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Opinião
Artigo de opinião da autoria de Isabel Cristina Rodrigues, docente do DLC
A (im)possibilidade da esperança
Contos de Natal
Professores e investigadores, de vários ramos do saber da Universidade de Aveiro, apresentam algumas curiosidades próprias da quadra Natalícia. Isabel Cristina Rodrigues, docente no Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro, percorre a obra de alguns dos mais notáveis autores contemporâneos, para evocar a esperança, tão característica do Natal, como contraponto aos antinatais aclamados por Jorge de Sena, Ruy Belo, Vergílio Ferreira ou Ana Luísa Amaral.

Num pequeno texto intitulado "Os Antinatais de Jorge de Sena", publicado no volume As vinte e cinco notas do texto (e à semelhança do que o próprio poeta afirmara já no primeiro verso de um poema de 1947 dedicado à mulher, Mécia - "Não é já de Natal esta poesia"), Eugénio Lisboa traz a lume a evidência do caráter antinatalício dos poemas de Jorge de Sena sobre o Natal, cujo sentido último o ensaísta resume do seguinte modo: "Os Natais de Jorge de Sena tratam, sob a forma retórica de 'alusão em eco', de falar de uma ausência que dói e nos incrimina, (…) de um vazio que insistimos em não encher, falam, em suma, dos antinatais que somos, por culpa de tudo e de cada um de nós que os não vive dentro de si, como exigência e responsabilidade que se não podem transferir". Em modo de sarcástica rima com os duros anos da Segunda Grande Guerra e os fumos longamente sombrios do Estado Novo, a inevitabilidade celebratória do nascimento de Cristo é habitualmente vivida por Sena em registo de profunda incomodidade ética, sinalizando assim a sua própria integração numa extensa linhagem literária de denúncia e mágoa onde se inscrevem muitos outros escritores para quem o Natal mais não é do que o entendimento pseudojubilatório de uma impossibilidade – a de que o sentido de esperança inerente à imagem do pequeno deus entregue ao Homem possa subtrair este último à experiência inelutável do mal: ainda de acordo com as palavras de Sena, inscritas no poema "Natal – 1950", "Nenhum Natal será possível: sei / que tudo enfim suspenso aguarda / não já Natais sempre de guerra mas / a morte iluminada como aurora / entre esta gente que se junta rindo".

Parcialmente inserido na mesma dinastia ético-moral de Sena (e razoavelmente contemporâneo dele), Ruy Belo invoca, no poema "Um rosto no Natal" (publicado em 1973 na coletânea Transporte no tempo), a mesma contradição insanável que Jorge de Sena atribui à dinâmica ritualizada do Natal: mais do que um momento de convicta celebração da esperança, estamos aqui em presença de um mero espaço de calendário em notória fuga de si próprio, devolvendo assim ao mundo, em vez do tão desejado alimento da fé, a irónica confirmação do seu horror: "caminhava no dia de natal / e entre muitos ombros eu pensava / em quanto homem morreu por um deus que nasceu / a minha oração fora a leitura do jornal / e por ele soubera que o deus que cria / consentia em seu dia o terramoto de manágua / e que sobre os escombros inda havia / as ornamentações da quadra do natal".

A suposta indivindade deste deus nascente é também a de um Vergílio Ferreira que, por entre um ou outro momento de uma alegria (necessariamente) breve, acolhe ao mundo do Homem o corpo de um nado morto a braços com a exigência de um destino de promessa. Como escreve o autor num dos seus diários (o quarto volume de Conta-Corrente), "Um menino nasceu – que mais para o nosso alvoroço? Filho dos deuses ou dos homens, é um menino que nasce, é a evidência da promessa para o nosso olhar fatigado, a evidência da promessa para o seu olhar confiante". No universo narrativo vergiliano, o romance Alegria Breve apresenta-se, aliás, como o romance da vigiada concessão da esperança ("a única forma de haver terra e água e fogo e ar"), a que não será talvez alheia a presença genesíaca da neve, que a tudo cobre com redentora brancura da sua luz.

Espécie de rasura e súmula de todas as outras cores, a brancura da neve parece propor, no imaginário literário português, a sublimação de um passado reconvertido ou em projetiva possibilidade ou em mero devaneio onírico, como sugere Ana Luísa Amaral no poema "Natal a fingir branco", de Às vezes o paraíso (1998): "Natais de infância – mas que neve? / Também eu sonho (e quem o não?) / um Natal branco. / Queria neve no meu / natal de nostalgia. Queria / fechar os olhos / e ver por dentro neve. Queria- / -me em país nórdico, ao menos / na nostalgia possível".

No Portugal de hoje parece escassear já a neve e, ao invés do que sucedia no trágico tempo dos antinatais senianos (necessariamente mais ruidoso na expressão dos humanos desconcertos), alastra agora o traço bélico de um terramoto social vivido por (quase) todos em movimentos de surda inquietação. Que a vinda próxima do novo deus, velho já de milhares de anos, possa ainda abrir em todos, pese embora a sua turva luz, a branca possibilidade da esperança.

 

Isabel Cristina Rodrigues
Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro

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