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Entrevistas
Antigo Aluno UA - Cristina Jácome, Licenciatura em Fisioterapia
Primeira fisioterapeuta com doutoramento em Fisioterapia realizado em Portugal licenciou-se na UA e dá aulas na ESSUA
Cristina Jácome, antiga aluna de Fisiterapia e docente da ESSUA
É a primeira fisioterapeuta portuguesa com doutoramento em Fisioterapia realizado em Portugal e já trabalhou com os melhores do mundo na área da reabilitação respiratória. Chama-se Cristina Jácome, tem apenas 29 anos e uma enorme paixão pela investigação. Licenciou-se na Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro (ESSUA), é especialista em reabilitação respiratória e professora nesta Escola da UA; atividade que concilia agora com a de investigadora no Department of Community Medicine da Universidade de Tromsø, na Noruega.

A Fisioterapia Respiratória sempre lhe despertou interesse e um prémio ganho em 2012 – a European Respiratory Society Short Term Research Training Fellowship - permitiu-lhe trabalhar durante três meses nos University Hospitals Katholieke Universiteit Leuven, na Bélgica, com uma das melhores equipas de investigação a nível mundial na área da reabilitação respiratória.

Assistente convidada na Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro desde 2014 e investigadora no Department of Community Medicine da Universidade de Tromsø desde 2016, Cristina Jácome licenciou-se em Fisioterapia (2009) na ESSUA, concluiu mestrado em Fisioterapia Cardiorrespiratória (2011) e doutorou-se em Fisioterapia pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (2016). Com a defesa da tese “Pulmonary rehabilitation in mild chronic obstructive pulmonary disease and its impact on computerized respiratory sounds” tornou-se a primeira fisioterapeuta com doutoramento em Fisioterapia realizado em Portugal.

Da sua atividade profissional, que começou pelo exercício em clínicas de fisioterapia, pode destacar-se a implementação e avaliação de programas de reabilitação respiratória em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) em diferentes projetos de investigação. Publicou 28 artigos em revistas especializadas, 34 trabalhos em eventos e cinco capítulos de livros. Tem experiência na área da Fisioterapia Cardiorrespiratória com ênfase na avaliação de parâmetros respiratórios (e.g., auscultação computorizada) e funcionais em pacientes com DPOC, bem como na prescrição de intervenções respiratórias.

Sempre soube a profissão que queria seguir? Não. Acho que a vida vai-nos dando oportunidades, abrindo caminhos e as nossas decisões vão-nos levando… Acho que foi assim que a Fisioterapia foi surgindo na minha vida.

Na minha adolescência já pensava seguir pela área da saúde, sentia que tinha aptidão para falar com as pessoas e que poderia seguir uma profissão que me permitiria ajudá-las em momentos de maior fragilidade. A ideia de seguir Fisioterapia foi começando a crescer e a influência de amigos que estudavam Fisioterapia fez o resto.

Quando ingressei no curso de Fisioterapia tinha já uma preferência pela área da Fisioterapia Respiratória. O que era um pouco fora do comum, pois comummente os estudantes procuram o curso de Fisioterapia principalmente centrados nas questões músculo-esqueléticas.

O que a levou a optar pela UA para estudar Fisioterapia? O encontro com a Universidade de Aveiro foi algo inesperado. Uma vez que sou natural de Vila Nova de Famalicão, inicialmente pensei ingressar em universidades mais a norte do país. Mas quando comecei a procurar mais informação sobre os cursos de Fisioterapia e as condições de ensino das instituições, encontrei o site oficial da Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro (ESSUA), onde vi que esta era uma Escola relativamente recente, com diferentes equipamentos ao serviço da formação dos futuros fisioterapeutas, com um projeto sólido de formação e desde logo ficou muito claro para onde ia o meu coração. Concorri em primeiro lugar para a Universidade de Aveiro e entrei.

O curso e a Escola corresponderam às suas expetativas? Sem dúvida alguma. Os cursos da ESSUA, e particularmente a Licenciatura em Fisioterapia que conheço melhor, dão-nos um contacto privilegiado com docentes da área da saúde (fisioterapeutas, médicos, enfermeiros, etc.) mais ligados ao mundo académico e outros mais ligados à prática profissional. Este encontro de docentes com diferentes backgrounds faz-nos desenvolver diferentes competências que são cruciais para o nosso sucesso no mercado de trabalho.

O que mais a marcou ao longo do seu percurso na Universidade de Aveiro? No último ano da minha licenciatura, lembro-me de uma unidade curricular “Investigação em Fisioterapia”, onde alguns docentes da ESSUA eram convidados a apresentar os seus trabalhos de investigação. Lembro-me especialmente de um desses seminários onde o docente convidado foi a Professora Alda Marques. Acho que esse seminário, onde a Professora Alda apresentou os trabalhos desenvolvidos no âmbito do seu doutoramento, com uma temática muito inovadora ligada à Fisioterapia Respiratória despertou em mim o interesse pela investigação, de querer saber mais.

“A investigação clínica é a minha paixão”

Alguma vez exerceu como fisioterapeuta? Na altura que frequentei o curso de Fisioterapia, este era ainda uma Licenciatura bi-etápica, e com o terceiro ano completo os alunos tinham o bacharelato e podiam exercer a profissão. Ingressei no 4º ano para completar a licenciatura, mas simultaneamente trabalhava numa Clínica de Fisioterapia. Quando terminei a licenciatura ainda trabalhei nessa clínica por mais uns meses, mas como esta era uma clínica generalista, onde tinha de ter competências para tratar pessoas com diferentes condições de saúde (músculo-esqueléticas, neurológicas, cardiorrespiratórias), desde cedo a perceção de que seria difícil ser uma profissional de excelência em todas as áreas começou a causar-me alguma inquietação.

Pouco tempo depois surgiu a oportunidade de integrar a equipa de uma Clínica de Fisioterapia vocacionada para as condições cardiorrespiratórias, e vi aí uma oportunidade de me especializar numa área que desde cedo me despertou interesse.

Senti que depois de abraçar este novo projeto faria todo o sentido voltar à academia e adquirir mais conhecimento na área específica da Fisioterapia Cardiorrespiratória. Na altura a melhor opção foi ingressar no mestrado em Fisioterapia Cardiorrespiratória na Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Porto.

E o que a fez avançar depois para doutoramento?Embora tenha realizado o mestrado no Porto, não hesitei em procurar a Professora Alda Marques para ser a minha orientadora da dissertação de mestrado. Nesta altura a Professora Alda estava a iniciar o Lab3R (Respiratory Research and Rehabilitation Laboratory) e acabava de ver alguns dos seus projetos submetidos à FCT financiados. Vi aí uma oportunidade de iniciar o meu percurso na investigação. Sabia que seria difícil conciliar a prática profissional com os meus objetivos de crescimento científico. Embora tenha sido difícil a decisão de deixar o meu trabalho na clínica, quando olho para trás fico feliz por ter tido essa coragem porque foi aí que verdadeiramente o meu caminho académico se iniciou.

Fui bolseira em dois projetos de investigação na UA e compreendi que nestes projetos conseguia por um lado trabalhar as minhas competências como Fisioterapeuta, aplicando a última evidência disponível ao serviço de pacientes com DPOC, nomeadamente através da implementação de programas de reabilitação respiratória. Por outro lado, estes projetos permitiram-me também desenvolver as minhas competências de investigação, através dos processos rigorosos de recolha de dados, da subsequente análise estatística e comunicação destes. Tive também a oportunidade passar três meses nos University Hospitals Katholieke Universiteit Leuven, na Bélgica, numa das melhores equipas de investigação a nível mundial na área da reabilitação respiratória.

Todas estas experiências fizeram-me perceber que a investigação clínica é a minha paixão, é neste contexto que me sinto continuamente a aprender, a evoluir. A evolução de bolseira associada a projetos para bolseira de doutoramento foi algo natural neste processo. Concorri às bolsas de doutoramento da FCT, ao mesmo tempo que concorri à primeira edição do programa doutoral em Fisioterapia, e acabei por conseguir e iniciar um novo percurso.

Entre a docência e a investigação

Como descreve o seu dia-a-dia profissional?Desde que integrei o Lab3R, o convite para colaborar pontualmente na docência de unidades curriculares no curso de Fisioterapia foi acontecendo. Considero que sempre tive alguma facilidade de transmitir conhecimento e comunicar com os outros, mas estas oportunidades foram sem dúvida muito importantes para apurar as minhas competências de docência. Em 2014 surge a oportunidade de colaborar na docência do curso de Fisioterapia de uma forma mais efetiva com um contrato a tempo parcial.

Os meus dias dividem-se entre a investigação e a docência. A componente de investigação vai desde a parte mais clínica, que inclui essencialmente a avaliação do estado de saúde dos sujeitos em estudo através de diversas medidas e a dinamização de sessões de Fisioterapia Respiratória; até um trabalho mais de gabinete, que implica toda a análise e publicação dos dados. Na docência tenho essencialmente as aulas e a orientação de trabalhos de investigação dos alunos do curso de fisioterapia.

O que mais o fascina nestas atividades profissionais?A inquietação e insatisfação constante, o querer sempre mais. A oportunidade de fazer todos os dias coisas diferentes. Estar com os alunos e poder partilhar com eles diferentes perspetivas e caminhos, estar com os pacientes e famílias e ter a oportunidade de os ajudar a viver melhor com a doença, trabalhar com uma equipa altamente motivada e lutadora, analisar dados e o processo de publicação, tantas coisas …

Há algumas competências adquiridas na UA que entenda terem sido fundamentais para o exercício das suas diferentes funções?As competências adquiridas na área da Fisioterapia Cardiorrespiratória. Esta não tem sido uma área prioritária no ensino dos futuros fisioterapeutas em muitas das escolas espalhadas pelo país. Na ESSUA, no entanto, é colocada a par da área músculo-esquelética e neurológica, existindo um semestre e um momento de prática profissional dedicado a estas questões cardiorrespiratórias.

Foi recentemente convidada a integrar uma equipa de investigação numa universidade estrangeira. Que nos pode adiantar sobre os seus projetos mais imediatos?Quando estava a finalizar o meu doutoramento recebi o convite para integrar uma equipa de investigação do Department of Community Medicine da Arctic University of Norway, Tromsø. Esta equipa tem um interesse comum com a equipa do Lab3R na acústica pulmonar. Na UA exploramos os dados da acústica pulmonar como medidas de resultado de intervenções respiratórias (e.g., programas de reabilitação respiratória) em populações com patologia, como é o caso da DPOC. Em Tromsø, estou envolvida num estudo epidemiológico onde pretendem usar os dados da acústica pulmonar como forma de rastreio de doenças respiratórias. O meu contributo nesta investigação é essencialmente na recolha e análise dos dados da acústica pulmonar, expertise que adquiri durante o meu doutoramento.

Onde se vê daqui a 10 anos?É difícil visualizar-me daqui a 10 anos… Sem dúvida que a investigação e a docência são atividades onde me sinto feliz e realizada e é onde me vejo a trabalhar daqui a 10 anos.

Embora com pequenas interrupções, o meu caminho na UA começou há mais ou menos 10 anos e gostaria que a UA continuasse a fazer parte da minha vida nos próximos 10!!

 

 

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