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Entrevistas
Antigos alunos UA: Diana Costa, formada em Matemática, investigadora da UCL
“Agora, posso dizer que o nível que me foi exigido na UA é um fator de distinção”
Diana Costa é Research Assistent na University College London
Licenciada, mestre e doutorada nas áreas da Matemática e Matemática Aplicada na Universidade de Aveiro (UA), Diana Costa, antiga “embaixadora” da UA de e ex-monitora da Academia de Verão, é Research Associate e Teaching Assistant no University College London. “Agora, estou em condições de dizer que o nível que me foi exigido nos meus estudos na UA consegue ser um fator de distinção entre esta e outras instituições”, afirma.

Quais os motivos que a levaram a estudar na Universidade de Aveiro?

Eu gostava de responder que foi uma decisão muito ponderada e que envolveu imensos fatores, mas a verdade é que nem eu sei como tive tanta sorte! Metade dos meus amigos foram estudar para o Porto e a outra metade para Coimbra. Mas eu senti que o meu lugar era a Universidade de Aveiro. Conhecia o campus por ter participado nas Competições Nacionais de Ciência (CNC) e, de alguma maneira, ficou enraizada em mim a vontade de um dia estudar na UA.

O curso correspondeu às suas expectativas? E a Universidade de Aveiro?

Eu adorei o curso, estava rodeada de cadeiras em diferentes áreas da Matemática, e gostei mesmo muito da experiência. Confesso que durante a licenciatura não via uma saída profissional definida, e esses contornos só começaram a ficar mais nítidos durante o mestrado, para mim e para outros colegas. No entanto, isso foi sendo melhorado no Departamento de Matemática e na reestruturação de ambos os ciclos de estudo, o que é bastante benéfico para os alunos que chegam agora.

A UA também me marcou pela positiva. O campus é lindo, a proximidade entre alunos de diversos cursos é algo incrível e louvável. E, de ano para ano, há cada vez mais atividades a acontecer.

O que mais a marcou na Universidade de Aveiro (algum professor/colega/episódio)? Que outras memórias guarda da UA? Como monitora da Academia de Verão, por exemplo?

Tantas coisas!... Tive vários professores muito bons, mas houve um que foi excecional e que ainda hoje é um modelo para mim, e essas aulas são provavelmente a minha primeira recordação como aluna. Lembro-me da faina e da primeira vez que usei o traje académico. Tenho milhões de recordações das minhas colaborações com os Serviços de Comunicação, Imagem e Relações Públicas (SCIRP) da UA! Sem qualquer exagero, as atividades que desenvolvi com eles tornaram-me na pessoa que sou e ficarei para sempre agradecida por tantas oportunidades que me deram, entre elas, a de ser animadora da Academia de Verão. Aquelas semanas foram felicíssimas, carregadas de trabalho, mas com o sentimento que estava a dar a uma geração mais nova uma experiência incrível. A mais doce memória e também das mais recentes é a do primeiro dia em que dei aulas: sendo que nunca tive uma visão clara do que fazer quando "fosse grande", fiquei maravilhada quando vi ali um futuro.

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Diana Costa (na segunda fila, ao centro) e o grupo PPLV - Programming Principles, Logic and Verification da UCL (foto©UCL).

É investigadora no University College London… Como surgiu a oportunidade de ir trabalhar para esta instituição?

Mais um acaso... encontrei o anúncio para esta posição numa lista do Institute for Logic, Language and Computation e decidi candidatar-me. Porque não? Na altura estava a alguns meses de terminar o meu doutoramento e o meu currículo ia de encontro ao que procuravam. Fiz a entrevista via Skype porque na altura estava nos EUA e soube, na hora seguinte, que tinha ficado com a posição. Aceitei sem sequer ter visitado Londres antes, mas em retrospetiva foi a decisão certa.

O que mais a fascina nas atuais atividades? Quer falar um pouco da sua atividade de investigação, falando, sumariamente, de algum projeto mais sugestivo que esteja a desenvolver? Como assistente de docência, tem muitos alunos? Quer descrever um dia típico de atividade?

Definitivamente o facto de ver um trabalho teórico a ser utilizado num contexto mais prático. O projeto onde estou inserida cá, o IRIS - Interface Reasoning for Interacting Systems - tem imensos parceiros da indústria, entre eles o Facebook, a Amazon AWS e a HP Labs, e é ótimo partilhar tantas ideias com pessoas inseridas noutros ambientes para além do académico. Para já tenho trabalhado em aspetos formais, no desenvolvimento de novos sistemas lógicos para lidar com grafos. Um dia típico envolve muita tentativa e erro. Por me ter desviado um pouco da área da minha tese de doutoramento, os primeiros meses focaram-se muito em ler e pôr-me confortável com novos temas, visto que também fiz um desvio de um Departamento de Matemática para um Departamento de Ciência da Computação. De momento, e estando numa fase de muitos prazos a cumprir para diversas submissões tenho passado imenso tempo a escrever artigos.

As aulas na UCL terminaram há poucas semanas e retornam em setembro, tal como em Portugal. Eu tenho atuado também como Teaching Assistant e, no meu caso, isso envolveu dar aulas práticas de Matemática a alunos do Departamento de Ciência da Computação e a avaliação de alunos do mesmo Departamento numa unidade curricular de Leitura Assistida que consistia na compreensão de artigos científicos e métodos de investigação. A UCL é uma universidade enorme, e as turmas teóricas têm facilmente 150 alunos. Nas aulas práticas a turma era dividida em três blocos e, portanto, rondavam os 50 alunos.

Por termos três períodos em vez de dois semestres, o meu quotidiano está em constante mudança - ora dou aulas a uma hora em certos dias, ora o horário muda. Também estou muito dependente das datas de conferências e de submissões. Raramente tenho duas semanas iguais.

É agradável viver em Londres? Imagina-se a trabalhar em Portugal?

Londres tem sido uma experiência incrível. Tal como mencionei anteriormente, foi definitivamente uma boa aposta. É muito vibrante, e há imensas atividades a toda a hora. O meu balanço é muito positivo.

Gostava de um dia ver reunidas as condições para voltar para Portugal. A minha família e os meus melhores amigos estão em Portugal, e gostava de estar mais perto deles, como é óbvio. Mas quero, e hei de, voltar nos meus termos, sempre por mérito e nunca "por ter um conhecimento", o que infelizmente ainda é o mais comum. De qualquer modo, sinto que ainda não é a hora.

Que conselhos pode dar a quem pretende vir a ser docente ou investigador nesta área, num meio exigente, como aquele onde trabalha?

Este pode ser um meio muito frustrante e cansativo. É possível desgastarmo-nos muito rapidamente, e eu sinto uma grande dificuldade em separar a minha vida pessoal da minha vida profissional e é frequentemente que me vejo a pensar em novos pseudo-teoremas, novos cenários, quando gostava de estar desligada do trabalho. Um investigador é, muitas vezes, tido como uma pessoa com imenso tempo livre, com horários flexíveis, no fundo com um emprego de sonho. Já os investigadores só podem discordar. Portanto, os meus conselhos são para que sejam focados e organizados, que saibam criar uma rede de pessoas com que possam discutir interesses partilhados e que saibam diversificar os conhecimentos. O mais importante, e onde já confessei falhar redondamente: que saibam tirar tempo para si mesmos. Em investigação o caminho pode ser, por vezes, difícil... é o destino que faz valer a pena.

Que competências adquiridas na UA entende terem sido fundamentais para o exercício das suas atuais atividades? O percurso na UA teve algum efeito no seu caminho profissional/atividades paralelas que exerce? De que maneira?

Um dia, pouco depois de ter cá chegado, ouvi o coordenador do projeto onde estou inserida dizer a um colega que Portugal tinha um sistema de ensino excelente. Eu, não estando a par de outro sistema, não intervim. Mas, agora estou em condições de dizer que o nível que me foi exigido nos meus estudos na UA consegue ser um fator de distinção entre esta e outras instituições. Trabalhei muito e continuo a fazê-lo. O facto de ter dado aulas enquanto fazia o doutoramento também me coloca em vantagem relativamente a outros colegas que nunca tiveram uma experiência tão imersiva no ensino. Os trabalhos com os SCIRP também me deram muita desenvoltura; eu costumava ser muito tímida, e hoje ninguém me associa a esse adjetivo.

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