolha.

Volta a fazer as malas. O destino é europeu, os Países Baixos e o Conversatorium Maastricht. Presta provas na prestigiada escola e, entre uma centena de candidatos ao lugar, conquista um espaço entre os dez escolhidos. É aí que se cruza com a melodia e a técnica de Carlo Marchione, seu orientador de mestrado. Frequenta as suas classes até ao final do curso que conclui em 2011. O maestro italiano reconhece-lhe o talento e atribuí-lhe nove valores, numa escala de 10 notas.

A exigência, a determinação e a persistência na prossecução dos seus objetivos são adjetivos cujo significado conhece bem. Mas Maastrich mostra-lhe o reconhecimento internacional, os palcos, o público conhecedor e exigente do centro da Europa.

Uma forte vontade de aperfeiçoar a técnica e de evoluir absorvendo os grandes ensinamentos continua a ser um traço forte na sua personalidade. Assiste a master classes, frequenta aulas particulares com as grandes referências da arte da guitarra, participa de forma sistemática, em concursos de guitarra clássica onde consegue resultados que o incitam a prosseguir. É convidado para integrar a Escola Robert Schuman, em Dusseldorf, na Alemanha. Nos últimos anos sucedem-se, a um ritmo crescente, um dedilhar de concertos e palcos na sua curta, mas incisiva carreira de guitarrista.

Grava o primeiro concerto para a Antena 2, numa noite, sala e público que lhe ficam inscritos na memória. A obra e compositor que apresenta ao público, nessa noite do Palácio Foz, são desconhecidos em Portugal e valem-lhe os maiores elogios. “Three Forest Paintings” de Kostantin Vassiliev, uma peça que admira e que adota no seu programa recolhe também a sua preferência em relação à sua emotividade e expressividade.

Os elogios, os prémios e o sucesso são breves. Ruben Bettencourt sabe bem disso. São os valores transmitidos pelos grandes mestres que o fazem crescer, também, enquanto intérprete. A humildade presente no discurso dos grandes músicos torna-o diferente. Aprende ao ouvir o testemunho dos Músicos com quem convive, que já partilharam o palco e aplauso com as maiores lendas. Estes ensinam que o estatuto de grande Músico, ao alcance de poucos, só se atinge numa atitude de grande respeito pela obra do compositor e abertura em relação ao saber do próximo.

Sobre o futuro não gosta de falar. Uma única certeza: a vontade em prosseguir o programa doutoral em música na UA, onde ingressou em 2011, tornando-se o mais jovem de sempre a fazer este ciclo de estudos em Portugal. Quanto às incertezas, talvez o percurso passe pelos Estados Unidos da América, o pisar de palcos de maior sonoridade em Portugal, um dueto imprevisto, um convite para um projeto, a gravação de um álbum a solo. Ou até um concerto no Tchaikovsky Hall, em Moscovo. “Quem sabe…”, diz com um sorriso que lhe ilumina o rosto e de quem é senhor do seu destino.

De volta à essência, Ruben Bettencourt, de apenas 24 anos, confessa, “sou mais feliz em palco”. Prefere os espaços mais pequenos e, por isso, mais calorosos onde o rosto de quem assiste não se dissipa. É aos Açores que este “pequeno, mas grande” português, com alma açoriana, e “também aveirense”, como faz questão de sublinhar, regressa, sempre que pode, e se sente em casa.

Nota: Este texto integra a edição nº18 da Linhas - Revista da Universidade de Aveiro

imprimir
tags
veja também
 
outras notícias