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Entrevistas
Pessoas UA: Rita Ribeiro, estudante do Mestrado em Ensino do 1º ciclo do Ensino Básico e de Matemática e Ciências Naturais do 2º Ciclo do Ensino Básico
"Não tínhamos água quente, nem Internet. Se calhar não precisamos tanto destas coisas"
Rita Ribeiro
Rita Ribeiro, aluna de mestrado da Universidade de Aveiro (UA), é natural de Aveiro e tem 23 anos. Nas últimas férias de verão fez voluntariado em Cabo Verde, onde ensinou e viveu com crianças e jovens de outra cultura. Partiu numa aventura para um país diferente e quando lá chegou a realidade trocou-lhe as voltas. Afirma que a experiência lá vivida mudou a sua forma de ser. Para além de estudar na UA, é jogadora de andebol de alta competição pela Associação Académica da Universidade de Aveiro (AAUAv).

Além de estudar na UA, há algum tipo de atividade que pratique?

Sou jogadora de andebol de alta competição pela AAUAv nos campeonatos nacionais e em alguns europeus.

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Campeonato Europeu Universitário em Antequera, em Málaga, no qual foram vice-campeãs em 2017

Existe mais alguma atividade que queira partilhar connosco?

No meu curso temos um momento de estágio, eu decidi que na passagem da teoria para a prática (do 1º para o 2º ano) era a altura ideal para fazer algo de novo que me trouxesse vantagem na prática pedagógica, que exige muito de nós e exige que nós tenhamos capacidade de adaptação a algumas situações que não estamos habituados a lidar, como por exemplo, crianças diferentes de contextos diferentes. Sempre tive o desejo de fazer algo diferente por mim e pelos outros, de forma a aprender e a poder enriquecer os outros. Surgiu na Internet um programa de voluntariado internacional chamado “Para Onde?”, candidatei-me e fui para Cabo Verde. Tinha disponibilidade quer de tempo quer financeiro, e fazer voluntariado implica ter disponibilidade financeira, há programas que apoiam, e há programas que não apoiam, este tipo de programa apenas nos acompanhavam via email e WhatsApp, procuravam sempre estar presentes, mas todas as despesas necessárias fui eu que as paguei. Existe um Website onde explicam tudo podendo escolher programas de curta ou longa duração.

Que experiência viveu em Cabo Verde?

Eu e uma amiga fomos para o Tarrafal que fica na ilha de Santiago, aqui existe um contexto muito pobre. Só existia uma estrada com paralelo, de resto era tudo terra batida. As casas eram semiconstruídas, eles iam construindo aos poucos, alguns não tinham as necessidades mais básicas, iam buscar água do mar com garrafões e tomavam banho com essa água, como nunca saíram daquela zona pensavam que os familiares e pessoas que emigraram para França, Portugal ou outro país qualquer que são ricos, eu senti muito isso.  

Porque considera que têm esse tipo de mentalidade?

Um dia estava num café com dois Cabo-Verdianos, perguntaram se eu tinha um carro BMW, e eu disse-lhes que tinha um carro provavelmente pior que algumas pessoas de Cabo Verde, tive de lhes explicar o conceito de voluntariado porque eles não sabiam, não precisamos de ser ricos para ajudar os outros e eles não tinham essa ideia. Acabei por lhes fazer uma comparação, perguntei-lhes quanto custavam as sapatilhas que eles traziam calçadas, custavam por volta dos 40 euros, tinham um mês de uso, e já estavam todas estragadas e eu trazia umas que custaram bem menos e já as tinha há dois anos, aí eles caíram na realidade perceberam que têm pouco, mas que gastam em coisas que certamente não precisam tanto. Percebi também que eles têm um grave problema na gestão que fazem com o dinheiro que têm disponível, não o aplicam da melhor forma. E como a maior parte não procura sair dali, sujeita-se ao que têm na terra e são felizes à maneira deles.

Foi fácil a adaptação?

Na instituição onde estive com crianças, o objetivo é ajudá-los a procurar um futuro melhor através da educação, criando assim atividades para que as crianças se sintam motivadas a fazer algo para um futuro melhor. Eles vivem muito o sonho de querer ser jogador de futebol.

Quando lá chegamos não foi bem o que imaginávamos, caímos na realidade, tivemos que nos adaptar porque eles não queriam saber o que fomos para lá fazer, organizamos atividades de forma mais independente sem estar ligados à direção da associação e correu bem. Houve uma proximidade com as crianças e jovens e realmente há histórias de vida muito complicadas.

 Recorde-nos um momento com uma dessas crianças ou jovens.

Uma rapariga com quem convivi com 14 anos, o pai assassinou nove pessoas e a mãe vendia droga, ela nasceu na prisão e esteve lá até aos três anos de idade, quando soube pensei que me iria dar muito trabalho pela história de vida que tinha, mas fui ganhando confiança com ela. Eles têm o hábito de subir às árvores, ela subiu, e eu subi com ela, queria aproximar-me dela para assim partilhar as suas histórias. Tentei uma abordagem não muito direta, mas aproximando-me da realidade dela para ser mais fácil. Ela partilhou as suas histórias, e compreendi o porquê de ela ser uma pessoa rude, talvez a atitude dela de autodefesa fazia sentido. No fim, partilhou tudo comigo e se pudesse teria vindo connosco.

 

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A Rita viveu em Cabo Verde momentos que lhe ficarão guardados na memória e no coração para toda a vida

Esta aventura mudou a sua forma de ser?

Enriqueceu-me em diversas vertentes, nós estávamos numa casa em que erámos 12 pessoas, para sete quartos, ficamos duas por quarto, não tínhamos loiça, tivemos de comprar tudo e pagamos a casa, acho que só pagamos a cama, não tínhamos água quente, nem TV, nem micro-ondas, nem Internet, isso fez-me perceber que se calhar não precisamos tanto destas coisas, estive lá dois meses.

Quando cheguei a Portugal desliguei-me do telemóvel, da TV, se tiver de tomar banho em água fria não me preocupo, deixei de ser tão exigente comigo mesma. Sou mais tolerante, aprendi a relativizar mais, sou mais calma, se antes já procurava soluções para um problema, agora ainda mais.

Um dia vou…

Abrir uma escola em Cabo Verde, mas uma escola diferente, porque eles lá têm muito medo do professor, as aulas são lecionadas em português, se eles dizem uma palavra em crioulo o professor reage mal. Eles não têm uma relação próxima com a escola, só vão porque são obrigados.

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A série #PessoasUA pretende mostrar as estórias e vivências das pessoas que fazem a comunidade UA. Se conhece alguém que deva estar aqui retratado, envie-nos uma mensagem com as suas dicas.

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