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Iola Duarte - uma certeza na profissão: ser investigadora
Iola Duarte
O percurso de Iola Duarte é uma sucessão natural de acontecimentos numa cadeia de etapas bem definidas. Aos 37 anos, a investigadora do Laboratório Associado CICECO é um nome reconhecido na comunidade científica.

Um discurso contido, estruturado e disciplinado resume as respostas às questões. As palavras soltam-se quando fala das paixões: a química, a investigação, a família e a Universidade de Aveiro. Não necessariamente por esta ordem, mas antes como momentos de um percurso profissional que começa onde nascem todos os sonhos, na infância e, depois, na juventude.

Das brincadeiras de criança não fazem parte tubos de ensaio nem experiências químicas. Brinca como todas as meninas com bonecas e “ao faz de conta”, numa infância que começa em Angola, viaja pelo Brasil, até se fixar em Aveiro, num regresso ao país que constitui, para os pais, um novo ponto de partida. É nesta cidade que a criança, que também quis ser “médica pediatra”, ensaia as suas primeiras experiências. Recorda também, como marcante, as conversas que mantém com o pai, um apaixonado pela relojoaria, e o entusiasmo que ele lhe transmite ao revelar-lhe as descobertas científicas que fizeram avançar o conhecimento, estimulando-lhe a curiosidade e o fascínio pelo saber.

É na Escola Secundária José Estevão, na cidade de Aveiro, que descobre que a química lhe reservará um encontro marcado com a ciência no percurso profissional. Quando conclui o secundário, a média final de 19 valores possibilita-lhe escolha ampla. Pondera enveredar pela saúde, pelo curso de Medicina, mas Iola Duarte mantém-se fiel à química. Refuta a norma e escolhe o curso da Universidade de Aveiro que acabava de ser reformulado oferecendo três ramos de conhecimento. A estudante opta por Bioquímica e Química Alimentar.

Chega em 1993, vinte anos depois do início do “setor de química” ter sido lançado por Victor Simões Gil, primeiro Reitor da UA, também ele químico de formação. Inaugura as novas instalações do departamento desenhadas e projetadas por Alcino Soutinho, e encanta-se. Descreve desta forma a universidade duas décadas depois da sua criação: “um dos aspetos que diferenciava a UA de outras Universidades mais antigas, para além das boas instalações, era a proximidade que os professores estabeleciam com os estudantes. Recordo também o espírito de entreajuda entre colegas, e o bom ambiente, de um modo geral”.

O trabalho realizado ao longo da licenciatura distingue-a entre os colegas. Logo em 1995, um projeto de iniciação à investigação, um estudo espectroscópico relacionado com o processo de amadurecimento de frutos permite-lhe representar o país no London International Youth Science Forum. No final do ano académico seguinte, recebe o prémio Dow Portugal, S.A por ter sido a melhor aluna do curso de química na UA. Em 1997, termina a licenciatura com média de 16 valores. A continuação dos estudos é, naturalmente, uma outra etapa que decorre do caminho percorrido.

A professora Ana Gil ocupa um lugar de referência no seu percurso: “Foi com ela que descobri e desenvolvi o gosto pelo trabalho de investigação, que aprendi a valorizar todos os resultados, incluindo os que pareciam menos bons, e a procurar fazer sempre qualquer trabalho com rigor e com brio. Hoje, trabalhamos juntas em vários projetos e partilhamos a amizade e o entusiasmo em fazer ciência”.

A produção científica com posters, comunicações em congressos nacionais e internacionais e publicações em revistas da especialidade, intensifica-se durante e após o doutoramento. Em 2003, defende a tese “Aplicação de espectroscopia de Ressonância Magnética Nuclear e espectroscopia vibracional para a caracterização de produtos de frutas e bebidas”. Este trabalho proporciona-lhe a exploração de um conjunto de técnicas, entre as quais se destaca a Ressonância Magnética Nuclear (RMN).

A vivacidade toma conta das palavras quando fala de investigação. Nessa altura “esta técnica começava também a encontrar aplicações muito promissoras na área da saúde, que despertaram a minha curiosidade e o meu interesse”, refere a investigadora. O contacto estabelecido com um dos grupos de referência que utilizava a técnica no transplante do fígado, em Inglaterra, precedeu a investigação sobre as assinaturas metabólicas do cancro do pulmão, desenvolvida na UA em colaboração com a Faculdade de Medicina e os Hospitais da Universidade de Coimbra.

É com este projeto sobre o cancro pulmonar que recebe o Prémio de L’Oreal Portugal para as Mulheres na Ciência 2007, e também uma Bolsa da Liga Portuguesa contra o Cancro. O reconhecimento é celebrado em equipa e um grande estímulo para prosseguir a investigação em saúde, uma linha onde o grupo de metabolómica em que se insere desenvolve vários outros projetos, por exemplo no diagnóstico pré-natal e na área da toxicologia.

Sobre a ciência, a investigação no país e na UA constata o esforço feito “O aumento significativo da produção científica em inúmeras áreas, a crescente participação de investigadores e instituições portugueses em redes e projectos internacionais, a capacidade de liderar investigação competitiva e atrair fundos para a suportar são sinais de uma evolução notável”.

Para além de investigadora, docente e cidadã ativa Iola Duarte é também mãe, um projeto maior que abraçou por duas vezes. A célula familiar é o seu refúgio e o regresso diário de uma rotina que começa bem cedo traduzida num “tempo único e precioso que ajuda ao equilíbrio pessoal e à produtividade no trabalho”.

Iola Duarte continua a perseguir o avanço do conhecimento “não só para a ciência do ponto de vista mais lato, mas para a qualidade de vida das pessoas”, nos múltiplos projetos em que participa. A investigadora tenciona continuar no país e ativamente, no Departamento de Química da UA, a sua “segunda casa”.

 

Nota: Este texto integra a edição nº18 da Linhas - Revista da Universidade de Aveiro

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