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Entrevistas
Professor UA – Carlos Fernandes da Silva, Departamento de Educação e Psicologia
Na Psicologia e na vida: “Um bom mestre não é o que cria discípulos, mas melhores mestres”
Carlos Fernandes da Silva
É uma referência nacional da Psicologia. Carlos Fernandes da Silva é professor há 34 anos, os últimos 11 no Departamento de Educação e Psicologia (DEP) da Universidade de Aveiro (UA). “Nunca perder a humildade e o respeito pelos estudantes”, é um dos lemas que traz consigo, dentro e fora das salas de aula. Da Psicologia, um curso e uma área de investigação que ajudou a nascer na Academia de Aveiro, garante uma formação em “ciência psicológica e não folk psychology”, para garantir aos estudantes “maior rigor na psicologia aplicada”.

Licenciou-se em Psicologia pela Universidade de Coimbra (1984) com 16 valores, defendeu Provas de Aptidão Pedagógica e Capacidade Científica em Psicologia (1990) e doutorou-se em Psicologia Clínica pela mesma Universidade em 1994. Fez uma pós-graduação em Neurociências pela Universidade de Oxford e, insaciável, está hoje no quarto ano de Medicina da Universidade de Coimbra. Ensinou nas universidades de Coimbra e do Minho.

Está na UA há 11 anos e, no DEP, ajudou a criar a Licenciatura em Psicologia e o Mestrado em Psicologia da Saúde e Reabilitação Neuropsicológica. Atualmente leciona as cadeiras de Raciocínio e Tomada de Decisão, Avaliação Neuropsicológica, Reabilitação Neuropsicológica, Neuropsicologia e Psicologia da Aprendizagem. 

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes no curso a que está ligado?

Baseada na evidência, isto é, formamos os alunos em ciência psicológica e não folk psychology, para lhes garantir maior rigor na psicologia aplicada.

Como define um bom professor?

Um bom mestre não é o que cria discípulos, mas melhores mestres. Um bom professor tem que dominar muito bem os conteúdos e competências que leciona, fundamentar tudo o que afirma com evidência científica e técnica, nunca opinião (doxa), comunicar muito bem (com serenidade e entusiasmo, com gestos e posturas expressivos, explicando claramente com exemplos práticos e esclarecendo os significados precisos de cada conceito novo, demonstrar como se faz, perguntar para testar o que comunica, suscitar a crítica dos estudantes e responder a todas as questões que colocam), sem nunca perder a humildade e o respeito pelos estudantes.

O que mais o fascina no ensino?

Partilhar com alegria e entusiasmo os conhecimentos, as competências, as anomalias da área científica, espicaçando a crítica e o arrojo sustentável para resolver paradoxos, e sobretudo promover o “saber ser” (dimensão ética).

Qual o maior desafio que enfrenta hoje um professor do Ensino Superior?

Conseguir manter o entusiasmo de ensinar face à elevada pressão para publicar em sistema taylorista (paper mania), face à elevada pressão administrativa (plataformas complicadas e demoradas sem abandono da duplicação em papel) e face à aberração da sobreposição das metas quantitativas relativamente à qualidade do que se aprende.

Qual o segredo para cativar os estudantes?

Respeitando-os (não somos superiores, desempenhamos papéis diferentes: nós ensinamos e os estudantes aprendem), aprendendo com os estudantes, estando atentos ao enfado e ao que interessa os estudantes, modulando a voz, fazendo gestos expressivos, promovendo a interação, não lendo diapositivos, pedindo desculpa se for caso para isso, mostrar entusiasmo e mostrar sempre como os conhecimentos serão úteis (incluindo o simples interesse epistémico – conhecer por conhecer). Valorizar os disparates como fonte de criatividade (disparate deriva de “díspar”, diferente), explorando de que modo uma ideia disparatada pode dar origem a uma solução – a ciência avança por grandes disparates.

Como é ser professor numa época em que a aposta passa pelo recurso a nova metodologia de ensino aprendizagem? Que novos desafios, esta estratégia de ensino voltada para o desenvolvimento de competências traz consigo?

Sempre partilhei o desenvolvimento de competências.

Que três conselhos daria aos seus colegas docentes?

1) Façam de conta que estão ao mesmo tempo a tirar um curso de licenciatura para não se esquecerem do que é estar na situação de estudante;

2) Quando pedem trabalhos, lembrem-se que os estudantes não têm apenas a sua unidade curricular;

3) Sorriam sempre (uma arma poderosa), riam com os estudantes, ganhem respeito respeitando, sejam clínicos (aproximarem-se dos estudantes, dos seus pontos de vistas, das suas expectativas, das dificuldades – mesmo pessoais – e dos objetivos)

E aos estudantes?

Estudem todos os dias um pouco, coloquem sempre as dúvidas na hora, colaborem uns com os outros (a competição deverá consistir em vencerem os próprios records, não os dos outros), respeitem o clima da aula, digam respeitosamente o que pensam, sentem e esperam e não avaliem (SGQ) os docentes em função dos resultados das avaliações nas unidades curriculares, mas do que foi a UC durante o semestre.

O que a seu ver está hoje bem e mal no ensino superior?

Bem: a investigação científica acessível aos estudantes. Mal: a ciência corre sérios riscos porque se incentiva (na Psicologia acontece) a valorizar apenas o que se publicou nos últimos 5 anos (desrespeito pelo trabalho de milhares de investigadores e dos fundadores das áreas científicas, por se valorizar apenas o que é útil para a comunidade (tecnologia ou serviços) e por ser difícil estudar algo de novo se o investigador não tiver CV nesse domínio temático.

E na profissão docente?

A exclusividade deveria restringir-se a dar aulas fora da universidade; os estudantes ganhariam mais se os docentes pudessem ter outras atividades (remuneradas ou não) fora da UA desde que não fossem nas horas de trabalho (40 horas semanais) – para trazer para as aulas a experiência do terreno. A progressão na carreira é um absurdo: as pessoas deveriam ir subindo por mérito mas dentro do seu posto, não por concurso público (este seria reservado para contratar alguém novo).

Houve algum grupo de alunos que mais o tenha marcado?

Todos os mais de 3 mil estudantes me marcaram. Mas o 1º ano de licenciatura de Psicologia de Aveiro, a turma que tive na Faculdade de Psicologia de Coimbra em 2004/05 e a turma que tive no ano letivo 1994/95 na Universidade do Minho marcaram-me profundamente pela positiva.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula?

Na Universidade do Minho, na turma de 1994/95, numa aula de Psicofisiologia os estudantes começaram por repetir a porção final de cada palavra que eu usasse começada pelo prefixo “dis” (ex.: dizendo eu “discorrer” eles diziam em uníssono “correr”) até que eu interrompi a brincadeira – a que achei piada – dizendo uma frase significativa, mas com a palavra “disputa”.

 

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