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Entrevistas
Antigos alunos UA: Celso Braz, Planeamento Regional e Urbano
“Às vezes, não conseguimos fazer uma escada, mas um degrau já é bom…”
Celso Braz está na Divisão de Ordenamento do Território da CCDR-LVT
Vice-presidente da Associação Portuguesa de Urbanistas (APU) e membro da direção da Associação de Estudo e Defesa do Património Histórico-Cultural de Santarém, Celso Braz é antigo aluno da licenciatura em Planeamento Regional e Urbano na Universidade de Aveiro. Como presidente da antiga Associação Portuguesa de Planeadores do Território (APPLA) que representava maioritariamente antigos alunos da UA, participou ativamente na criação da nova APU. Exerce funções na Divisão de Ordenamento do Território na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR-LVT). A quem está em formação na UA, sugere que ouça o que disse um professor seu: “Às vezes não conseguimos fazer uma escada, mas um degrau já é bom …”

Quais os motivos que o levaram a estudar na Universidade de Aveiro?

Entrei na UA em 88/89, à data e no decurso das pesquisas para a candidatura ao ensino superior verifiquei que, a nível nacional a UA era a única instituição de ensino superior que possuía uma licenciatura na área do Urbanismo – Licenciatura em Planeamento Regional e Urbano. Hoje, esta área de formação na UA corresponde a um mestrado (2º ciclo).

Triste é verificar que nos dias de hoje, no ensino publico, não existe qualquer licenciatura em Urbanismo, lacuna que, a longo prazo vai sair cara ao país.

O curso correspondeu às suas expectativas? E a Universidade de Aveiro?

Ambos corresponderam às expectativas, o curso por um conjunto de áreas disciplinares específicas que se começaram a salientar a partir do 2º ano e a UA pela surpresa de um campus singular sempre em desenvolvimento, com uma vivência universitária muito rica, seja no âmbito académico ou social, e uma comunidade à data muito identificada e familiar.

O que mais o marcou na Universidade de Aveiro (algum professor/colega/ episódio)?

Na sequência do que referi anteriomente, o que mais marcou foi a vivência entre colegas e professores. Passávamos os dias inteiros nas instalações da UA, no Departamento de Ambiente e Ordenamento (sala de computadores ou sala dos estiradores), no CIFOP (trabalhos de grupo), na Biblioteca (estudo), etc. Essa vivência proporcionou por vezes episódios hilariantes entre alunos e entre alunos e professores, ainda hoje recordados.

Quanto aos professores, marcaram-me aqueles que se distinguiam não só pela sua qualidade académica e aplicação prática da área disciplinar, mas também pelo traço distintivo da sua personalidade e carácter, tais como Pompílio Souto, Jorge Carvalho, Teresa Andresen e Anselmo Castro.

Como foi iniciar a atividade no Planeamento/ordenamento do território? Decorreu pouco tempo após a formação na UA?

Sim, acabei o curso em setembro, e no janeiro seguinte estava a trabalhar num atelier de planeamento. Uma experiência marcante pela carga do horário de trabalho, onde só havia hora de entrada, e pelo regime quase ditatorial, onde por exemplo, carregar nas teclas do PC com demasiada energia, dava direito a repreensão. Digamos que os excessos patronais eram de alguma forma consentidos e encarados com humor e alegria. As situações caricatas, associadas à aprendizagem e à camaradagem vivida, permitiam ainda em Aveiro, fazer uma boa transição para o mundo do trabalho.

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Assembleia geral da extinta APPLA a 27 de maio de 2017 - Celso Braz está em baixo, ao centro.

Acompanhou, por dentro, a criação da Associação Portuguesa de Urbanistas (APU), a partir da Associação Portuguesa de Planeadores do Território (maioritariamente formada por antigos formados na UA) e da Associação de Urbanistas Portugueses e a Associação Profissional dos Urbanistas Portugueses… Foi um processo complexo e demorado… Coroado de sucesso?

Foi uma Graça ter participado na conclusão desse processo. Foi na verdade um processo complexo e demorado, para o qual contribuíram vários colegas da ex-APPLA, desde 2004, sem os quais e sem o caminho por eles percorrido não seria possível chegar ao seu termo.

Creio que houve dois momentos determinantes, um relativo à mudança de protagonistas entre membros das direcções das várias das associações, e outro relativo à elaboração de documento de entendimento relativo à fusão das associações, com um grupo de intervenientes, restrito (designado pelas direcções) e com um curto prazo para a apresentação do trabalho.

Não tenho dúvida relativa ao sucesso, o facto de existir apenas uma associação que reúne todos os profissionais que trabalham na área do urbanismo, permite-nos ser mais fortes, mais representativos e por consequência mais profícuos nas reivindicações.

Conseguimos o que outros países da UE, ainda não alcançaram.

Que perfis profissionais se congregam na APU?

Os membros da APU congregam fundamentalmente três tipos de perfis:

- Formação de base específica, com licenciaturas em engenharia civil, arquitectura, geografia, direito, economia, entre outras, complementadas com formação pós-graduada em Urbanismo;

- Formação de base específica, com experiência profissional comprovada na área do urbanismo, por norma associada aos primeiros profissionais existentes em Portugal na área do urbanismo;

- Formação de base geral em Urbanismo, como as licenciaturas em Planeamento Regional e Urbano, Engenharia do Território, Urbanismo, Arquitectura do Planeamento Urbano e Territorial e Arquitectura da Gestão Urbanística, ou outras afins.

A APU tem representado bem os profissionais nesta área? E quem se inicia na atividade?

A APU nasceu em dezembro/2017, diria que este primeiro mandato decorre sobre o epíteto de colocar a estrutura da associação em funcionamento, sob carris, realizando um primeiro conjunto de ações que contribuem para a regular actividade da associação em prol dos seus membros. Assim, para além da estabilização administrativa e de comunicação site (https://apu.pt ou facebook), a APU tem representado os seus profissionais em várias reuniões e eventos onde é convidada a participar.

Tudo isto é um processo em desenvolvimento, consolidado e construído em pequenos passos. Recordo que todo o trabalho é realizado nos tempos livres dos elementos da direcção. O representar “bem”, realiza-se com uma associação consolidada e credível, funcionando em prol dos interesses dos seus membros, sejam eles jovens ou experientes profissionais.

Quais os desafios que a APU tem agora pela frente?

Para além de concretizar algumas ações ainda este ano, como a realização do primeiro congresso, a realizar em Coimbra nos dia 7 e 8 de novembro/2019), ou o lançamento dos “Cadernos de Urbanismo”, publicação a tornar regular, os principais desafios referem-se por um lado,

- À consolidação interna da associação, que passa por um conjunto de pequenos ajustes aos estatutos, à criação de um “regulamento da Deontologia”, de um “regulamento eleitoral”, ou pela constituição de uma “Comissão consultiva”.

Por outro lado, a médio, longo prazo salienta-se,

- A oferta de formação continua aos membros da APU;

- A participação ativa da APU, nas diferentes temáticas que interessam hoje ao desenvolvimento da sociedade em geral;

- A participação da APU no movimento associativo internacional como o Conselho Europeu de Urbanistas (ECTP-CEU), o Isocarp (International Society of City and Regional Planners), ou ainda a FIU (Federação Ibero-americana de Urbanistas);

- O desenvolvimento de ações de sensibilização, junto das instituições de ensino superior, revelando a necessidade de existência de formações na área do Urbanismo, ao nível das licenciaturas pós-Bolonha. Se hoje em dia, existe deficit de profissionais, esta carência vai agravar-se rapidamente;

- A necessidade de colocar a temática do Urbanismo/Ordenamento do Território na ordem do dia e nas prioridades da sociedade, o que passa igualmente por dar a devida visibilidade à associação, esclarecendo e informando cidadãos e governantes sobre a temática.

Há conselhos que se podem dar a quem pretende iniciar-se no Planeamento/Urbanismo?

Mais que tudo importa dar a conhecer que nesta área a perseverança é uma característica pertinente para levar a bom porto a defesa dos interesses comunitários e como dizia um professor, “às vezes não conseguimos fazer uma escada, mas um degrau já é bom …”.

O Urbanismo é uma ciência que defende eminentemente a causa pública, debruçando-se na interação das comunidades humanas com a sustentabilidade do Território, implicando o gosto de trabalhar em equipa, cooperando e ouvindo todo o tipo de intervenientes nos processos, população, técnicos, decisores e investidores, entre outros.

Que competências adquiridas na UA entende terem sido fundamentais para o exercício das suas atuais atividades? De que maneira?

Sem entrar em algo específico, refiro a relevância do processo metodológico de planeamento a necessidade de integrar várias disciplinas desde o Ambiente, às temáticas Sociais ou, na área do desenho urbano, os princípios subjacentes a este na conformação e gestão de cidade. Revelaram-se fundamentais, tanto no âmbito da coordenação ou integração de equipas de projeto, como na conceção de soluções.

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