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Opinião
Artigo de opinião da autoria de Paulo Silva, docente do DCSPT
O Natal e as cidades
Centro Comercial Fórum (fonte: www.forumaveiro.com)
Com a chegada da quadra natalícia, as cidades reinventam-se, ficam mais coloridas, mais animadas e os centros urbanos ganham uma nova dinâmica. Paulo Silva, professor no Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro, traça o perfil das cidades que, por via de novos fenómenos como os mercados de Natal, conhecem por esta altura uma reorganização.

A quadra natalícia é um dos períodos do ano no qual as cidades mudam substancialmente de aparência, com sinais mais evidentes na decoração do espaço público, no caráter mais apelativo dos espaços comerciais e no aumento do movimento de pessoas. Estes sinais, que marcam a aproximação do Natal têm vindo também a acompanhar as mudanças operadas no sentido que as celebrações do Natal têm tido ao longo dos tempos. Basta pensarmos em como esta celebração foi essencialmente religiosa na sua origem, confinando-se aos templos e aos espaços imediatamente envolventes e às habitações. O acompanhar do desenvolvimento da sociedade de consumo, transformou o Natal numa manifestação com visibilidade em partes mais alargadas das cidades e por períodos mais longos do que o da quadra natalícia, repartindo-se hoje pelos centros urbanos mas também pelas periferias onde se concentram centros comerciais.

A expressão comercial do Natal, com reflexo nas áreas comerciais das cidades, ganhou uma expressão tal que se tem vindo a sobrepor, e mesmo a substituir, para uma parte da sociedade, à própria celebração religiosa do Natal. As facilidades de deslocação e os hábitos das sociedades mais prósperas, de usar a quadra natalícia para viajar para climas mais amenos que os do hemisfério norte, têm contribuído para que a transformação de cidades durante o Natal ocorra em locais até recentemente considerados pouco prováveis. Cidades em países onde o cristianismo é pouco importante para a população residente, tais como Singapura, Kuala Lumpur, Banguecoque ou Ho Chi Minh, transformam-se nesta época do ano em espaços (ainda mais) vibrantes, muito alicerçados no consumo e na iniciativa privada.

Regressando ao contexto nacional, muitos de nós temos decerto na memória, para além das luzes e decorações que enfeitam os nossos centros urbanos, o seu oposto, o diminuir súbito da animação quando se dá o encerramento das lojas e se aproximam as últimas horas do dia 24 de dezembro. Com exceção das celebrações religiosas, as festividades passam a partir desse momento para o interior das habitações e aí permanece durante o dia 25. É certo que os hábitos das populações e as estruturas familiares têm um peso elevado neste fenómeno. Mas também é certo que a escassa população que habita uma parte significativa dos nossos centros urbanos é responsável por este esvaziamento súbito da animação que marca durante semanas os espaços públicos do nosso quotidiano.

Num Natal como o de 2012, em que a atividade económica é distinta de anos passados, a ausência de população nos centros, não sendo maior, é aparentemente mais visível. Ou seja, temos centros urbanos que vivem exclusivamente do consumo e organizado sobretudo em torno da preparação das festas. De forma tímida, começam a surgir fenómenos novos como os mercados de Natal instalados temporariamente no espaço público, algo com muito mais expressão em cidades do centro da Europa, do que do nosso país.

Esperemos por futuros Natais com centros urbanos mais habitados. Boas Festas!

Paulo Silva
Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro

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