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Entrevistas
Raquel Camarinha, antiga aluna de música e nomeada para os prémios Victoires de la Musique Classique
Um cantor é, antes de mais, um ator
Raquel Camarinha está nomeada para os prémios em França - foto de Paul Montag
O amor pela literatura e pelo teatro levou-a ao canto. Nessa arte do domínio da voz e da expressão musical encontrou um espaço onde os dois se cruzam. Não é por acaso, portanto, que considera o cantor, antes de mais, um ator. A soprano Raquel Camarinha concluiu a licenciatura em Música (Canto) na UA e decidiu partir para França. No início deste ano, tornou-se a primeira não francesa nomeada para os prémios Victoires de la Musique Classique.

Natural da Póvoa de Varzim, começou a estudar música aos cinco anos e sempre ouviu muita música de todos os géneros. No conservatório local deu os primeiros passos na música. Raquel Camarinha vive em Paris desde 2009, cidade onde tem realizado grande parte do seu percurso musical, um percurso de sucesso. De tal modo que foi nomeada, já este ano, para os prémios Victoires de la Musique Classique, um dos mais importantes prémios da música clássica, em França e a nível internacional. Na categoria Révélation Artiste Lyrique, Raquel foi a primeira nomeada estrangeira em toda a história do prémio. "Uma honra", exulta a jovem soprano que considerou esta uma oportunidade para "mostrar que a formação musical e a cultura em Portugal têm muito para oferecer". Para além desta nomeação, do rol de distinções constam ainda: Melhor Intérprete Feminino na Armel Opera Competition (Hungria); 1º prémio no Concurso de Canto Luísa Todi (Setúbal); 1º prémio no Concurso de Canto Barroco de Froville (França); Prémio de Duo no Concurso de Canto e Piano Nadia e Lili Boulanger (França), entre outros.

Desde cedo, fez-se notar pelo timbre fresco e luminoso da sua voz, bem como pela delicadeza e inteligência da sua interpretação."É a força da voz nua de Raquel Camarinha que mais impressiona. Cantora e atriz, passando por todos os registos da voz humana, ela interpreta em todos os sentidos do termo" (resmusica.com).

Em Paris, a jovem soprano interpretou quatro óperas no Teatro do Châtelet – "Orlando Paladino", de Haydn, "O Rei Pastor", de Mozart, "La Pietra del Paragone", de Rossini, e "Carmen La Cubana"–, mas tem também atuado noutros espaços, como a Philharmonie de Paris, Chorégies d’Orange e noutras cidades europeias, como são o caso de Lisboa, Madrid, Milão, Genebra e Roterdão.

Em concerto, Raquel Camarinha colabora com artistas prestigiados, como Ophélie Gaillard, Brigitte Fossey, François Chaplin, Alain Duault, Xavier Gallais, Jay Gottlieb, Emmanuel Rossfelder, assim como com os ensembles Intercontemporain, Pulcinella, Matheus e Remix. Canta sob direção de David Allen Miller, Arie van Beek, Roberto Benzi, Jean-Claude Malgoire, Emilio Pomàrico e Jean-Christophe Spinosi.

A soprano tem participado em ópera do repertório barroco e clássico, nomeadamente Handel, Bach, Mozart,

Rossini, Donizetti, mas também atua em recitais de música de câmara, com repertório de mélodie française de Debussy, Fauré e Poulenc e de lied alemão de Schubert, Schumann, Wolf, Brahms, e gosta de participar em criações contemporâneas.

Colegas e professores como uma grande família

Raquel veio para a UA porque, afirma, queria aprender com António Salgado, na altura professor de Canto na academia aveirense. Mas refere que, rapidamente, fatores como a cidade, o campus, a relação e proximidade com colegas do Departamento de Comunicação e Arte (DeCA) e de outras unidades orgânicas, a excelência do ensino da UA, foram ganhando relevância para a então aluna "adotar completamente Aveiro e a sua Universidade".

"Lembro-me em particular do ambiente tão característico do campus universitário, da mistura de estudantes de todos os departamentos e disciplinas", recorda. "Penso muitas vezes nos colegas e professores que me acompanharam durante os cinco anos da licenciatura como uma grande família. É difícil destacar só alguns, mas devo um grande obrigado à Prof. Sara Carvalho, que me ajudou imenso durante a transição para o mestrado em Paris, ao Prof. Jorge Castro Ribeiro, pela sua grande amizade e apoio, e ao Prof. António Chagas Rosa que despertou em mim o amor do lied e da melodie française. Foi também durante os meus estudos na universidade que tive a oportunidade de interpretar os meus primeiros papéis de ópera (no Teatro Aveirense, por exemplo) e que ainda menciono no meu currículo. Tudo isso contribuiu para a construção da minha carreira", assinala Raquel Camarinha.

Abertura ao mundo

Após a conclusão da licenciatura, a recém-formada na UA quis voar para outras paragens, continuando a formação. "Eu queria prosseguir os meus estudos no estrangeiro e aproveitar os dois anos de mestrado para viver novas experiências culturais e musicais. Paris foi uma escolha muito natural, por ser uma cidade magnífica, com uma oferta cultural enorme e tão central na Europa que facilmente posso trabalhar ou fazer audições noutros países", explica.

Apesar de ter considerado "um grande desafio" entrar no Conservatório de Paris, Raquel Camarinha refere que a sua formação da UA lhe permitiu enfrentar as provas de "forma serena". Ali concluiu dois mestrados, um em Canto e outro em Música de Câmara. Depois, sentiu que ainda não era altura de deixar Paris e, alguns meses mais tarde, obteve o seu primeiro papel no Teatro do Châtelet, que marcou o verdadeiro início da carreira a um alto nível profissional.

A quem dá os primeiros passos na música e ambiciona uma carreira neste meio, deixa o aviso: "Um cantor tem fabulosa possibilidade de se exprimir não só através da música, mas também do texto. O cantor é, antes de mais, um ator. Assim, é muito importante o estudante abrir-se a todo o conhecimento, ler, buscar inspiração nas artes plásticas, no cinema,na observação do mundo que o rodeia e da vida de todos os dias."

Mais informações sobre a soprano Raquel Camarinha: www.raquelcamarinha.com

Nota: este artigo foi publicado na edição número 27 da revista Linhas

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