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Opinião
Artigo de opinião da autoria de Francisco Providência, docente do DeCA
Desenhando o Natal
Natal: ilustração de Francisco Providência
A quadra natalícia é fonte de inspiração para diversas artes. Francisco Providência, designer e docente no Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro, dá a conhecer as várias conceções do Natal, que a história se encarregou de desenhar e de ilustrar, ao longo dos tempos.

Ainda antes do Design se ter apropriado da figura do São Nicolau 1 para desenhar o Pai Natal, nos anos trinta, como distribuidor universal (ou Católico) de Coca-cola, o Natal, como festa solar, já há muito se celebrava. Marcado pelo solstício de inverno (o menor dia do ano) festejava-se no hemisfério norte a vitória do dia sobre a noite, iniciando-se a crescente contagem dos dias até ao S. João (maior dia do ano), e nisso, o sacrifício da noite e da morte à luminosidade crescente dos dias. 

A ideia de nascimento, de fertilidade, de emergência do nada para o ser, estava expressa na natureza prostrada e fria do inverno que, em breve, rebentaria em eclosões, dando lugar à primavera pascoal e verde e depois ao verão quente e maduro das colheitas. 

O símbolo que já estava presente no tempo e no lugar, foi rebatizado pela romana cristandade sob o signo da vida, pelo nascimento daquele que através do amor "salvava da morte", assim atribuindo novas extensões de significado à genealogia do símbolo. O Natal, como expressão divinizada do designer da mecânica celeste, passou a ser expressão da humanização de Deus, trocando o macro cosmos pelo micro lugar. O lugar significante que antes era ocupado pela celebração da vida biológica, manifestada por mágicos rebentos vegetais, passou agora a ser a celebração da vida humana encarnada pelo recém-nascido Deus, filho do homem. 

Ainda que o hemisfério sul revele as marcas de uma colonização europeia, associando o Natal às representações invernosas de neve contrastante com o calor doméstico da lareira (paradoxal cenário para quem vive a estação de maior calor), a natalidade cristã é hoje festa e manifestação global do amor. Por isso, no Japão o Natal é celebrado nos hotéis, refundando laços de afeto entre amantes. Mas mesmo nas culturas europeias, a celebração do amor servirá de pretexto para uma cíclica e solidária revisão do tempo e renovação dos pactos sociais celebrados pelos novos herdeiros de antigos répteis, vitalmente contaminados pela sua origem amoral. 

O Natal foi assim desenhado pacientemente pelo tempo e pela cultura, até chegar à sua mais recente expressão de artificialidade humana; atribuindo ao homem um desígnio desumano, divinizando-o e assim transcendendo a sua própria herança natural. Tudo isto é consequência tecnológica da palavra pronunciada; do verbo, da palavra anúncio e da palavra desejo. Há na palavra natal, ou na palavra nascimento, a revisão religiosa do ascendente patriarcal judaico (que vinha dos profetas), para a maternidade cristã (da mãe de Deus) e, consequentemente, a vitória moderna da beleza sobre a força da autoridade.

Se é a beleza que faz nascer o amor (Alain de Botton) ou se o amor é o desejo de beleza (MarsilioFicino), então a beleza é também promessa de felicidade (Stendhall) e a felicidade desejo de repetição (Milan Kundera). O nascimento é fruto do amor que resulta da beleza e é condição de felicidade. É a felicidade (estado de espírito das grávidas) que domesticará o homem, em repetidos ciclos de bondade. Mas antes da bondade estará a beleza que nos dispõe ao amor e esse é o grande desígnio do desenho: convocar a beleza para salvar o homem, que é como quem diz, para o fazer renascer. 

Nota: também poderíamos ter passeado pela mão dos Reis Magos para a cultura material: para o ouro, para o incenso e para a mirra, mas fica para o próximo ano. Feliz Natal.

1- São Nicolau Taumaturgo, arcebispo de Mira, na Turquia (...-342) comemorado em dezembro ou São Basílio, Basílio de Cesareia, bispo de Cesareia Mazaca, na Capadócia (329-379) comemorado em janeiro.


Francisco Providência
Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro

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