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Opinião
(H)À Educação: Ana Margarida Ramos, investigadora do CIDTFF e professora da UA
Ler para viver mais devagar e para ser melhor pessoa?
Ana Margarida Ramos fala da narrativa juvenil, tema do Prémio Aldónio Gomes 2016
“Os livros ensinam-nos a abrandar” é o título de uma mensagem do escritor e ilustrador lituano Kestutis Kasparavicius, a propósito do Dia Internacional do Livro Infantil de 2019, assinalado a 2 de abril. Ana Margarida Ramos, professora da Universidade de Aveiro (UA) e investigadora do Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF), recorda esta mensagem e acrescenta: “Os bons livros fazem melhores leitores e estes, por sua vez, também exigem cada vez melhores livros”. Texto no âmbito da rubrica “(H)À Educação", do CIDTFF.

Todos os anos, desde 1967, celebra-se o Dia Internacional do Livro Infantil no dia 2 de abril, data de nascimento de Hans Christian Andersen, o escritor dinamarquês nascido em Odense, em 1805. A comemoração desta data, iniciativa do IBBY (International Board on Books for Young People), pretende promover o gosto pela leitura e a atenção aos livros para crianças, sublinhando a sua importância.

O IBBY é uma organização internacional não governamental, fundada em Zurique em 1953, que reúne pessoas de todo o mundo interessadas em aproximar as crianças e os livros, defendendo o acesso universal à leitura e promovendo, através de várias iniciativas, a divulgação da literatura infantil. A sua criação não pode ser dissociada do contexto do pós-guerra e da preocupação com a educação das crianças para uma cultura de paz e de entendimento entre os povos. Jella Lepman (1891-1979), jornalista e ativista alemã de origem judia, também fundadora da Biblioteca Internacional da Juventude de Munique, foi uma das impulsionadoras da criação do IBBY.

Anualmente, todos os anos, um país diferente é convidado a patrocinar as comemorações do Dia Internacional do Livro Infantil, através de uma mensagem de apelo à leitura que é depois traduzida para muitas línguas e difundida pelo mundo inteiro. Em 2019, coube à Lituânia a redação do texto que ficou a cargo do escritor e ilustrador Kestutis Kasparavicius.

O seu texto intitulado “Os livros ensinam-nos a abrandar” estabelece uma oposição entre a velocidade e a falta de tempo que caracteriza a agitada vida moderna e a lentidão e a tranquilidade que surgem associadas à leitura, sobretudo aquela que é feita com prazer. Reflete, ainda, sobre o facto de, nas nossas memórias, constarem tanto experiências efetivamente vividas, como outras que resultam apenas das leituras feitas, numa fusão indiscernível entre a realidade e ficção. A conclusão da mensagem é particularmente original, uma vez que o autor defende que, se os leitores necessitam de livros estimulantes, os livros também precisam de leitores interessantes, sugerindo que os bons livros fazem melhores leitores e estes, por sua vez, também exigem cada vez melhores livros.

É impossível ler esta mensagem sem fazer o balanço de tudo o que devemos aos livros, sobretudo às leituras fundadoras da infância, aquelas que se impregnam de tal modo nas memórias que não se distinguem da própria vida efetivamente vivida. Nos livros, encontramos as referências e os modelos éticos estruturantes, que resultam de experiências ricas do mundo e dos outros, permitindo o desenvolvimento da empatia. Mas os livros, sobretudo, permitem aprofundar o autoconhecimento, colaborando na construção da nossa identidade, uma espécie de exercício, também ele lento, de constante autodescoberta. Porque todos seríamos certamente pessoas diferentes sem os livros que fizeram o que hoje somos.

 

Ana Margarida Ramos, investigadora do Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro

Email: anamargarida@ua.pt

(Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico, publicado em simultâneo no Diário de Aveiro)

 

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