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Entrevistas
Fábio Silva, antigo aluno da Universidade de Aveiro, desvenda o batismo da maior montanha portuguesa
Aldebaran: a Estrela que deu nome à Serra
O arqueoastrónomo Fábio Silva, licenciado em Física pela Universidade de Aveiro
Sempre lá esteve desde o princípio da nacionalidade a assinalar o ponto mais alto de Portugal continental. Mas alguém ainda se terá questionado sobre o porquê da Serra ser chamada de Estrela? O arqueoastrónomo Fábio Silva já. E, provavelmente, já tem a resposta. Licenciado em Física pela Universidade de Aveiro, curso que terminou em 2006, mudou-se depois para Inglaterra onde fez um doutoramento em Astrofísica na Universidade de Portsmouth. Seguiu-se um mestrado em Astronomia Cultural na Universidade de Wales que o catapultou para as estrelas, mais concretamente, em direção a Aldebaran.

Pelo estudo da posição dos dólmens, edificados há seis mil anos em redor da montanha maior, Fábio Silva constatou que a entrada de todos eles está virada para o lugar onde, no horizonte, a estrela Aldebaran, a mais brilhante da constelação de Touro, nasce todos os anos em abril. No artigo publicado em fevereiro no “Papers from the Institute of Archaeology”, Fábio Silva revela as ligações do batismo milenar, o porquê da importância da Aldebaran para os povos pré-históricos e de que forma as histórias atuais do folclore da Serra corroboram a sua tese.

De Londres, onde está a fazer um segundo doutoramento em Arqueologia na University College London - também leciona Arqueoastronomia, a nível de pós-graduação, na University of Wales Trinity Saint David – Fábio Silva desvenda-nos o prazer imenso que encontra na imensidão universal e de que forma as pedras dos dólmens parecem homenagear uma Estrela tão importante para se sobreviver há milhares de anos atrás numa das maiores montanhas da Península Ibérica.

Podemos começar por saber o que é um arqueoastrónomo?

Um arqueoastrónomo está algures entre um astrónomo e um arqueólogo. O seu principal interesse é estudar as astronomias de povos antigos: as crenças e práticas relacionadas com o céu e os astros, a partir dos registos arqueológicos que os mesmos deixaram para trás. A arqueoastronomia, enquanto disciplina, complementa muitas outras dentro da Arqueologia, para tentar compreender não só como sociedades antigas viviam mas o que pensavam e acreditavam.

Os estudos sobre Stonehenge, na Grã-Bretanha, que apontam para uma relação direta entre a construção pré-histórica e o alinhamento dos astros é um exemplo do que a arqueoastronomia investiga?

Exatamente! O exemplo clássico do trabalho de um arqueoastrónomo prende-se com a descoberta, hoje bastante famosa, de que o Stonehenge, na Grã-Bretanha, se encontra alinhado com o nascer do Sol no Solstício de verão e o pôr do Sol no Solstício de inverno. Sabemos hoje que pessoas de toda a Grã-Bretanha concentravam-se periodicamente nesta zona, onde efetuariam procissões que culminavam nos Solstícios, em particular o de inverno. O eixo final destas procissões coincide com o pôr do Sol no Solstício de inverno. Por outras palavras, à medida que se aproximavam do Stonehenge, os peregrinos podiam ver o sol de inverno a põr-se sobre o mesmo. Hoje em dia, durante os Solstícios a English Heritage, que gere a conservação e entrada de turistas no monumento, abre as portas aos interessados para experienciarem o nascer do Sol, no verão, e o pôr do Sol, no inverno.

Astronomia, história, arqueologia… Quando é que se começa a interessar por estas três ciências?

O interesse pela astronomia, assim como pela história e pela arqueologia, vêm da minha infância e sempre foram complementares: cresci a ler livros que o meu pai foi colecionando quando teria a minha idade que apontavam os mistérios não resolvidos das civilizações antigas. Alguns destes, hoje completamente desacreditados, tentavam explicar estes mistérios através de extraterrestres visitando as primeiras civilizações. Credíveis ou não, estes livros propulsionaram o meu interesse tanto pela Astrofísica como pela Arqueologia. Mas só a meio do doutoramento em Astrofísica resolvi enveredar por este 'caminho do meio', juntando estas duas áreas que me fascinam.

Como surgiu o trabalho que o levou à constatação de que o nome da Serra da Estrela pode estar ligado à estrela Aldebaran?

Em 2010 iniciei um projeto a longo-prazo de prospeção dos dólmens, monumentos megalíticos pré-históricos construídos há cerca de seis mil anos - também conhecidos como antas ou orcas - da região entre o Mondego e o Douro. Na altura fez parte de um projeto de mestrado que, entretanto continuei.

Porque é que escolheu essa zona geográfica?

Porque o norte do país, do vale do Mondego para cima, contém uma grande concentração de monumentos megalitícos que se estende para Norte englobando a Galiza. Fazia então sentido começar por algum lado: decidi começar pela extremidade sul desta concentração uma vez que se encontrava mais próximo de Aveiro. Estes trabalhos de campo focaram-se na medição da orientação da entrada destas estruturas, assim como uma observação mais cuidada da paisagem que as rodeia.

Qual foi o objetivo dessas medições?

O objetivo era verificar se existiria algum padrão a nível de orientação e implantação na paisagem e, mais concretamente, se esse padrão corresponderia a algum evento astronómico como acontece com, por exemplo, o Stonehenge. Três anos volvidos, e mais de cinquenta antas visitadas, comecei a fazer uma análise mais microscópica, concentrando-a em núcleos megalíticos bem definidos, tanto geográficamente como arqueológicamente. Comecei então pelo Mondego, nomeadamente pela zona de Carregal do Sal, que apresenta vários monumentos em bom estado de conservação e restauro.

E encontrou ligação entre as entradas das antas, a geografia circundante e a posição dos astros?

Sim, mas isso não aconteceu de imediato. O problema em Carregal é que os dólmens encontram-se em zonas florestais, com muito eucalipto, o que impossibilita ver o horizonte distante. Tive de recorrer a modelos digitais do terreno para reconstruir virtualmente o horizonte. Foi então que me apercebi do padrão existente neste dólmens: todos eles se encontram orientados para a Serra da Estrela, visível a Este-Sudeste de Carregal do Sal.

Qual seria a importância da Serra da Estrela para as comunidades Neolíticas?

Essa importância já é conhecida há algum tempo. Há seis mil anos atrás as comunidades da plataforma do Mondego praticavam um misto de caça e recoleção, com elementos de pastorícia, à base de ovelhas e cabras, e talvez também um pouco de agricultura. Viviam uma existência sazonal: passavam o inverno no vale do Mondego e o verão na Serra da Estrela, que forneceria prados e comida para os alimentar, assim como aos seus animais domesticados. O facto dos dólmens se encontrarem orientados para este importante relevo fazia então sentido. Noutros países da Europa este tipo de relação entre monumentos megalíticos e a topografia circundante também se observa.

A zona da Serra da Estrela para a qual estão orientados os dólmens teria, por sua vez, um significado ainda mais especial para esses povos?

O próximo passo foi então tentar perceber se a zona da Serra da Estrela que é observável de dentro de todos estes dólmens e que, estranhamante, não corresponde ao pico da Serra mas a uma encosta, poderia ter algum significado especial, relacionado com o nascimento de algum astro. As únicas hipóteses possíveis eram o nascer do Sol por volta de 20 de fevereiro, ou o nascimento da estrela Aldebaran, a mais brilhante da constelação do Touro. Esta estrela, muito brilhante e vermelha, há seis mil anos nasceria exatamente sobre a Serra da Estrela e, talvez mais importante, tinha o seu nascimentos heliacal ('heliacal rising') nos finais de abril/ínicios de maio. As estrelas tão distantes dos pólos celestes não são visíveis durante todo o ano: elas desaparecem do céu noturno durante um tempo, reaparecendo depois, no seu nascimento heliacal, exatamente antes do nascer do Sol.

E porquê a orientação dos dólmens para o local de nascimento dessa estrela e não de outra?

Porque o nascimento da Aldebaran, no período em que os dólmens foram construídos, ocorria numa altura em que as comunidades da plataforma do Mondego teriam de começar a "migração" para passarem os meses quentes na Serra da Estrela. Esta observação astronómica funcionaria então como um perfeito marcador sazonal para estas comunidades. Esta hipótese tem precedentes noutras culturas, históricas e etnográficas, como, por exemplo, no Antigo Egito, onde o nascimento heliacal de outra estrela brilhante, Sirius, marcava o ínicio do ano agrícola, e, mais próximo de nós temporalmente, tribos tradicionais da floresta Amazónica, que usam o nascimento heliacal das Plêiades para marcar a transição da época das chuvas para a época da seca.

Poderá o nome da serra, como leva a crer a sua investigação, estar de facto ligado à estrela Aldebaran?

Para responder a essa questão resolvi explorar o porquê da Serra ter aquele nome e se haveria registos históricos sobre a origem do mesmo. Não consegui encontrar nada, exceto as lendas locais. Existem várias versões, mas todas andam à volta de um núcleo que se mantem: elas falam de um pastor que vivia no vale do Mondego e que, vendo uma estrela nascer sobre uma serra no horizonte, decide ir atrás dela. Quando chega à Serra o pastor decide dar-lhe o nome de Serra da Estrela.

Essa lenda do folclore local parece corroborar a ciência…

Exato! Esta narrativa é bastante semelhante ao que a arqueologia e a arqueoastronomia nos dizem: as comunidades Neolíticas do vale do Mondego, que praticavam a pastorícia, ao observarem Aldebaran nascer sobre a Serra, começariam a sua transição para as cotas mais elevadas da Serra, onde permaneceriam durante os meses quentes. Estamos portanto perante um caso em que o folclore pode ter mantido viva a memória de algo de extrema importância há seis mil anos atrás.

A que outros projetos tem levado a metodologia que utilizou na Serra da Estrela?

Estou a estender esta metodologia aos outros núcleos megalíticos da área estudada, assim como a continuar o trabalho de campo, agora, a norte do Douro. Embora o foco da minha investigação seja na pré-história do Norte de Portugal, tenho participado em vários outros projetos. Dentro da Arqueoastronomia colaboro num projeto semelhante relativo aos templos pré-históricos do arquipélago de Malta e, mais recentemente, comecei a estudar os monumentos à volta do Stonehenge. Estou a dar aulas na University of Wales Trinity Saint David, portanto tenho apoiado também os projetos dos vários alunos. Por outro lado, tenho também vários projetos em Arqueologia, focados na aplicação de métodos matemáticos e computacionais para a resolução de problemas arqueológicos e antropológicos como, por exemplo, a difusão da cerâmica no Velho Mundo.

Enquanto arqueoastrónomo, que enigma gostaria um dia de desvendar?

Por agora o neolítico da Península Ibérica vai-me manter ocupado por algum tempo: penso que este tipo de trabalho vai revelar uma maior complexidade, assim como uma maior individualidade entre grupos, do que se imaginaria para a pré-história. No entanto, sempre fui um apaixonado pelo Antigo Egito, cujas crenças e práticas envolviam bastante os astros, e, um dia, gostaria de tentar desvendar um pouco mais as suas origens.

 

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