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Entrevistas
Professores UA - Myriam Lopes, Departamento de Ambiente e Ordenamento
Graduados da UA: "formação sólida, multidisciplinar, espírito aberto e facilidade de adaptação"
Myriam Lopes é professora do Departamento de Ambiente e Ordenamento e investigadora do CESAM
“No fundo, tento estimular os estudantes, independentemente da sua área de formação, para o seu papel enquanto cidadãos e enquanto profissionais na promoção de um desenvolvimento mais equilibrado e alinhado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”. Este podia bem ser um resumo dos objetivos da atividade docente de Myriam Lopes, professora do Departamento de Ambiente e Ordenamento. Mais do que formar técnicos, procura preparar os alunos para “serem profissionais e cidadãos”. Acredita que “cada novo aluno que chega é um ser humano especial e cheio de potencial para tornar o mundo e a sociedade melhores”.

Myriam Lopes é licenciada em Engenharia do Ambiente (1994), mestre em Poluição Atmosférica (1998) e doutorada em Ciências Aplicadas ao Ambiente (2005) pela Universidade de Aveiro. É docente do Departamento de Ambiente e Ordenamento DAO, da UA, desde 2001. É membro do Conselho Geral da UA e Investigadora Integrada do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) onde acumula funções de vice-coordenadora científica. Atualmente é coordenadora nacional do projeto ClairCity – Citizen Led Air Pollution Reduction in Cities, financiado pelo H2020. É representante da UA na Rede de Estudos Ambientais de Países de Língua Portuguesa (REALP, criada em 1997, com o objetivo global de promover a cooperação científica na área do ambiente e do desenvolvimento sustentável entre Portugal e o Brasil e outros países de língua portuguesa) e no PACOPAR (Painel Consultivo Comunitário do Programa Atuação Responsável de Estarreja).

Como define um bom professor?

Um bom professor tem de ser um mestre e um mentor, alguém que abre os horizontes e ajuda a desbravar novos caminhos. Para se ser bom professor, na minha opinião são necessárias três condições essenciais:

  1. Ter paixão pelo conhecimento e pela aprendizagem de novas competências, para poder ser fonte de inspiração para os estudantes
  2. Ter capacidade de comunicar e partilhar o seu conhecimento, mas simultaneamente estimular os estudantes na procura de informação, na construção do seu próprio conhecimento de forma autónoma e independente, e acima de tudo no desenvolvimento de competências formais (saber e saber fazer) e informais (saber estar e ter uma voz na sociedade). Para tal é necessário reconhecer que não se sabe tudo, que se está sempre a aprender e que o processo de ensino-aprendizagem é uma relação de simbiose e troca mutua de saberes e experiências, que contribuem para o crescimento intelectual e pessoal das duas partes – o docente e o estudante.
  3. Ter empatia com os estudantes, colocar-se no outro lado, estar atendo aos seus anseios e suas expectativas, mas também às suas dificuldades e ansiedades, principalmente sobre o futuro. De certa forma o professor tem de ser também um psicólogo. Esta é a dimensão mais difícil.

O que mais o fascina no ensino?

Contribuir para a formação de pessoas, de indivíduos, cada qual com o seu carácter e suas qualidades, acrescentando-lhes valor, preparando-os para serem profissionais e cidadãos e acreditar que cada novo aluno que chega é um ser humano especial e cheio de potencial para tornar o mundo e a sociedade melhores.

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes nos cursos a que está ligada?

Tenho estado envolvida na lecionação de unidades curriculares de vários cursos de licenciatura, mestrado e doutoramento. Quando comecei a dar aulas em 2001, estava mais dedicada a disciplinas fundamentais (Fenómenos de Transferência), ligadas aos problemas ambientais (Poluição Atmosférica, Poluição Sonora) ou às tecnologias ambientais (Tecnologias de Tratamento de Águas e Efluentes, Resíduos Sólidos, Reatores Químicos e Biológicos, Modelação Ambiental), e dava mais aulas laboratoriais. Mais recentemente e com as restruturações curriculares tenho estado envolvida em temáticas relacionadas com a gestão do ambiente e a gestão ambiental nas organizações, a gestão da qualidade do ar, as alterações climáticas e a sustentabilidade urbana, que passa pela análise do metabolismo urbano e as políticas de desenvolvimento e planeamento das cidades. Creio que este percurso permitiu-me complementar a minha formação de base com a componente de investigação e também as competências adquiridas nos trabalhos de consultoria e projetos de extensão universitária.

Em todas as disciplinas que leciono tento transmitir uma visão holística dos problemas do ambiente e sua interação com os modelos de desenvolvimento adotados pelas sociedades humanas, da importância de cada pessoa individualmente e coletivamente como parte desses problemas, mas também como parte da solução dos mesmos. No fundo, tento estimular os estudantes, independentemente da sua área de formação, para o seu papel enquanto cidadãos e enquanto profissionais na promoção de um desenvolvimento mais equilibrado e alinhado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Este é um dever (ou diria até uma obrigação) de todos os graduados da UA e não apenas os da engenharia do ambiente. Eu penso que enquanto universidade temos tido sucesso nesta matéria e neste objetivo. Os graduados da UA com os quais tenho maior interação, para além de uma formação sólida e, em muitos casos, multidisciplinar, são competentes, têm um espírito aberto e de cidadania, e são capazes de se adaptarem e ter sucesso, mesmo em percursos profissionais menos relacionados com a sua formação de base.

É possível traçar um perfil do aluno dos cursos onde leciona? Qual, ou quais, serão esses perfis?

Não acho que seja possível definir um perfil de aluno, nem de um curso, nem de um conjunto de cursos. Quando chega à universidade, cada aluno é um individuo, com um percurso de vida, com características próprias, com expectativas e ambições. Por vezes ainda perdido em relação às escolhas que fez ou o caminho que tomou, porque o que queria lhe foi vedado por uma média que não alcançou. De qualquer forma, parece-me que, quando chegam cá, estão um pouco formatados para alcançarem médias e metas curriculares e não para adquirirem competências. Falta-lhes o espírito critico, a capacidade de diálogo, análise e síntese, de tomada de consciência sobre o conhecimento e a sua utilidade prática e o interesse pela pesquisa. Por exemplo, entristece-me profundamente que, com tantos anos a estudar a língua portuguesa, os alunos tenham dificuldades de compreensão e de expressão escrita e até oral, ou que não tenham hábitos de leitura. Há algum tempo, ouvi alguém dizer que o futuro da humanidade está em educarmos pessoas com a sua humanidade, apostando nas artes, nas emoções, nas interações, porque qualquer máquina é hoje capaz de processar dados e informação e fazer cálculos melhor que qualquer ser humano. E na universidade temos a responsabilidade e o desafio acrescidos de romper com esse sistema e trabalhar uma nova visão humanista e individual. Então, também nós temos de melhorar os nossos modelos e métodos de ensino-aprendizagem, colocando o aluno no centro do processo e fazendo-o tomar consciência disso (Bolonha em prática). O facto de sermos, hoje, uma universidade com elevada mobilidade de estudantes contribui para uma visão mais holística. Penso que os alunos que concluem um curso na UA são profissionais competentes e empenhados e têm uma visão mais holística e globalizada do seu papel na sociedade.

Se quisesse dar um conselho aos seus alunos, que conselho daria?

Daria o conselho que costumo dar: que devem ler mais literatura e escrever mais (às vezes em jeito de brincadeira digo-lhes que escrevam cartas de amor), que nada se consegue sem esforço e dedicação, que a sorte por vezes ajuda mas, sozinha, não nos leva longe, que devemos estar atentos às oportunidades que se cruzam no nosso caminho, que eles são uma geração melhor do que a nossa ou a dos nossos pais, que lhes vamos deixar uma herança pesada de problemas, mas que eles estão mais aptos do que a minha geração para os resolver.

Mas gostaria de acrescentar: que os obstáculos fazem parte do caminho e superá-los dá-nos mais força e valor, que por vezes é preciso dar um passo atrás e seguir por outra estrada para se ter sucesso; que o verdadeiro sucesso não é ganhar muito dinheiro, mas fazer aquilo que se gosta e que nos dá prazer, porque aí deixa de ser trabalho e passa a ser um divertimento.

Houve alguma turma que mais a tivesse marcado? Porquê?

Todas as turmas me marcam de alguma maneira; claro que a primeira tem algo de especial pois marca o inicio do nosso percurso. Lembro-me bem do temor da minha primeira aula, o estar do outro lado das mesas, no palco, ter uma sala cheia a olhar para mim expectante e ter de representar um papel para o qual não estava preparada (pedagogicamente falando). Também recordo bem as turmas do período noturno (durante um período demos aulas no DAO em regime noturno) e do esforço conjunto que fazíamos (docentes e alunos) para tornar as aulas interessantes depois de um dia desgastante de trabalho (tenho um enorme respeito pelos trabalhadores-estudantes e pelo seu espírito de sacrifício, e curiosamente por vezes com melhores resultados que os colegas do regime normal). E claro, lembro já com saudade, das turmas deste último ano letivo, das sete unidades curriculares que lecionei, com alunos de seis cursos diferentes e muitos ERASMUS. Foi um ano trabalhoso, mas com resultados muito positivos e que me deixaram orgulhosa.

Mas, o que torna as turmas especiais são os alunos e, desses, recordo-me bem melhor. Muitas das memórias estão afixadas num placar no meu gabinete que preservo religiosamente, é o meu santuário (postais e pequenas lembranças de reconhecimento e amizade de muitos alunos e amigos). Tenho muita pena de não conseguir recordar os nomes todos… por vezes encontro-os, conversamos, mas invariavelmente tenho de perguntar o nome. Mas, de todos, guardo boas memórias, mesmo dos mais irreverentes, pois ajudam a testar os meus limites, a superar-me. Muitos tornaram-se amigos e vou seguindo os seus percursos profissionais e pessoais. São a minha outra família.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes?

Lembro-me de um aluno que era sempre o primeiro a chegar à aula prática da manhã (acho que era poluição sonora) porque tinha estado a fazer o turno da noite no INEM, e ficávamos conversando sobre algum episódio daquela noite até que os colegas chegassem. Lembro-me de uma aluna que, durante uma disciplina (de Avaliação e Gestão de Projetos), preparou um projeto, candidatou-o a um programa e foi aprovado para financiamento. Lembro-me de outro aluno que era um ativista político e deputado municipal e que, em resultado de um debate sobre modelos de gestão da água, apresentou uma proposta à assembleia municipal e me enviou um e-mail de contentamento por essa proposta ter sido aprovada. Lembro-me de outro que foi meu aluno, depois meu bolseiro e colega de investigação e, hoje, é padre. Lembro-me de uma turma de Sistemas de Gestão Ambiental, há três anos, que tinha seis alunos ERASMUS holandeses com ar de surfistas, que se sentavam sempre na fila da frente e distraiam completamente as colegas… enfim, tenho imensas recordações e histórias deliciosas para contar. Mas também tenho algumas histórias tristes que me causaram grande emoção, mas essas reservo-as para mim.  

Traço principal do seu carácter

Acho que sou uma pessoa empática, simpática e determinada. Gosto de desafios, mas acredito que há um limite - a dignidade - para atingir os objetivos.

Ocupação preferida nos tempos livres

Tenho um espírito renascentista! Não gosto de fazer sempre a mesma coisa, por isso tenho vários hobbies: cinema, literatura, costura, bordados e outros trabalhos manuais, pintura, musica (gosto de ouvir, mas também de cantar), jardinagem, viagens… às vezes até escrevo pequenas prosas e poemas que guardo só para mim… sempre que possível gosto de fazer coisas com a família.

O que não dispensa no dia-a-dia

Café, amigos e uma boa conversa.

O desejo que ainda está por realizar

Na realidade tenho três desejos que gostava de realizar:

  1. Levar os meus filhos e marido a conhecer a terra onde nasci (Angola) e as minhas raízes;
  2. Participar numa missão humanitária (antes de vir para engenharia do ambiente eu queria ser médica e trabalhar com missionários);
  3. Ir à lua e poder ver a Terra do espaço - era o meu sonho de criança e creio que não passará disso!
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