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Entrevistas
Gracinda Martins, coordenadora do Gabinete Pedagógico da Universidade de Aveiro
“Queremos que os nossos alunos se sintam bem e que sejam felizes”
Gracinda Martins, a coordenadora do ''gabinete da amizade''
Informar, apoiar, incentivar e, sobretudo, abraçar, enxugar as lágrimas quando as há e ir até ao fim do mundo para encontrar soluções. Criado em 1991, o Gabinete Pedagógico da Universidade de Aveiro (UA) alicerça-se na preocupação da Reitoria com o bem-estar e o sucesso académico de todos os estudantes da UA. Gracinda Martins, coordenadora do espaço desde o primeiro minuto, só não tem uma varinha de condão. Mas o sorriso aberto e franco, os abraços apertados, o olhar transparente e uma compreensão inesgotável fazem magia na hora de descomplicar os nós aparentemente mais apertados da vida de quem bate à porta do Gabinete. Não julga nem avalia. Não é psiquiatra nem psicóloga. É uma amiga.

Bate-se a qualquer hora à porta do Gabinete Pedagógico, entra-se e deste lado apetece ficar o resto do dia, conversar e partilhar…

É, antes de mais, uma observação muito simpática que agradeço. Na verdade, procura-se criar um ambiente agradável, quer a nível do espaço físico, quer, sobretudo, a nível da filosofia adotada no trato com os estudantes: confidencialidade e empatia. No Gabinete Pedagógico não se avalia nem se julga, pretende-se informar, apoiar, incentivar e criar condições para que o estudante com problemas possa enfrentar as situações difíceis. Procura-se honrar, o melhor possível, a ideia do Sr. Professor Doutor Renato Araújo, ex-Reitor da UA, quando, em 1991, preocupado com o bem-estar e o sucesso escolar dos estudantes, criou este gabinete.

Que intenção primordial foi essa?

Foi sua intenção, que tem sido preservada por todos os Reitores e respetivas equipas reitorais que se seguiram, proporcionar aos estudantes um espaço acolhedor de apoio, onde pudessem ser ouvidos sobre qualquer assunto. Pelas reações dos estudantes e pelo uso que fazem do gabinete, creio que se sentem aqui bem.

Podemos rebatizar este espaço para Gabinete da Amizade?

Podemos, sim. No coração de quem o frequenta e no meu, sempre foi o gabinete da amizade. Os estudantes que entram no Gabinete Pedagógico, independentemente de ser a primeira ou a quinquagésima vez, são sempre recebidos como amigos e saem com esse estatuto. O comportamento dos estudantes tem, sem exceção, feito jus a este conceito. Mesmo quando terminam a sua formação académica, muitos continuam a dar notícias e é sempre um enorme prazer quando surge à porta do gabinete um antigo aluno que está de passagem e vem fazer uma visita.

Sem querer quebrar a redoma protetora que é este espaço para os estudantes que aqui entram, que histórias, que problemas, que situações trazem à espera de uma ajuda?

Ao fim de quase 23 anos, há um número imenso de histórias que poderia contar. Naturalmente, como refere, há uma redoma protetora. A confidencialidade é a primeira regra a ter em conta num gabinete com as caraterísticas do Gabinete Pedagógico. É sagrada. Mas podemos falar na generalidade e referir algumas situações. No topo da lista, estão os problemas pessoais. Esses são os mais complicados e de mais difícil resolução e afetam, na maioria dos casos, o sucesso escolar. Mas não é só na promoção do sucesso escolar que a UA se empenha. Queremos que os nossos alunos se sintam bem, que se integrem em pleno nesta família alargada que é a comunidade académica e que sejam felizes.

Fale-nos desses problemas de integração na comunidade académica que aqui lhe surgem.

A integração é uma das situações com que o gabinete tem que lidar. Não é dos maiores problemas, porque a UA desenvolve, como se sabe, várias ações para a integração dos seus estudantes, nas quais está envolvida toda a comunidade académica, mas a transição do ensino secundário para o superior, a saída da casa dos pais, a entrada “oficial” na vida adulta … Pode não ser fácil. Dizer a um aluno que já passámos pelo mesmo, dar algumas ideias sobre a melhor forma de ultrapassar os primeiros obstáculos, pode ser uma boa ajuda.

Que outros desabafos entram neste gabinete?

Há também alunos que se inscreveram num curso que não corresponde à sua preferência… O gabinete não está credenciado para a orientação vocacional mas, perante as ofertas da UA, tem sido possível, em muitos casos, o aconselhamento e a orientação para um curso diferente e mais adequado aos gostos ou competências do estudante. Seria exaustivo mencionar todas as situações, mas não posso deixar de referir as dificuldades de caráter económico – conhecemos bem a situação atual das famílias portuguesas. Nesta matéria, apenas é possível ouvir, dizer umas palavras de conforto e encaminhar para os serviços e entidades competentes da UA vocacionados para a procura de soluções destes casos.

É-lhe fácil chegar ao fim do dia e ir para casa sem pensar nas histórias que aqui ouve diariamente?

Pela natureza de alguns problemas que os estudantes apresentam e pelo facto do gabinete ser, como carinhosamente referiu, o gabinete da amizade, não é fácil, ao fim do dia, fechar a porta e esquecê-los. Há situações dramáticas perante as quais é impossível “desligar a ficha” e não pensar mais no assunto. E, às vezes, também é irresistível marcar um número de telemóvel, mesmo que seja fim de semana ou fora das horas de trabalho para perguntar:  “Então, como é que foi? Correu bem? Conseguiu resolver? Está melhor?” 

Mas imagino que nem só de situações difíceis vive o Gabinete Pedagógico.

Os estudantes também vêm conversar sobre os seus sucessos pessoais e académicos. O sorriso que acompanha estes relatos é a melhor recompensa pelo trabalho realizado. São frequentes estas situações e isto faz esquecer tudo. O respeito pela confidencialidade impede-me de relatar aqui algumas histórias bonitas que jamais esquecerei. Sou uma privilegiada, faço aquilo de que realmente gosto e sinto-me muitíssimo honrada por privar com os estudantes da UA, com quem muito tenho aprendido. Considero-os a todos como amigos, por quem nutro um carinho e respeito enormes.

Há soluções para todos os casos?

Infelizmente, não há, como em muitos aspetos da vida. Mas, a UA está atenta aos seus estudantes e estão ativas muitas vias às quais é possível recorrer – a Reitoria, os Departamentos, os Serviços de Ação Social, o Provedor do Estudante, os docentes, as secretarias e os serviços da UA em geral estão disponíveis para ajudar os estudantes, de acordo com as suas funções. No que ao Gabinete Pedagógico diz respeito, nenhum aluno sai sem resposta. O que é possível resolver no Gabinete é resolvido. Quando é da competência de outros serviços, faz-se o devido encaminhamento. Quando há a certeza de que não há solução, é explicada ao aluno a razão dessa impossibilidade. E, quase sempre, compreendem e aceitam as razões. O facto de os estudantes saberem que há um gabinete onde podem ser ouvidos com toda a atenção, compreensão e respeito constitui um conforto muito grande.

A UA orgulha-se de ser uma Universidade inclusiva, preparada para receber todo e qualquer jovem que aqui queira estudar. Pensando nos estudantes com necessidades educativas especiais (NEEs), é mesmo assim?

É mesmo assim. A UA é uma Universidade inclusiva e tem muito orgulho nisso, mas nunca estaremos totalmente satisfeitos, queremos sempre fazer mais e melhor, dentro das nossas possibilidades, sobretudo, nas duas situações em que temos mais dificuldades e para as quais ainda não temos as soluções desejadas – os estudantes surdos e os que necessitam de um cuidador pessoal. Excetuando estas duas situações, ouso dizer que não estamos nada mal.  Temos infraestruturas e procedimentos adequados às necessidades dos 60 alunos com necessidades especiais, de vária índole, inscritos nos diversos programas de graduação, pós-graduação e CET’s. Os nossos estudantes com NEEs participam ativamente na vida académica e nas suas atividades culturais e recreativas, como por exemplo, a vela adaptada e a dança, entre outras. Existe mesmo um grupo de Dança Inclusiva dos Estudantes da UA. Ninguém fica indiferente à beleza duma pessoa que dança em cadeira de rodas com outra, que podendo usar os seus membros sem qualquer entrave, com ela interage, criando um quadro perfeito.

Que soluções tem a UA para esses estudantes e para cada uma das suas necessidades específicas?

Tem várias e, sobretudo, tem soluções adaptadas a cada estudante, em conformidade com as suas caraterísticas e necessidades. Essas soluções vão desde a concessão de tempo extra nas provas de avaliação ou alguma adaptação das mesmas, ao apoio extra dos docentes, até ao equipamento da biblioteca da UA e dos técnicos competentes que realizam um excelente trabalho de produção de bibliografia em formatos alternativos. A Reitoria tem ainda adquirido algumas ajudas técnicas, como por exemplo, uma cadeira de rodas para empréstimo temporário e uma cadeira com verticalização para uso nos laboratórios. Há muitas mais, mas seria uma longa lista. Há, sobretudo, uma grande boa vontade por parte de todos, em proporcionar as melhores condições.

O Gabinete conta com um grupo de voluntários prontos para as mais diversas missões. Que ações realizam eles?

Sim, o Gabinete Pedagógico conta com um grupo de voluntários composto por estudantes, docentes e não docentes que prestam apoio aos alunos com necessidades especiais em diferentes áreas – cantina, desporto, explicações, apoio na pesquisa bibliográfica, entre muitas outras. Precisaria de muitas palavras para falar dos voluntários do Gabinete Pedagógico. Assim, presto a este grupo de pessoas extraordinárias, generosas e imprescindíveis, a homenagem possível na frase que sempre repito: “A UA é uma Universidade inclusiva, mas sê-lo-ia muito menos sem o trabalho dos voluntários”. O trabalho que realizam é inestimável e as minhas palavras de reconhecimento ficarão sempre aquém do que merecem que seja dito.

Somos uma academia feita de gente solidária?

Sem sombra de dúvida. Mesmo as pessoas que não estão envolvidas em ações mais ou menos formais de voluntariado oferecem, com frequência, a sua disponibilidade e generosidade. 

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